quinta-feira, 1 de agosto de 2024

George Washington, o Lagarto


 Até poucos anos atrás eu tinha fobia de lagartos. Mas não era coisa simples, era terror de verdade. Uma lagartixa dentro de casa já fazia que eu ficasse fora de mim e não conseguisse entrar enquanto não fosse retirada. Muitas vezes caí em pranto quando via alguma muito perto de mim. De onde surgiu esse pavor? surgiu quando eu era muito pequena e alguém me disse que as lagartixas gostavam de morder as pessoas e ficar penduradas nelas para soltar apenas quando trovejasse. Pois bem, tive uma casa que tinha uma piscina nos fundos e na lateral tinha uma varanda onde ficava a porta da sala de tv e a da cozinha, de onde não se visualizava a piscina. No final da tarde eu costumava ficar na sala de tv vendo algum programa, lendo ou fazendo alguma arte manual, enquanto a família não voltava para casa. Em determinado dia ouvi um barulho na piscina e fui ver. Aterrorizada vi um lagarto verde se debatendo desesperado tentando sair da água e um misto de medo e pena tomou conta de mim. Eu tinha certeza que se colocasse a peneira perto dele ele aproveitaria para subir no cabo e me atacar, mas por outro lado meu coração doía ao ver o desespero dele. Meu coração venceu o medo e tremendo eu o recolhi com a peneira, coloquei na beira da piscina e corri para dentro de casa certa de que ele estava atrás de mim, mas claro que ele não veio. No outro dia, no mesmo horário, quando vim para meu lugar habitual quase infartei. Não é que o lagarto estava na lateral da casa, direto no meu ângulo de visão, parado me olhando? Fiquei congelada, com os pés sobre o sofá e de olho nele. Passado um tempo ele virou-se e foi embora, mas a história não acaba aí, porque ele continuou vindo todos os dias no mesmo horário e estava ficando cada vez mais perto. Vi que precisava fazer alguma coisa e só me ocorreu conversar com ele e à distancia eu disse a ele que poderíamos ser amigos, mas nunca íntimos a ponto dele entrar em casa ou nos tocarmos. E ele só me olhava e talvez pensasse que eu era louca e talvez estivesse certo. Mas continuou vindo todos os dias, comecei a conversar com ele e inclusive dei-lhe o nome de George Washington e acreditei que ele tinha entendido os limites traçados por mim. Algum tempo depois meu marido foi transferido para São Paulo e tivemos que vender a casa. Quando soube minha grande preocupação foi o que fazer para garantir o bem estar do lagarto. Fiquei com muito medo que ele viesse inocentemente me procurar e alguém o matasse ou ferisse. Só havia um jeito de garantir que isso não aconteceria e coloquei o plano em prática. Um dia veio um comprador e gostou muito da casa e marcou de trazer a esposa. Quando ela veio gostei da energia dela e perguntei se ela tinha medo de lagartos e o que faria se visse algum dentro do quintal. Ela disse que gostava de todos animais e que não faria nada se algum entrasse. Aliviada contei a ela sobre George Washington e ela me garantiu que ele estaria seguro se voltasse à casa. Espero que ele tenha encontrado nela uma amiga. Eu nunca esqueci meu amigo confidente.


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