quinta-feira, 18 de julho de 2024

Meu Amigo Zebinha

Quando eu era bem pequenina ganhei um amigo chamado Zebinha, filho mais novo de uma familia que morava perto de minha casa. Ele tinha um irmão mais velho chamado de Balão e duas irmãs, Liberata e Pulunara. Não me perguntem o nome real dos meninos nem o por que de Pulunara, que não sei. Sei que a família era muito pobre e  de vez em quando o pai, que trabalhava num frigorífico, ganhava uma cabeça de gado (só a cabeça mesmo) e isso para eles era uma coisa muito especial. Tão especial que Zebinha me convidava para almoçar com eles em diversas dessas ocasiões. A cabeça era cozida num enorme caldeirão no fogão de lenha. Quando estava pronta a mãe nos chamava, sentávamos todos em banquinhos ou batentes da cozinha e ela começava a retirar os pratos de alumínio de uma pilha limpíssima e reluzente, colocava uma concha  de caldo e um pouco de farinha e ia entregando a cada um. Não havia rezas ou orações, comíamos em silêncio todos juntos, mas no fundo de minha alma eu sentia que aquela era uma verdadeira comunhão. Sem contar que o cozido era delicioso, temperado com as ervas do quintal. Crescemos todos, exceto Zebinha que ficou pequeno mas cheio de valentia. Quando saí de casa e voltava para visitas ele imediatamente aparecia, me chamando de Marça, como sempre. Falava de sua vida, dizia que enquanto eu estivesse na cidade ficasse tranquila, que ele me protegeria com o canivete que sempre trazia na cintura. Mas sua inocência era atrativa para os maus e começaram a lhe oferecer cachaça, porque o álcool potencializava sua coragem e eles se divertiam com isso como se ele fosse um bobo da corte. Por causa da amizade que nos ligava a família dele me pediu  para conversar com ele e tentar afastá-lo dos bares e das más influências e assim o fiz. Mas o mal é mais atraente que o bem e eu morava muito longe para manter vigilância. Um dia recebi a triste noticia que Zebinha tinha sido assassinado em um bar, depois de ser incentivado pela turma do mal a brigar com outro bêbado.
 

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