quinta-feira, 11 de julho de 2024
De Amor e de Ódio
De tudo que fiz na vida, com enorme sacrifício e excelentes intenções, só me sobrou a família. Eram sonhos grandiosos, de uma jovem boba que pensava poder controlar o futuro. Programei e segui à risca, mas tudo deu errado. Sou responsável, porque ninguém me obrigou a nada, não tomei atitudes forçadas por nada, além de meu caráter e minha gigantesca ingenuidade. Um dia, já no outono da vida, vi que de todos os sonhos só me sobrara um, que considero o maior de todos. Minha filha me deu três netos, pelos quais enlouqueci de amor. Infelizmente não moravam perto de mim, mas existiam e eu podia vê-los e tocá-los com frequência. Nem nos piores pesadelos eu imaginava que seria afastada deles, mas veio a pandemia. No início pensei e torci para que fosse algo passageiro e eu pudesse usar as passagens que sempre comprava com antecedência para ir até eles, mas isso não aconteceu, porque a ciência corria atrás de fabricar vacinas em tempo recorde. Meu coração sangrava e meus netinhos sem entender sobre vírus e vacinas, pediam que eu fosse vê-los. Eu acompanhava o resto do mundo comprando vacinas assim que surgiam, mas o governo do Brasil se negava a isso, embora tivesse ofertas dos laboratórios, tão logo foram criadas. Eu via o mundo se libertando aos poucos de e retomando a vida, mas nós não podíamos. Durante quase dois anos transitei entre a depressão e fios de esperança. Nas noites insones eu traçava planos para chegar até minha família, tentava achar voos alternativos, tinha planos loucos de chegar o mais perto possível e depois completar o trecho a pé, através de florestas. Procurei conseguir me vacinar em outro país, mas para os corretos o Brasil virou uma prisão instransponível onde ninguém saía e ninguém entrava. Doía tanto que passei a ficar a maior parte do tempo deitada no escuro, já então pensando em suicídio e odiando com todas as minhas forças a pessoa que com um simples ato de humanidade poderia acabar com meu sofrimento e de milhões de brasileiros. Mas ele não era humano. Nunca tive medo do COVID, tanto que se peguei o vírus não fiquei sabendo. Lá fora meus netos iam à escola, recebiam a visita do avô que morava em outro país europeu, enquanto aqui eu era xingada quando ia a uma praça vazia, apenas para colocar os pés no chão e pedir à natureza um pouco de força para sobreviver. Dormir era meu único consolo e acordar um pesadelo. Eu vivia em prantos e ele ria, às vezes gargalhava. Que o universo me perdoe, mas existe uma pessoa no mundo que eu odeio com todas as minhas forças e de quem não gosto nem de ouvir o nome, porque de todas as dores que já passei ele foi o pior carrasco.
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