sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Conexão


 Tenho profunda conexão com o universo. Isso faz com que eu saiba de muitas coisas sem ter pesquisado, que meus instintos gritem quando estou em perigo ou me levem a lugares que preciso ir como um verdadeiro GPS. Muitas vezes confundi os alertas, as bandeiras vermelhas com as verdes, por imaturidade ou teimosia e os resultados foram péssimos. Com o amadurecimento entendi que tudo é uma grande engrenagem, onde cada ser humano é responsável pelo seu bom ou mau funcionamento, portanto, se formos uma peça limpa e inteira permanecemos como parte do mecanismo e conheceremos seu núcleo. Se não, seremos esmagados ou cuspidos fora. Mesmo como criatura não política, nas eleições de 2018 senti uma profunda rejeição por determinado candidato, que infelizmente ganhou. Logo depois comecei a sentir um medo enorme, uma nuvem do mal se formando e eu não conseguia identificar de onde vinha nem o que era, mas garanto que era muito angustiante. Era a pandemia. Não gosto de futebol, mas enquanto meu companheiro assistia a um jogo e eu via um filme vi uma palavra que acionou a bandeira vermelha, uma tal de BET. Perguntei o que significava aquilo e ele disse que não sabia porque era a primeira vez que via a palavra, mas eu sentia que não era uma coisa boa e que cresceria muito em pouco tempo. Está aí e começa a mostrar seus frutos. Não tenho religião, mas me assustei demais quando vi determinada religião brotar em todos os lugares como erva daninha, uma religião que não exigia nada de seus pastores, a não ser um microfone e cadeiras para as ovelhas se acomodarem. E quanto mais ovelhas, mais dinheiro. Agora está em todas as casas, empresas e órgãos governamentais enfiando por nossa garganta suas convicções tolas e promovendo o ódio contra quem pensa diferente. Escrevo isso usando máscara depois de uma noite terrível lutando pra respirar, olhando através do vidro da janela e vendo a cidade toda coberta pela fumaça. Isso porque a ordem vinda dos esgotos sujos e obscuros era "tocar fogo no Brasil". Combina bem com eles e seu habitat que é o fogo dos infernos. Devem estar muito felizes gargalhando e admirando as chamas. E pouco se importam com quem morre pela peste ou pelo fogo. Se perguntar, porão a culpa em Deus, como sempre fazem.

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Relógios

Minha mãe tinha um lindo relógio de ouro, bem pequeno, com abelhas nas laterais do mostrador, cujos olhos eram pequenos brilhantes. Em ocasiões especiais ela me vestia toda engomada e arrematava o visual colocando o tal relógio em meu braço. Da primeira vez eu fiquei encantada até o momento em que voltamos para casa e ela viu que ele estava parado. Era difícil entender, já que ela tinha dado corda nele e deveria estar funcionando. De imediato a culpa caiu sobre mim. Ela afirmava que alguma coisa eu tinha feito para estragar o relógio. Chorei muito pois era muito comportada e sabia que não tinha nem mesmo tocado na tal preciosidade. Mas quando ela deu corda ele voltou a funcionar normalmente e foi colocado no cofre. Na próxima saída lá veio ela com ele de novo dizendo que ia me dar mais uma chance e que se eu voltasse a fazer o sei lá o que para ele parar eu sofreria as consequências. E dessa vez não fiquei contente e passei o tempo todo com o braço duro, me desviando de tudo e todos para que nada acontecesse com o bendito relógio. Mas adivinhem, ele parou de funcionar e sofri as consequências quando chegamos em casa. Daí em diante era uma tortura quando tínhamos que ir a alguma solenidade, por causa do "maldito" relógio, que sempre parava mas  voltava a funcionar quando minha mãe dava corda e colocava em meu braço. E a cada vez ela fazia infinitas recomendações e ameaças caso eu o "estragasse" de novo. Ela nem eu entendíamos o que acontecia, mas ela estava certa de que eu fazia de propósito. Um dia, felizmente ela desistiu de mostrar às pessoas que eu usava um relógio de ouro. E eu passei a odiar relógios, embora nunca tentasse desvendar o mistério dos relógios não gostarem de mim. Nessa época todos os relógios eram analógicos. Quando fiquei adulta cheguei a testar relógios de colegas de trabalho e amigos e descobri que eles começavam se atrasando quando eu os colocava e depois paravam. Quando voltavam para os donos voltavam a funcionar normalmente. Sempre fui muito racional e a essas alturas sabia que havia uma explicação lógica. Eu precisava de um relógio naquela época em que não havia celulares e não sabia o que fazer. Um dia vi numa vitrine um relógio Casio, digital. Num estalo resolvi arriscar todas as cartas e comprei um, já que o vendedor me disse que não precisava dar corda, que ele funcionava a bateria. Incrivelmente esse relógio nunca parou, a não ser quando acabava a bateria. Até hoje não sei o que acontecia, mas acredito que tenha a ver com o meu campo energético. 

 

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Fim da Estrada


 Quando acabava a estrada à frente comecei a olhar para trás. Vi quando ao invés de escolher o caminho seguro me iludi com um jardim de flores venenosas. Vi quando lutei com dragões para conquistar lindos tesouros e preferi trocá-los por gravetos e cascalhos. Vi quando tinha as cartas vencedoras na mão e preferi desistir do jogo. Me vi uma criança sozinha e desgarrada a quem não ensinaram o caminho mas me empurraram para que seguisse em frente. Segui cheia das melhores intenções, mas agora percebo que isso não blinda ninguém e muitas vezes pode nos tornar vítimas de nós mesmos e daqueles que se aproveitam da ingenuidade.  Hoje triste e assustada percebo que sempre me joguei de cabeça certa que valia a pena e quase sempre tomei as decisões erradas. Considero minha vida um enorme desperdício. Usei todos os meus talentos da forma errada ou apenas não os usei quando deveria. Coloquei a enorme bagunça que fiz numa peneira e percebi que juntei poucos tesouros; uma filha e três netos maravilhosos que me deram uma felicidade genuína e que provavelmente são meu único trunfo, meu canto de cisne. Agora que estou chegando ao meu destino final espero sinceramente que se houver retorno o Universo nunca mais gaste sua preciosa energia comigo, porque não sou uma aplicação rendosa. Se voltar for absolutamente necessário, sugiro que usem minha energia vital em algum inseto ou ave, que não carregue consigo grandes expectativas próprias ou alheias. Sou muito grata pelo que recebi e peço perdão por não ter correspondido ao que se esperava de mim. Só posso garantir que sempre pensei estar fazendo o melhor para mim e para os outros, mas como diz o adágio popular, de boas intenções o inferno está cheio.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Das Coisas Inexplicáveis


Quando eu era policial federal, trabalhava no famoso Máscara Negra em Brasília, sede da organização. Do lado direito da foto ficava o estacionamento externo e do lado esquerdo do tronco da árvore, no ponto mais escuro ficava a entrada e saída. Um dia, quando cheguei nessa porta para sair, senti um baque no estômago e nas costas, como se alguma coisa tivesse me atingido e atravessado meu corpo. A princípio achei que tinha levado um tiro à distância ou com silenciador, mas não havia ninguém à vista. Senti uma ardência forte no local mas olhei e não tinha nada de anormal à primeira vista, mas assim que entrei no carro levantei a blusa e havia uma mancha vermelha, redonda e um pouco alta com cerca de 1 cm de diâmetro. Meu espanto foi maior quando cheguei em casa e meu marido percebeu que o mesmo sinal aparecia em minhas costas, no ângulo exato do dianteiro. Como ardia e nós não fazíamos a mínima ideia do que estava acontecendo, fomos procurar um médico, que não encontrou nenhuma explicação para o fato e disse que nunca tinha visto nada parecido. Só me restou esperar que aquilo passasse e levasse consigo o seu mistério.   

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Luz Não Identificada


 Já morei em muitas casas e muitos lugares, mas sempre escolhi um cantinho para me sentar, observar as estrelas e pensar, depois que todos se recolhiam. Nesses momentos de paz sempre apago as luzes, para não interferirem em meus devaneios. Certa vez eu morava num condomínio onde minha casa dava fundo para um muro alto que delimitava todo o conjunto. Ali tinha a piscina e entre outras coisas um banquinho onde eu me sentava depois que tudo silenciava. É importante dizer que atrás do muro existia um enorme terreno baldio. Uma noite eu estava lá a algum tempo quando comecei a ouvir um barulho como de estática a vi que atrás do muro crescia uma esfera de luz azul muito brilhante, fluorescente. Era grande e crescia regularmente como uma lua cheia, com as bordas bem definidas e pude ver a metade dela. Me enchi de coragem e medo do desconhecido. Enquanto pensava em ir correndo ver o que era, eu pensava em minha família dormindo e que "aquilo" poderia me destruir ou arrebatar e ninguém ficar sabendo. Depois de algum tempo se apagou da mesma forma que surgiu. No outro dia cedo fui ao terreno e não encontrei nada diferente, se bem que eu não sabia o que procurar. Comentei com minha família e minha filha disse que uma mocinha que morava numa casa mais distante da nossa disse ter visto a mesma coisa no mesmo horário. Até hoje me pergunto o que seria. Já ouvi muitas explicações, muitas totalmente estapafúrdias, mas nenhuma que fizesse sentido para o que vi e ouvi. Procurei uma imagem mais parecida com o que vi, mas não encontrei.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

George Washington, o Lagarto


 Até poucos anos atrás eu tinha fobia de lagartos. Mas não era coisa simples, era terror de verdade. Uma lagartixa dentro de casa já fazia que eu ficasse fora de mim e não conseguisse entrar enquanto não fosse retirada. Muitas vezes caí em pranto quando via alguma muito perto de mim. De onde surgiu esse pavor? surgiu quando eu era muito pequena e alguém me disse que as lagartixas gostavam de morder as pessoas e ficar penduradas nelas para soltar apenas quando trovejasse. Pois bem, tive uma casa que tinha uma piscina nos fundos e na lateral tinha uma varanda onde ficava a porta da sala de tv e a da cozinha, de onde não se visualizava a piscina. No final da tarde eu costumava ficar na sala de tv vendo algum programa, lendo ou fazendo alguma arte manual, enquanto a família não voltava para casa. Em determinado dia ouvi um barulho na piscina e fui ver. Aterrorizada vi um lagarto verde se debatendo desesperado tentando sair da água e um misto de medo e pena tomou conta de mim. Eu tinha certeza que se colocasse a peneira perto dele ele aproveitaria para subir no cabo e me atacar, mas por outro lado meu coração doía ao ver o desespero dele. Meu coração venceu o medo e tremendo eu o recolhi com a peneira, coloquei na beira da piscina e corri para dentro de casa certa de que ele estava atrás de mim, mas claro que ele não veio. No outro dia, no mesmo horário, quando vim para meu lugar habitual quase infartei. Não é que o lagarto estava na lateral da casa, direto no meu ângulo de visão, parado me olhando? Fiquei congelada, com os pés sobre o sofá e de olho nele. Passado um tempo ele virou-se e foi embora, mas a história não acaba aí, porque ele continuou vindo todos os dias no mesmo horário e estava ficando cada vez mais perto. Vi que precisava fazer alguma coisa e só me ocorreu conversar com ele e à distancia eu disse a ele que poderíamos ser amigos, mas nunca íntimos a ponto dele entrar em casa ou nos tocarmos. E ele só me olhava e talvez pensasse que eu era louca e talvez estivesse certo. Mas continuou vindo todos os dias, comecei a conversar com ele e inclusive dei-lhe o nome de George Washington e acreditei que ele tinha entendido os limites traçados por mim. Algum tempo depois meu marido foi transferido para São Paulo e tivemos que vender a casa. Quando soube minha grande preocupação foi o que fazer para garantir o bem estar do lagarto. Fiquei com muito medo que ele viesse inocentemente me procurar e alguém o matasse ou ferisse. Só havia um jeito de garantir que isso não aconteceria e coloquei o plano em prática. Um dia veio um comprador e gostou muito da casa e marcou de trazer a esposa. Quando ela veio gostei da energia dela e perguntei se ela tinha medo de lagartos e o que faria se visse algum dentro do quintal. Ela disse que gostava de todos animais e que não faria nada se algum entrasse. Aliviada contei a ela sobre George Washington e ela me garantiu que ele estaria seguro se voltasse à casa. Espero que ele tenha encontrado nela uma amiga. Eu nunca esqueci meu amigo confidente.


terça-feira, 30 de julho de 2024

Número da Sorte


 Sou muito pragmática, acredito apenas naquilo que pode ser provado. Mas aparecem coisas em minha vida para as quais não encontro explicação. Mas existem e acontecem comigo, como por exemplo, o  número 21, que me acompanha sempre nos momentos de sorte. Comecei a perceber isso quando me inscrevi no concurso da Polícia Federal e recebi o número 021, quando em todo Brasil mais de 12.000 pessoas se inscreveram. Fiz as provas e fiquei aguardando um telegrama que diria se fui aprovada ou não. Não me lembro exatamente quanto tempo esperei, mas num dia 21 chegou um telegrama dizendo que eu estava classificada. Quando me apresentei recebi uma carteira de aluna que terminava com o número 21 e descobri depois que na minha turma de 200 alunos, só 21 mulheres tinham sido aprovadas. Cumpri o treinamento e recebi a carteira policial que, é claro, mais uma vez terminava em 21 e eu tinha 21 anos de idade. Desde então tenho observado que esse número me acompanha em tudo que me faz bem e que qualquer coisa que depende de número, se tiver o 21, já tenho a certeza de que vai dar certo. Por exemplo, tenho o olfato extremamente apurado e tinha muita dificuldade em encontrar uma colônia que combinasse comigo. Um dia entrei numa loja de roupas e vi numa prateleira um vidro lindo, com o numero 21 escrito em dourado. A vendedora me disse que se tratava de uma colônia que a Le Lis Blanc tinha criado para comemorar o aniversário da marca. Experimentei e nunca mais deixei de usar, porque é exatamente o que eu procurava. São tantas coisas que acontecem comigo e estão ligadas a esse numero, que fica impossível acreditar que seja apenas coincidência.

quinta-feira, 18 de julho de 2024

Meu Amigo Zebinha

Quando eu era bem pequenina ganhei um amigo chamado Zebinha, filho mais novo de uma familia que morava perto de minha casa. Ele tinha um irmão mais velho chamado de Balão e duas irmãs, Liberata e Pulunara. Não me perguntem o nome real dos meninos nem o por que de Pulunara, que não sei. Sei que a família era muito pobre e  de vez em quando o pai, que trabalhava num frigorífico, ganhava uma cabeça de gado (só a cabeça mesmo) e isso para eles era uma coisa muito especial. Tão especial que Zebinha me convidava para almoçar com eles em diversas dessas ocasiões. A cabeça era cozida num enorme caldeirão no fogão de lenha. Quando estava pronta a mãe nos chamava, sentávamos todos em banquinhos ou batentes da cozinha e ela começava a retirar os pratos de alumínio de uma pilha limpíssima e reluzente, colocava uma concha  de caldo e um pouco de farinha e ia entregando a cada um. Não havia rezas ou orações, comíamos em silêncio todos juntos, mas no fundo de minha alma eu sentia que aquela era uma verdadeira comunhão. Sem contar que o cozido era delicioso, temperado com as ervas do quintal. Crescemos todos, exceto Zebinha que ficou pequeno mas cheio de valentia. Quando saí de casa e voltava para visitas ele imediatamente aparecia, me chamando de Marça, como sempre. Falava de sua vida, dizia que enquanto eu estivesse na cidade ficasse tranquila, que ele me protegeria com o canivete que sempre trazia na cintura. Mas sua inocência era atrativa para os maus e começaram a lhe oferecer cachaça, porque o álcool potencializava sua coragem e eles se divertiam com isso como se ele fosse um bobo da corte. Por causa da amizade que nos ligava a família dele me pediu  para conversar com ele e tentar afastá-lo dos bares e das más influências e assim o fiz. Mas o mal é mais atraente que o bem e eu morava muito longe para manter vigilância. Um dia recebi a triste noticia que Zebinha tinha sido assassinado em um bar, depois de ser incentivado pela turma do mal a brigar com outro bêbado.
 

quarta-feira, 17 de julho de 2024

Improvável - TV Devolvida


 Só uma vez na minha vida tive um bem subtraído. Aconteceu em Cuiabá há muitos anos quando numa manhã muito agitada alguém pulou o muro e levou a televisão da estante de minha casa. Foi feito um Boletim de Ocorrência e assunto esquecido. É importante dizer que sou dessas pessoas que tem pastas para tudo que é importante e sempre guardei todas as notas fiscais de objetos comprados e só muitos anos depois me desfaço delas. Os meses foram passando e eu não tinha esperança de recuperar a TV, mesmo porque diziam que se a polícia a recuperasse, o que era improvável, não a devolveria. Mais de ano se passou e um dia recebi um telefonema da delegacia e a pessoa me perguntou se eu tivera uma televisão furtada na data tal. Quando confirmei a pessoa perguntou se por acaso eu ainda teria a nota fiscal e para susto dela eu disse que sim. Foi solicitado que eu a levasse na delegacia e assim o fiz. Surpresa recebi a televisão de volta em excelente estado e o delegado me disse que ela tinha sido encontrada na casa de um receptador e que ele também tinha se surpreendido por ele não havê-la repassado. Questionado, disse que tinha resolvido ficar com ela para si porque a imagem era muito boa. Até hoje pessoas duvidam da corrente de improbabilidades que fez o único objeto que tentaram tirar de mim voltar para minhas mãos. Até eu não entendo. Mas agradeço.

Improvável - Bolsa no Aeroporto


 Comigo acontecem coisas inacreditáveis. Um dia eu estava no aeroporto de Guarulhos a caminho da Europa, para ver minha família que à época morava em Praga, na República Tcheca. Antes de passar pela alfândega resolvi ir ao banheiro. Todos sabem o quanto aquele aeroporto é inseguro e para piorar era uma época do ano em que havia superlotação. Quando voltei sentei-me um pouco para organizar os papeis que levaria em mãos para embarcar na ala internacional, quando senti aquele gelo que todos conhecem invadir meus ossos, já que minha bolsa não estava comigo. Tratava-se de uma bolsa de grife, com dois passaportes dentro, euros, dólares e alguns reais, além das joias que só uso no exterior. Corri de volta ao banheiro, com a certeza absoluta que jamais veria qualquer daqueles itens novamente. Quando avistei a porta do banheiro vi uma mulher em pé antes da entrada, segurando minha bolsa na frente do corpo. Fiquei eufórica, como se presenciasse um milagre, o que de fato era. Ela olhou para mim com um sorriso doce e disse que tinha achado a bolsa dentro de um box, mas ficou com medo de entregar para qualquer um. Sabendo que a dona voltaria, ela preferiu ficar na porta segurando a bolsa, para garantir que a pessoa tivesse tudo de volta. Saí dali em estado de graça, com a confirmação daquilo que eu sabia, que anjos e demônios são de carne e osso e eu tinha tido a sorte de cruzar com um deles naquele dia. Nunca deixei de desejar que ela também encontre muitos anjos em seu caminho e que a vida lhe retribua mil vezes o que ela fez por mim, já que ela se fez credora do universo ao não aceitar gratificação por seu gesto generoso.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

De Amor e de Ódio


 De tudo que fiz na vida, com enorme sacrifício e excelentes intenções, só me sobrou a família. Eram sonhos grandiosos, de uma jovem boba que pensava poder controlar o futuro. Programei e segui à risca, mas tudo deu errado. Sou responsável, porque ninguém me obrigou a nada, não tomei atitudes forçadas por nada, além de meu caráter e minha gigantesca ingenuidade. Um dia, já no outono da vida, vi que de todos os sonhos só me sobrara um, que considero o maior de todos. Minha filha me deu três netos, pelos quais enlouqueci de amor. Infelizmente não moravam perto de mim, mas existiam e eu podia vê-los e tocá-los com frequência. Nem nos piores pesadelos eu imaginava que seria afastada deles, mas veio a pandemia. No início pensei e torci para que fosse algo passageiro e eu pudesse usar as passagens que sempre comprava com antecedência para ir até eles, mas isso não aconteceu, porque a ciência corria atrás de fabricar vacinas em tempo recorde. Meu coração sangrava e meus netinhos sem entender sobre vírus e vacinas, pediam que eu fosse vê-los. Eu acompanhava o resto do mundo comprando vacinas assim que surgiam, mas o governo do Brasil se negava a isso, embora tivesse ofertas dos laboratórios, tão logo foram criadas. Eu via o mundo se libertando aos poucos de e retomando a vida, mas nós não podíamos. Durante quase dois anos transitei entre a depressão e fios de esperança. Nas noites insones eu traçava planos para chegar até minha família, tentava achar voos alternativos, tinha planos loucos de chegar o mais perto possível e depois completar o trecho a pé, através de florestas. Procurei conseguir me vacinar em outro país, mas para os corretos o Brasil virou uma prisão instransponível onde ninguém saía e ninguém entrava. Doía tanto que passei a ficar a maior parte do tempo deitada no escuro, já então pensando em suicídio e odiando com todas as minhas forças a pessoa que com um simples ato de humanidade poderia acabar com meu sofrimento e de milhões de brasileiros. Mas ele não era humano. Nunca tive medo do COVID, tanto que se peguei o vírus não fiquei sabendo. Lá fora meus netos iam à escola, recebiam a visita do avô que morava em outro país europeu, enquanto aqui eu era xingada quando ia a uma praça vazia, apenas para colocar os pés no chão e pedir à natureza um pouco de força para sobreviver. Dormir era meu único consolo e acordar um pesadelo. Eu vivia em prantos e ele ria, às vezes gargalhava. Que o universo me perdoe, mas existe uma pessoa no mundo que eu odeio com todas as minhas forças e de quem não gosto nem de ouvir o nome, porque de todas as dores que já passei ele foi o pior carrasco. 

terça-feira, 9 de julho de 2024

Inundação sem Chuva


 Cheguei em Cuiabá com duas crianças pequenas, uma delas ainda bebê, acompanhando meu marido que tinha sido transferido. Como não tínhamos casa, ele conseguiu um empréstimo na Caixa Econômica Federal e combinou com um "amigo" construtor que as parcelas para a construção seriam repassadas a ele, que ficou totalmente à vontade para fazer uma casa muito mal feita, cujo piso tinha cerca de 4 cm de distancia entre cada lajota e os arcos da frente eram todos tortos. E eu era a única que reclamava, sem sucesso. Tanto reclamei que fui despachada para a casa de minha mãe com as crianças, a mais de mil quilômetros de distância, por três meses consecutivos, sem direito a visitas à futura casa. Quando ficou pronta pude voltar, mas meu marido não passou a noite em casa. No meio da noite acordei com um barulho de chuveirinho. Do lado da cama ficava um interruptor e uma tomada de duas entradas. Antes de acender a luz levei a mão em direção ao barulho e realmente saía um esguicho forte de água pela tomada. Acendi a luz e vi o tamanho do estrago, pois até o globo de luz estava cheio  e o piso estava com 10 a 15 centímetros de água. Embora sem entender como não tinha sido eletrocutada e muito menos o que estava acontecendo já que não estava chovendo e a casa não ficava perto de qualquer curso d'agua, corri e desliguei a chave de eletricidade e fui lá fora desligar o registro de água. Em questão de segundos tirei as crianças pela janela mais perto, pois achava que a casa ia desabar. Fomos para uma edícula que nos fundos e esperei o dia amanhecer, deitada no chão com as crianças. Naquele tempo não tinha celular e eu não sabia onde meu marido estava, além de não ter nenhum conhecido na cidade. Quando amanheceu e ele chegou, descobriu que a construtora tinha esquecido de colocar uma boia chamada ladrão na caixa d'água, por isso a água só parou de entrar quando desliguei o registro e fez uma piscina dentro e em cima da casa. Isso exigiu que todas as telhas fossem retiradas até que tudo secasse e toda a casa fosse pintada de novo, com a família dentro. Só continuo não entendendo porque peguei na água que saía da tomada, pisei no chão e não fui eletrocutada.  

quinta-feira, 27 de junho de 2024

A Força do Nome


 Como profunda admiradora da vida e suas complexidades, percebi que cada nome traz em si uma característica, que pode ser boa, má ou insignificante. Aconteceu ao acaso e comecei a perceber isso naturalmente. Nem mesmo tenho explicação, só sei que é fato e deve fazer parte da ordem do universo. Também tem as exceções como tudo na vida, mas aconselho com veemência que sempre que alguém for dar nome a uma criança, no mínimo relembre todas as pessoas de seu conhecimento que possuem tal nome e procure o que possuem em comum. Às vezes é cor dos cabelos, peso, manias ou coisas mais sérias como desvio de caráter e doenças. Muito mais tarde, quando conheci a Republica Tcheca descobri que lá cada pessoa tem o dia do nome, ocasião tão ou mais celebrada que o dia do nascimento. Nesse dia as pessoas costumam receber flores e presentes e isso certamente mostra a importância da escolha do nome de uma criança. Lá não é costume usar nem inventar nomes novos cheios de Ls, Ys, Ws e Hs como aqui, usa-se nomes testados pelo uso e resultados. Tenho uma lista de nomes ruins, como Art.. para meninos e Vi..... para meninas, que geralmente têm doenças graves ou mortes trágicas. Os Ju.... trazem uma tendência à obesidade. As Su.... costumam ser consumidoras compulsivas. Teria muitos outros nomes com características de bondade, honestidade, narcisismo, etc., mas não estou escrevendo um livro, apenas um alerta sem bases científicas e deixo a critério de cada um fazer suas próprias análises.

domingo, 23 de junho de 2024

Alguém Igual a Mim?


 Consta em minha certidão que nasci em Unaí, cidade do estado de Minas Gerais, mas fui criada em Formosa, cidade goiana que fica a cerca de 137 km de lá. Meus pais eram presbiterianos e frequentávamos a igreja regularmente, principalmente aos domingos, quando íamos à escola dominical de manhã e ao culto à noite. Certo dia, no início da adolescência, ao chegar ao culto fomos informados que o pastor de Unaí estava em visita à cidade e estava no culto. No fim do ato, como era de praxe, o pastor ficou na porta cumprimentando os fiéis e nesse dia o pastor visitante ficou ao lado dele. Quanto foi minha vez e de meus pais ele alegremente dirigiu-se a mim usando outro nome e perguntando como tinha chegado tão rápido e porque não tinha dito a ele na escola dominical que eu iria para Formosa nesse mesmo dia, porque sendo assim ele me daria uma carona. Surpresa eu disse que aquele não era meu nome e que nem mesmo conhecia Unaí, mas ele insistiu como se eu estivesse brincando com ele, já que eu frequentaria a congregação dele e ele teria me visto naquele mesmo dia e me conheceria muito bem. Meus pais interromperam o constrangimento e no caminho de casa me convenceram que o pastor estava enganado. Mas isso não ficaria por isso mesmo. Cerca de cinco anos depois eu tinha uma colega de colégio e grande amiga. Nos víamos todos os dias, ficávamos juntas no intervalo e nos sentávamos próximas. Numa segunda-feira ao chegar na escola encontrei-a eufórica, me esperando na porta. Mal cheguei foi me contando que tinha ido passar o final de semana na casa de parentes em Planaltina (cidade vizinha) onde tinha encontrado uma moça igualzinha a mim. Disse que correu atrás da moça chamando meu nome e quando conseguiu alcançá-la ela não demonstrou surpresa, dizendo que não era a primeira vez que era confundida comigo e isso acontecia com mais frequência em Unaí onde ela morava até pouco tempo. Mais uma vez minha mãe me convenceu de que provavelmente ela se parecia comigo mas não era igual. Tantos anos depois continuo com vontade de conhecer essa pessoa, pois sou filha única e sempre fui muito solitária. Seria muito bom conhecer alguém tão parecida comigo e com tanta coisa em comum.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Seca Pimenteira


 Quem já ouviu falar em pessoas de olho gordo ou seca pimenteira? Eu ouvia e achava que era mais uma superstição boba porque nasci muito racional e sei que para tudo existe uma explicação lógica, baseada na ciência. Até que na adolescência pude assistir o fenômeno. Minha mãe tinha um vaso bem grande na varanda, onde ela cultivava um tipo de samambaia chamada avenca. Estava lidíssima, preenchendo totalmente o vaso e era um dos orgulhos dela. Ficava na varanda da sala, entre duas cadeiras, com outra cadeira à frente. Determinado dia minha mãe recebeu uma conhecida e cada uma sentou de um lado do frondoso vaso e sentei-me na cadeira da frente. No meio da conversa a visitante pediu à minha mãe que lhe desse o vaso, porque a planta estava linda e ela nunca conseguia que aquele tipo crescesse na casa dela. Óbvio que seu pedido foi negado, mas ela ofereceu-se para pagar pela planta e mais uma vez sua proposta foi recusada e pudemos ver a raiva estampada em seu rosto. Era um final de tarde e assim que ela saiu nos recolhemos e fechamos a casa. De manhã fui acordada por minha mãe estupefata, querendo que eu fosse ver a planta. Em resumo, a linda samambaia estava claramente dividida ao meio; do lado onde minha mãe se sentara estava verdejante, mas o lado onde a visita tinha se sentado estava totalmente queimado, como se um maçarico tivesse sido utilizado ali. Logo todas as folhas daquele lado caíram e só sobraram os talos mortos. Presenciei outro fato parecido quando adulta, mas aí eu já entendia a força da energia negativa de pessoas e objetos e sabia  quanto mal podem causar. Meu corpo sente a energia e já posso minimizar os males que certas pessoas podem me causar e me afasto delas. Não é superstição,é perfeitamente explicável pela ciência.

quinta-feira, 13 de junho de 2024

Querida Professora

Quando fazia o curso de magistério resolvi dar aulas em escolas afastadas e carentes, onde muitas vezes os professores concursados se recusavam a ir. Eu ia sem ganhar por isso. Não ganhava dinheiro, mas o que ganhei de experiência e carinho foi imensurável. Meus alunos eram crianças carentes, muitas delas andavam pelas ruas, sofriam abusos e traziam uma carga de sofrimentos, que eu procurava minimizar com atenção e carinho. Na minha sala havia crianças dos nove aos dezoito anos, enquanto eu tinha cerca de vinte anos. Mas tratava a todos da mesma forma, oferecendo conhecimento de todas as formas possíveis além de atenção para seus problemas. Havia o aluno de treze anos que nunca aprendeu a ler porque era totalmente surdo e ninguém tinha percebido; havia o aluninho que sempre que eu me aproximava se encolhia e tremia de medo, até eu descobrir que os pais só se aproximavam dele sempre para espancá-lo. Em contrapartida passei a beijá-lo todos os dias e o brilho em seus lindos olhos verdes a cada vez que fazia isso era um presente para mim. Não vou me aprofundar mais, porque isso apenas serviu de introdução para o que quero contar, que foi um lindo gesto deles. Eu sabia que precisava ganhar dinheiro e queria fazer faculdade, portanto não poderia continuar fazendo uma coisa que era contra as regras, já que eu não era concursada e não me trazia o retorno financeiro. Me inscrevi no primeiro concurso para a Policia Federal mas não contei para meus alunos, porque não sabia se passaria e nem como contaria para eles, porque me doía muito pensar em deixá-los. Mas fui classificada e chegou o dia de me despedir. Entrei em sala e reprimindo o choro contei tudo para eles e disse que aquele seria meu ultimo dia de aula. A maioria começou a chorar imediatamente e eu passei a maior parte do tempo secando as lágrimas que teimavam em escorrer por minha face. Já contei que eram crianças pobres e isso aumenta a importância do que fizeram mais tarde. Quando terminei a aula saíram silenciosamente e deixei as lágrimas saírem livremente enquanto apagava o quadro negro. Daí a pouco ouvi chamarem meu nome na porta. Olhei e vi todos eles enfileirados, cada um com um ramo, uma flor tirada de algum lugar vizinho ou um capim nas mãos. Foram entrando um a um, me entregaram o que tinham trazido e me deram um abraço e um beijo. Fizeram isso por conta própria e gravaram o gesto em meu coração. Nunca irei esquecê-los.

 

 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

Falsa Identidade

Um tempo atrás, na verdade muito tempo, comecei a receber telefonemas ameaçadores de uma mulher. Ela sabia meu nome, sabia que eu era casada e dizia que eu estava tendo um caso com o marido dela. Quando perguntei quem era ele, ela foi sarcástica e disse que eu deixasse de ser cínica porque já que  tinha uma caso com ele com certeza eu sabia seu nome. Os telefonemas eram constantes e com muitos xingamentos, mas o que mais me incomodava era não conseguir saber quem era ela e porque tinha tanta certeza do caso. Isso tirou minha paz até que numa madrugada ela ligou dizendo que eu estava na cama com o marido dela e que se eu não terminasse com ele ela iria contar para meu marido. Felizmente meu marido estava ao meu lado e eu vi a oportunidade de esclarecer tudo, passando o telefone para ele. Assim que ele se identificou ela desligou e parou com as ameaças, mas para mim o mistério continuava; por que ela sabia meu telefone e meu nome e tinha tanta certeza de que eu era amante do marido dela? Na época eu tinha uma empregada doméstica e descobri que ela estava pegando coisas minhas para usar no final de semana, até biquinis e lingerie. Claro que a despedi, embora não soubesse a extensão do atrevimento dela. Mas uma amiga dela que trabalhava perto de minha casa achou que devia me contar que a moça  usava meu nome, meu telefone e meu status de mulher casada e tinha um caso com um homem que pensava que ela era eu. Fico imaginando o que mais ela pode ter aprontado usando meu nome.


 

domingo, 3 de dezembro de 2023

A Melhor Idade? Para quem?


 

Ando procurando os felizes detentores da "melhor idade" e até agora, escavando a superfície sempre descubro que atrás daquele sorriso encomendado existe uma pessoa triste, frágil e com medo. Pessoas jovens tentam nos empurrar goela abaixo uma idéia de felicidade numa situação que eles desconhecem. O que existe de bom na invisibilidade do velho? Nas dores sempre existentes? Na fraqueza de nossos músculos que antes nos permitiam carregar os filhos nas costas e hoje não são mais capazes de carregar nossos netos e tornam difícil carregar o próprio corpo. Qual a alegria de nos olhar no espelho e não mais reconhecermos a nossa face? De sentir a deterioração diária de nosso corpo apresentando situações inesperadas e constrangedoras com as quais não contávamos antes? E ainda exigem de nós uma alegria forçada e atitudes que não condizem com nossa capacidade: "vá viajar, faça academia, dance, sorria, seja feliz!" Ah, como eu queria ter o dom de passar para esses "coaches" da melhor idade as nossas dores físicas e mentais por apenas um dia! E o pior de tudo isso é conviver a cada segundo com a morte nos espreitando, sabendo que ela está perto e nunca poderemos prever de que forma e em qual momento ela nos atingirá. A morte chega para todos, mas o jovem tem a ilusão de que ela só chegará muito mais tarde e quando chegam a pensar sobre o assunto imaginam um quadro romântico com uma pessoa de cabelos brancos cercada de filhos e netos, que docemente fechará os olhos para sempre, sem nenhum sofrimento. Mas nós sabemos que quase nunca é assim, infelizmente. Uma coisa posso afirmar, não existe essa falácia da melhor idade.



sábado, 29 de abril de 2023

Deslocada


 Por que tantas vezes me é insuportável viver em sociedade? Vou tentar colocar aqui alguns dentre tantos motivos: sou extremamente pontual, em respeito ao meu tempo e ao tempo dos outros; não surrupio coisas alheias mesmo que seja uma fruta numa árvore; jamais jogo lixo no chão; não acho a mínima graça no constrangimento dos outros e não me interesso por futilidades e fofocas, como a vida íntima de qualquer pessoa. Não sou invasiva, espero que me contem o que querem e quando querem e não fico questionando ninguém, embora para muitos em nossa sociedade isso pareça desinteresse. Cumpro religiosamente meus compromissos e procuro não desperdiçar o tempo nem a boa vontade alheia; não gosto de ser um fardo ou um incômodo. Não gosto de me comunicar aos gritos e nem ouvir ou produzir barulhos altos, como música por exemplo. E não gosto de funk, palavrões, cigarro e gente bêbada. Aprecio a sensualidade mas não a pornografia. Mentiras, só as necessárias. Não prometo o que não pretendo cumprir, nem faço festinhas para quem não tenho afinidade. Não atraso pagamentos, não compro o que não posso. Cumpro todas as regras, porque sei que se existem é por alguma razão que até talvez eu desconheça; não furo fila, não exijo privilégios mas apenas direitos. Não importuno, não peço selfies ou autógrafos de famosos. Fujo de conflitos, não vibro com tragédias, não gosto de ser o centro das atenções. Por essas e outras razões muitas vezes me acham chata e arrogante, embora eu não tente doutrinar ninguém e apenas procure me manter afastada de coisas que nada têm a ver comigo. É isso. 


 

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Nos Tempos da Pandemia


           O fruto da pandemia se chama saudade. Foi inoculada em mim, de mim se nutriu, espalhou seus galhos, produziu flores pálidas com cheiro de morte. E frutos que à noite me causam terríveis e constantes pesadelos e de dia imensa saudade. Saudade doída, massacrante, destruidora, excruciante. Sangro constantemente. Não há nada que destrua essa praga antes que ela destrua a mim. Por mais que eu faça ela nunca vai embora, nunca consigo me livrar de sua aterradora presença invisível. Só precisava ver meus netos por alguns minutos para voltar a viver.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Uma Das Vezes Em Que Morri


 Ocasionalmente um fantasma me acorda na madrugada e exige que eu o vomite em palavras. Sou filha única e como é natural, era emocionalmente muito ligada a meu pai. De repente ele adoeceu com câncer, detectado já em estado terminal. E eu morando muito longe, vivendo um inferno pessoal que só eu conhecia a profundidade. Consegui ir visitá-lo no hospital em Brasília e ele, inocente como uma criança, pediu para mim, aquela que ele julgava superior a todos os humanos, que o levasse para casa. Eu sabia que não podia fazê-lo, mas não pude dizer e nem mesmo demonstrar que eu mal conseguia manter a minha sanidade. Dias depois ele morreu e eu dissociei meu espírito. Uma Marta vivia como um robô, e quem olhasse de fora pensava que estava absolutamente serena. Mas eu não estava ali e inclusive tinha a nítida sensação que não andava; eu flutuava alguns centímetros acima do chão. A Marta verdadeira estava encolhida e escondida num lugar bem profundo, sem querer olhar para fora e encarar a realidade. Um mês depois eu estava internada na UTI do hospital Nove de Julho, para onde fui transferida de Cuiabá, com uma súbita pneumonia que evoluía vertiginosamente e não respondia aos mais modernos antibióticos. Só me lembro que nos poucos momentos em que ficava consciente eu me decepcionava por estar viva num mundo que para mim era o pior lugar possível, onde eu estava totalmente isolada com meu sofrimento. Mas a Dra. Marisa D'Agostino e equipe me trouxeram de volta e disseram a meu marido que eu simplesmente não queria viver. Sobrevivi, mas grande parte de mim não resistiu. Foi nessa ocasião que morri mais um pouco, sem funeral, trancada no meu completo silêncio.

sábado, 2 de julho de 2022

Bélgica

 Quando criancinha ganhei uma cachorra perdigueira à qual dei o nome de Bélgica. Eu vivia numa fazenda onde a amizade de uma menininha solitária e uma doce cachorrinha cresceu com muita força e nos tornamos inseparáveis. Meu amor por ela enchia meu mundo de alegria, até que aos sete anos meus pais resolveram me colocar num colégio interno. Minha primeira preocupação foi como me separar da Bélgica e quem cuidaria dela. Minha mãe afirmou que tudo ficaria bem e que quando eu voltasse para as férias ela estaria me esperando. Mas não estava. Cheguei chamando por ela e ela não apareceu. Ao ver meu desespero meu pai me disse que tinha colégio de gente e colégio de cachorro; que Bélgica estava aprendendo muitas coisas, mas logo chegaria. Eu esperava ansiosa, quando um dia chegou um amigo de meu pai e começaram a conversar sem saber que eu estava ouvindo. De repente ele comentou que a perdigueira que tinha ganhado de meu pai era excelente caçadora. Um gelo cobriu minha alma e nesse dia descobri que não podia confiar nos adultos. Me calei e nunca mais perguntei por Bélgica; mas nunca a esqueci e até adulta eu acordava chorando, porque sonhava que me via na beirada de uma cratera enorme e totalmente escura, onde escutava o latido de minha cachorra. Eu entrava e não enxergava nada diante de mim, tal era a escuridão. Mas escutava o latido e saía tateando, correndo, caindo e gritando o nome dela e nunca a alcançava. Já fazem alguns anos que não sonho mais, talvez porque meu espírito tenha desistido, talvez porque pesadelos maiores substituíram aquele.


 

segunda-feira, 25 de abril de 2022

O menino e o gato

Da janela de meu quarto via uma varanda mais abaixo num prédio vizinho e percebi um dia um garotinho bem pequeno brincando com um gatinho. Eu achava lindo e sempre observava os dois, uma "voyeuse" sem maldade, encantada com a amizade dos dois. Um dia percebi que menininho estava adolescendo e o gatinho com ele. Depois menininho esticou como por mágica e virou um rapaz bem alto. Sempre com o gato no colo ou ao lado. Acostumei-me tanto com menininho, que demorei a perceber que ele andava malhando e tinha-se tornado um rapaz forte, mas para mim continuava o "menininho". Nesses anos todos nunca soube o nome dele, até que um dia os dois sumiram. Desconfio que menininho casou e levou seu amigo de infância. Criei esse final feliz em minha cabeça, porque desenvolvi uma afeição por ele e seu gato e preferi pensar assim. Agora, depois de tanto tempo, acredito que o gato amarelo já tenha ido para o paraíso dos gatos e menininho tenha sofrido muito. Ainda bem que não vi essa parte.
 

terça-feira, 29 de março de 2022

Efeitos da Pandemia


 Hoje os dias passam céleres e nem mais se identificam. Esquecem-se de que já são tantos, que não mais os reconheço. Não sei  de aniversários e perdas, de qual é mais ou menos marcante. Daqueles que trouxeram alegrias, dos tantos que só foram lamentos. Dos dias agora só me restou uma certeza: deixaram de ser um a mais para serem um a menos.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Diferenças do Brasil e outras culturas


Chegando em Havana (Cuba) e ansiosa para conhecer a cidade, desci e perguntei ao porteiro se deveria levar o passaporte ou uma cópia comigo. Isso pensando também na possibilidade de roubarem o meu documento. O rapaz olhou-me com estranheza e perguntou por que eu queria levar o passaporte e relatei a possibilidade de ser abordada pela polícia e ter que me identificar. Ele então, com um meio sorriso me perguntou se eu estava pretendendo cometer algum crime. Diante de minha veemente negativa disse que a policia jamais me submeteria ao constrangimento de ser abordada se não estivesse em flagrante delito, pois os direitos do cidadão tinham que ser respeitados. Passei quinze maravilhosos dias andando sem lenço nem documento e sem nenhuma preocupação em ser assaltada.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Já fui muito humilhada e injustamente. Um dia meus amigos resolveram jogar uma partida de futebol mista e tanto fizeram que fui obrigada a ficar no gol. Cada vez que alguém chutava eu corria para o lado oposto e tapava os seios e o nariz. Ficavam bravos comigo e não entendiam quando eu pedia pra chutarem bem devagarzinho para que eu pudesse pegar sem me machucar. Recebi muitas vaias, mas lembro que os adversários me aplaudiram, então devo ter feito alguma coisa certa. Fiquei muito marcada com tanta incompreensão, talvez por isso eu não goste de futebol. Rs
 

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Retrato Falado


 Aqui tento encontrar meus pares. Somos aqueles que se sentem isolados num mundo estranho,  muitas vezes considerados chatos (e talvez sejamos mesmo). Não precisamos de papel para nos obrigar a compromissos, somos pontuais, não gostamos de fofocas mesquinhas, de ficar julgando aparência, roupas, sapatos e comportamentos. Gostamos de certa profundidade nas palavras, de raciocínio lógico, mesmo que seja nas horas de rir, porque não rimos do outro, mas com o outro. Abominamos a violência, mas entendemos as razões do violento, aquilo que moldou suas atitudes. Não acreditamos em tudo que ouvimos ou vemos pois gostamos de olhar por trás dos bastidores. Podemos aceitar alguns modismos mas não nos tornamos escravos de nada, muito menos de vícios. Respeitamos a todos, mas exigimos que nos respeitem também, porque temos honra e para nós isso é assunto muito sério. Mas sabemos amar demais, embora nossos abraços e beijos não sejam tão frequentes. Nosso amor é tão grande e espalhado que dentro dele cabem todos os elementos do universo, porque sabemos que somos parte de um todo e no fundo somos um só. Ah sim, às vezes somos intransigentes, teimosos, duros em palavras e atitudes, mas somos sinceros.

sábado, 21 de agosto de 2021

Desesperança


 Estou me afogando. Foi tanto tempo nadando, lutando e contornando todos os obstáculos, fazendo tudo para poder num dia de alegria suprema, chegar à minha praia. Por diversas vezes vi a areia mas as ondas me devolveram ao mar revolto. Enquanto tinha forças, tinha esperança. Agora estou exausta e quero afundar calmamente na paz das profundezas, esquecer os sonhos impossíveis, a dor lancinante de não poder ver e tocar, abandonar esse eterno buscar. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

EU

Dentro de mim existe uma criança amordaçada; porque fala o que pensa, não sabe calar o que sente, não conhece o jogo adulto da dissimulação.
Dentro de mim existe uma criança amarrada; porque é espontânea, faz o que tem vontade, não conhece o jogo adulto da camuflagem.
 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

2020 o ano que não existiu

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       




Há muitos anos, no mês de dezembro, compro uma agenda física que conservo na mesa de cabeceira, onde todos os meus compromissos ficam registrados. Assim posso voltar ao passado e relembrar todos os acontecimentos. No último dezembro simplesmente esqueci de comprar a agenda de 2021. Descobri isso ontem. Peguei a agenda e ela está nova e limpa. Eu poderia reaproveitá-la se o calendário fosse o mesmo, mas nem pra isso ela serve. Deverei guardá-la como lembrança infeliz de um ano que não existiu? Nem tenho vontade de comprar outra, porque já nem sei se eu mesma ainda existo.

 

Do que eu gostaria.


 -De um ombro para recostar a cabeça

-De alguém para falar de coisas sérias ou de futilidades

-De um carinho nos cabelos ou um beijo na testa

-De andar com os dedos entrelaçados

-De olhar nos olhos e entender sem palavras

-De beijar na boca até perder o fôlego

-De ser pega pela cintura e abraçada com força

-De acordar sonolenta e me encaixar em outro corpo

-De ser chamada de meu amor

Se nada disso vier a acontecer, eu quero apenas entender.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Uma das vezes em que morri


Ocasionalmente um fantasma me acorda na madrugada e exige que eu o vomite em palavras. Sou filha única e como é natural, era muito ligada emocionalmente a meu pai. De repente ele adoeceu com câncer, detectado já em estado terminal. E eu morando muito longe, vivendo um inferno pessoal que só eu conhecia a profundidade. Consegui ir visitá-lo em Brasília e ele, inocente como uma criança, pediu para aquela que ele julgava superior a todos os humanos, que o salvasse. Eu sabia que não podia fazê-lo, mas não pude dizer e nem mesmo demonstrar que eu mal conseguia manter a minha sanidade. Dias depois ele morreu e eu dissociei meu espírito. Uma Marta vivia como um robô, e quem olhasse de fora pensava que estava absolutamente serena. Mas eu não estava ali e inclusive tinha a nítida sensação que não andava, eu flutuava alguns centímetros acima do chão. A Marta verdadeira estava encolhida e escondida num lugar bem profundo, sem querer olhar para fora e encarar a realidade. Um mês depois eu estava internada na UTI do hospital Nove de Julho, para onde fui transferida de Cuiabá, com uma súbita pneumonia que evoluía vertiginosamente e não respondia aos mais modernos antibióticos. Só me lembro que nos poucos momentos em que ficava consciente eu me decepcionava por estar viva num mundo que para mim era o pior lugar possível, onde eu estava totalmente isolada com meu sofrimento. Mas os médicos me trouxeram de volta e disseram a meu marido que eu simplesmente não queria viver. Sobrevivi, mas grande parte de mim não resistiu. Foi nessa ocasião que morri mais um pouco, sem funeral, trancada no meu completo silêncio.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Família

Não há como programar a vida. Quando jovem olhava para o futuro e me via ao lado daquele que para mim seria o primeiro e único marido, cercados de filhos, genros, noras e netos, numa casa espaçosa e agradável e uma mesa de jantar gigantesca. E os natais então? seriam só risos e alegria. Tinha certeza que isso aconteceria se eu fosse uma boa esposa e mãe, se o amor e os bons costumes morassem na minha casa. Tanto me dispus a isso que abandonei um excelente emprego quando minha filha nasceu, para viver apenas para os meus.Coloquei-os em primeiro plano, abri mão de muitas coisas, maquiei as coisas ruins que eu achava que mudariam com minha dedicação e preces. Meu objetivo sempre foi me aperfeiçoar para envelhecer feliz, cercada por todos que eu amava e achava que me amariam da mesma forma. Primeiro erro: achar que homens mudam e ignorar os sinais. Segundo erro: pensar que filhos adotivos te amam da mesma forma que os amamos. Terceiro erro: pensar que só a educação forma o caráter dos filhos, sem saber que eles praticamente trazem tudo na genética. Ninguém me pediu para me doar, mas minha prepotência travestida de ignorância me fez achar que eu podia tudo. Apostei nas fichas erradas, joguei um diploma e um emprego fora, me entreguei de corpo e alma e perdi tudo.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Para Lev

Quem sabe como é a dor de quem não pode ver e não pode tocar no seu amor? Quem sabe a amplidão do espaço entre dois braços vazios? Ou a inutilidade de uma boca que não pode beijar, de um nariz que respira mas não aspira o cheiro da pessoa amada? Quem sabe da dor que preenche o peito, sobe pela aorta entumescida e escorre abundante pelos olhos para não te matar? Cada molécula minha grita por uma pessoinha, cofrinho pequenino que carrega distraído o meu coração. Ele nem sabe o quanto sofro. Pensa que estou longe e viva mas não entende que quero mais que tudo, mas não posso estar com ele. Lev, meu príncipe, eu sofreria menos se você tivesse idade para entender que eu o amo demais, mas existem coisas ruins que separam vovó de você. Como fazer para que você não fique triste e entenda o que me segura aqui? Será que terei ainda a chance de me sentar com você e explicar tudo isso? Só quero que você me olhe nos olhos e diga com essa doce vozinha rouca:"sim vovó, eu sei". Com minha dor eu lido, mas a sua torna a minha insuportável.

domingo, 5 de abril de 2020

Três de Mim



Três de meu sangue vieram: Valentína, Lev e Rod. Vivi, a primeira, foi quem me abriu as portas do paraíso. Antes dela a vida parecia estática, sem grandes alegrias, sem futuro brilhante, sem amor desmedido. Quando achava que não poderia haver nada melhor no mundo e nem igual, minha filha deu-me Lev, meu amado príncipe, aquele que provou a força da atração pura dos sexos. Enlouqueci de amor por aquele homenzinho e agradeço por não tê-lo sempre ao meu lado, pois é certo que eu o estragaria com tantos mimos. Aí veio a cereja do bolo, o lindo Rod, uma pequena cópia da mãe, mas com cabelos loiros e olhos verdes. Agora sei que não preciso de mais nada, só que eles cresçam felizes e saudáveis ao lado dos pais maravilhosos, excelentes jardineiros das lindas e exóticas flores que a vida me deu. Sou muito grata.

Memórias de Infância - Biscoito de Queijo

Eu era muito pequena nessa época. Sei que tínhamos um lindo pé de jenipapo selvagem no jardim, que cobria-se de flores perfumadas para nutrir inúmeras abelhas e depois enchia-se de frutos para a delícia dos passarinhos. Aquilo me encantava. Lembro-me que minha mãe de vez em quando recebia amigas da igreja para o que eu chamava de "reginião"(reunião, na linguagem dos adultos). Lembro-me que à noite eu sempre me ajoelhava na beira da cama e pedia ao papai do céu que fizesse o pé de jenipapo dar frutas para os passarinhos e que as galinhas botassem muitos ovos para ter biscoitos na "reginião". O primeiro motivo era altruísta, mas o segundo não. Sempre tinha uns biscoitos de queijo que eram meu sonho de consumo, mas geralmente não sobravam para mim, porque eu só podia comer depois que as senhoras se retiravam e geralmente não sobravam para mim. Um dia resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos, porque achei que depois de tantas orações eu merecia comer pelo menos um fruto da misericórdia divina. Abri o armário e peguei um. A partir de então entrei num frenesi e fui comendo, certa que minha mãe não perceberia. Quando sobraram três fiz uma distribuição no fundo do prato que achei muito convincente e fechei o armário. Vocês podem adivinhar o que aconteceu quando minha mãe descobriu: uma surra de criar bicho. Enquanto apanhava eu só pensava que minha mãe devia ter poderes sobrenaturais para descobrir que eu tinha comido alguns biscoitos. Rs 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Fuzil, o Cachorro.

Minha mãe conta que quando eu era bem pequenina tínhamos um cachorro chamado Fuzil. Não riam, porque mais um nome e uma situação pitoresca surgirá; eu tinha um babá (?) chamado Brasil. Um dia eu estava sentada no pátio e Fuzil apareceu espumando e rosnando e começou a andar em volta de mim, muito perto do meu corpo. Brasil tentou me pegar no colo e foi violentamente repelido pois ele não permitia que ninguém se aproximasse e continuava no seu interminável girar. Aí perceberam que ele estava com raiva e na cabecinha dele, mesmo doente, achava que tinha que me proteger. Meu pai foi obrigado a atirar nele com uma espingarda, o que foi muito difícil, porque teve que achar um ângulo que não me acertasse e a certa distancia, porque Fuzil estabeleceu um grande círculo que ninguém podia ultrapassar. Ainda bem que não me lembro, porque seria muito triste saber que o ultimo pensamento daquele serzinho foi voltado para mim.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

A Medalha

Minha avó Amélia tinha quatro filhos homens. Sendo meu pai o mais velho e o primeiro a casar, ela deu à minha mãe um par de brincos que estava na família há anos e ficou com a medalha(foto) que pertencia ao conjunto. Desse casamento nasci, única filha. Um dia minha avó me mostrou a medalha e disse que seria minha para voltar a ficar junto aos brincos. Passaram-se os anos e não pensei mais no assunto até que minha avó faleceu.Notamos que meu avô estava se desfazendo das jóias dela, presenteando namoradas e me lembrei das palavras de minha avó sobre a medalha. Mas como cobrar isso dele? dei o assunto por encerrado. Quando meu avô morre, já despido de todas as jóias, vem a surpresa: uma caixa de papéis velhos que ninguém quis foi a mim destinada, já que gosto muito de saber dos meus antepassados. Minha mãe pega a caixa para me entregar e resolve ver o que tem dentro. Aí você pode imaginar o que aconteceu; embaixo de toda papelada já desbotada pelo tempo, encontra uma caixinha redonda, toda enferrujada e dentro da caixinha, a MEDALHA. Vó Amélia cumpriu sua palavra, mesmo depois de morta.

terça-feira, 9 de julho de 2019

De Volta

Hoje eu quis voltar. Minha realidade transformou-se totalmente, virou do avesso ou de ponta-cabeça. Numa situação de caos total, quando parecia não haver saída, tudo se desfez gradativamente. E gradativamente tudo se reconstruiu de uma forma totalmente diferente, como um prédio de estrutura errada que é desfeito e refeito
. Tudo que pretendia encontrar na vida antiga evaporou-se e tive que esperar para ver tudo renascer de outro jeito. Tanta dor pariu algo muito mais belo do que aquilo a que tanto me apeguei no passado. Aprendi duas coisas muito importantes: que é impossível controlar a nossa vida e que sempre há uma saída para todos os problemas. Em vista disso basta ter calma, entrar em sintonia com o universo e viver pelo agora, não pelo que foi ou virá a ser.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Lev Rojko

Ser avó é a alegria mais intensa que já senti. É só encantamento diante daquelas pessoinhas que parecem ter nascido diretamente de nosso coração. São presentes sem preço e únicos que nossos filhos colocam em nossos braços. Agora tenho meu lindo netinho Lev, que veio depois da Valentína, a quem também amo sem medidas num coração que não se reparte, mas se multiplica. No momento é difícil controlar a ansiedade na espera de Rod, meu novo amor. Não existe no mundo vovó mais feliz que eu.



















sábado, 5 de agosto de 2017

O Tornado

Muito antes do tornado chegar a bruxa antiga já o esperava. Analisando os animais (cordeiros), as nuvens e os ventos ela sabia que ele seria o maior de todos. Tinha um excelente abrigo que já havia resistido a tornados menores e agora fora reforçado. Avisou a todos que conhecia e teve recomendações especiais a quem ela havia acolhido para ser seu braço direito. Distribuiu tarefas preventivas para que quando tivessem que fechar a porta tudo estivesse pronto e todos fossem ajuda e não estorvo. Mas ele preferiu se divertir e gastar desnecessáriamente os mantimentos ao invés de ajudar. E como se não fosse bastante ainda criticava e atrapalhava os que trabalhavam. Já enxergando as nuvens carregadas no horizonte a bruxa mostrou-as para ele e disse que logo teria que fechar a porta e depois de fechada ela não mais se abriria, portanto ela lhe daria uma última chance para tornar-se útil ou procurar outro abrigo. Ele nem se deu ao trabalho de responder e mostrou-se mais irritante. Foi convidado a retirar-se para alívio de todos que com ela estavam, mas mesmo assim ela deu-lhe mantimentos para a viagem. Agora que ela fechou a porta e ele sente a força do tornado insiste para que ela abra a porta porque ele não tem onde ir. Só que ela aprendeu que não é responsável por quem pode cuidar de si mesmo e nem deve trazer para perto de si aqueles que não acrescentam. A fábula da cigarra e da formiga tornou-se metáfora.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Vovó, vovozinha, vovozinka..


Eu achava que estava com a vida pronta e empacotada e todas as emoções já vividas. Mal sabia eu que a alegria maior estaria por vir, que o grande amor ainda estava a caminho. No dia em que recebi Valentína nos braços alguma coisa maior que tudo me inundou a alma, um amor transcendental, uma verdadeira epifania. A segunda revelação veio quando abracei o Lev e tive a mesma sensação. Diante disso todo o resto se acalmou e tudo foi justificado,  como se eu tivesse vivido apenas para chegar a esse momento.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Velhice

Por que a maioria dos idosos é mal-humorada ou triste? Muita gente pensa que a vida simplesmente azeda as pessoas, sem motivo aparente. Considero a velhice como a pior doença porque ela não pode ser evitada e traz em si tudo de ruim que pode acontecer ao ser humano e ninguém quando jovem tem noção exata do que ela significa. Começamos perdendo gradativamente tudo de melhor que temos em todos os níveis. Lá se vão as alegrias, os prazeres, os amores, substituidos por dores emocionais e físicas. Vamos nos tornando um fardo pesado para nós mesmos e para os outros, porque o ser humano não dá sem receber. Os bebês dão trabalho mas encantam os adultos com sua beleza e graça, mas os velhos não possuem nada disso. Podem contar com uma condescendência respeitosa e alguns gestos de carinho quando têm presentes a oferecer e herança a deixar. Mas fica clara a falta de amor e paciência. Algumas pessoas de sorte conseguem morrer antes de conhecer esse aspecto triste da vida, outros conseguem apagar a mente e se refugiar num passado feliz. Mas a maioria sofre a o castigo de alcançar uma idade avançada sem perder a lucidez. Triste sina não conseguir que seu corpo e sua mente permitam que a pessoa permaneça útil e não um móvel velho atrapalhando a passagem dos jovens.

domingo, 16 de outubro de 2016

Helenas

Sempre achei que o nome dá ao proprietário certas características. Quando era bem pequena e ainda não sabia nada de sexo, eu achava que as pessoas se casavam apenas para ficar perto das pessoas que amavam. Minha mãe conhecia uma moça chamada Helena, que eu considerava perfeita; por isso eu dizia a todos que queria casar com ela. Desde então percebo que tenho uma afinidade natural e especial com todas as Helenas, embora não queira mais casar com elas(rsrs). Pode ser que seja no primeiro ou no segundo nome, sendo Helena, a simpatia é instantânea e mútua.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Meu Momento

Sou despreparada pra muita coisa, mas duas eu sei bem: observar e analisar. Por um tempo andei por aí distraída, talvez acomodada. Um dia percebi que estava perdendo o riso, vi a criança indo embora e o tédio se instalando. Não aconteceu nada diferente e talvez aí estivesse a origem do problema. Estabeleci o prazo de uma semana para calar, observar e analisar. Só precisei de cinco dias para tudo se mostrar numa clareza absoluta e a partir daí remanejei algumas rotas, coloquei-me em primeiro plano e hoje tenho certeza que tudo está como deve.