quinta-feira, 13 de junho de 2024

Querida Professora

Quando fazia o curso de magistério resolvi dar aulas em escolas afastadas e carentes, onde muitas vezes os professores concursados se recusavam a ir. Eu ia sem ganhar por isso. Não ganhava dinheiro, mas o que ganhei de experiência e carinho foi imensurável. Meus alunos eram crianças carentes, muitas delas andavam pelas ruas, sofriam abusos e traziam uma carga de sofrimentos, que eu procurava minimizar com atenção e carinho. Na minha sala havia crianças dos nove aos dezoito anos, enquanto eu tinha cerca de vinte anos. Mas tratava a todos da mesma forma, oferecendo conhecimento de todas as formas possíveis além de atenção para seus problemas. Havia o aluno de treze anos que nunca aprendeu a ler porque era totalmente surdo e ninguém tinha percebido; havia o aluninho que sempre que eu me aproximava se encolhia e tremia de medo, até eu descobrir que os pais só se aproximavam dele sempre para espancá-lo. Em contrapartida passei a beijá-lo todos os dias e o brilho em seus lindos olhos verdes a cada vez que fazia isso era um presente para mim. Não vou me aprofundar mais, porque isso apenas serviu de introdução para o que quero contar, que foi um lindo gesto deles. Eu sabia que precisava ganhar dinheiro e queria fazer faculdade, portanto não poderia continuar fazendo uma coisa que era contra as regras, já que eu não era concursada e não me trazia o retorno financeiro. Me inscrevi no primeiro concurso para a Policia Federal mas não contei para meus alunos, porque não sabia se passaria e nem como contaria para eles, porque me doía muito pensar em deixá-los. Mas fui classificada e chegou o dia de me despedir. Entrei em sala e reprimindo o choro contei tudo para eles e disse que aquele seria meu ultimo dia de aula. A maioria começou a chorar imediatamente e eu passei a maior parte do tempo secando as lágrimas que teimavam em escorrer por minha face. Já contei que eram crianças pobres e isso aumenta a importância do que fizeram mais tarde. Quando terminei a aula saíram silenciosamente e deixei as lágrimas saírem livremente enquanto apagava o quadro negro. Daí a pouco ouvi chamarem meu nome na porta. Olhei e vi todos eles enfileirados, cada um com um ramo, uma flor tirada de algum lugar vizinho ou um capim nas mãos. Foram entrando um a um, me entregaram o que tinham trazido e me deram um abraço e um beijo. Fizeram isso por conta própria e gravaram o gesto em meu coração. Nunca irei esquecê-los.

 

 

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