segunda-feira, 20 de abril de 2026

Como fui e como sou


 Sempre fui estranha, desde criança. Tenho memória de coisas que aconteceram desde os oito meses de idade e uma na qual eu era bebê de colo e conheci minha avó paterna. Sempre odiei ficar descalça e quando minha mãe tirava meus sapatos para brincar com outras crianças (o que eu não gostava muito), eu colocava os pés sobre a cadeira, abraçava os joelhos e me recusava a pisar no chão mesmo levando tapas. Mãos sujas para mim são insuportáveis e lavo-as constantemente. Sempre preferi ler a brincar e como em casa não me ofereciam muitas opções de leitura, me lembro de catar papeis trazidos pelo vento e me esconder atrás da casa para lê-los. Com essa ânsia eu aprendi a ler aos três anos e em pouco tempo já conhecia todos os números, inclusive os algarismos romanos e não sei como consegui saber de cor todas as capitais do mundo. Isso me fez virar atração para os adultos, que gostavam de testar meus conhecimentos. Desde então meu maior prazer está no saber e estou sempre pesquisando e lendo. Quando algo desperta meu interesse não fico tranquila enquanto não acesso todas as informações disponíveis sobre o assunto. No meu tempo uma criança só podia ser matriculada numa escola aos sete anos, mas então eu já sabia toda a matéria e em poucos dias me transferiram para a segunda série, o que resultou na mesma situação. Sem saber o que fazer comigo já que não podia concluir o básico antes dos dez anos, fui me arrastando no tédio para me adaptar aos outros alunos. Felizmente em casa tinha uma bíblia, que li inteira, do Gênesis ao Apocalipse, sem pular as genealogias. Li e reli diversas vezes. Carrego estranhezas até hoje e são poucas as pessoas que me aceitam. Corri atrás de aprovação a vida inteira, desde minha mãe, que sempre deixou claro que eu não era a filha que ela desejava. Já que passei a vida me perguntando quem eu era, agora que estou perto do fim achei importante registrar o que sinto para que no futuro não achem, mas saibam por mim mesma. Sou dotada de empatia extrema e sinto as dores alheias até na televisão, o que me deixa esgotada e me faz ter pesadelos, já que vivo numa sociedade muitas vezes cruel. Se bem que sofro até quando vejo alguém tomar vacina, o que não é crueldade. Está sendo muito difícil escrever tudo isso, porque gosto de ser concisa no falar e no escrever. Não tenho paciência com conversas fúteis e opiniões tolas. Sou muito organizada e gosto de tudo guardado ou colocado nos lugares certos. Sou muito pontual e exijo que sejam comigo. Não me sinto bem com o improviso e surpresas; gosto de planejar tudo em detalhes e fico perdida quando meu roteiro é quebrado, daí odiar visitas inesperadas e acontecimentos que alterem meu planejamento. Meu lugar preferido é o meu quarto, na penumbra, onde me sinto mais segura. Tenho todos os sentidos exacerbados;  sinto cheiros que ninguém sente, como alguém fumando na vizinhança, queimadas e chuvas (petricor), tenho que tocar as coisas para sentir a textura e sou viciada em coisas macias. Sinto fortemente o gosto das coisas e talvez por isso goste muito de coisas de paladar delicado, como arroz. Ouço demais e tenho pavor de sons agudos e estridentes, pois fazem doer os meus tímpanos. Muito barulho me deixa irritada ao ponto de às vezes sair correndo de certos ambientes, tanto pelo volume quanto pela intensidade, porque sinto como se meu cérebro fosse um roteador captando todos os sons sem se fixar em nenhum. Fico mais confortável em ambientes de penumbra, por isso gosto de óculos escuros e recentemente descobri e comprei um protetor de ouvidos que tem tornado o mundo mais agradável e silencioso. Não dirijo, tenho pavor. Tenho dificuldade em gravar fisionomias porque não costumo olhar nos olhos das pessoas, o que já me deu o titulo de falsa, mas depois de muito esforço às vezes me lembro de olhar quando estou conversando. Sou perfeccionista e me cobro isso. Ser filha, mãe e esposa me sobrecarregou demais. Talvez por isso já tenha tido dois esgotamentos nervosos, o primeiro aos nove anos. Outra dificuldade que tenho é de rir com as pessoas. Geralmente não vejo sentido nas piadas que me contam ou nas coisas que acham engraçado, como por exemplo, uma pessoa escorregando e caindo. Pra piorar não gosto que me toquem sem permissão e necessidade e só tenho prazer nos beijos e abraços das pessoas que amo muito. E como se não bastasse sou franca demais e às vezes não consigo me controlar, porque odeio mentiras e fingimentos. Não gosto de sair de casa, porque me sinto insegura e é comum adiar ao máximo as saídas e cancelar planos de viagens ou passeios. Por muitos anos sofri com distorção de imagem porque minha mãe me chamava de mulata quando estava com raiva e me convenci que tinha pele escura e cabelos crespos. Incrível que eu olhava no espelho e me via assim. Eu me preocupava demais em não magoar as pessoas e quando percebia ou desconfiava que tinha feito isso me desesperava e às vezes adoecia. Uma coisa boa que a idade me trouxe foi não me preocupar tanto, porque por mais que eu faça nunca vou agradar a todos. Mas talvez o que tenha acontecido de melhor foi o reconhecimento do autismo pela ciência e a forte possibilidade que eu me encaixe nesse espectro. Meu foco ultimamente está em conhecer o assunto e conhecendo tenho me sentido como pertencente a um grupo especifico e não me sinto mais como uma extra terrestre. Estou muito leve gostando muito de mim e orgulhosa de ter conseguido chegar onde cheguei lutando sozinha com tantas dificuldades. Fiz o melhor que podia. 

 







 







Nenhum comentário:

Postar um comentário