terça-feira, 3 de setembro de 2024

Relógios

Minha mãe tinha um lindo relógio de ouro, bem pequeno, com abelhas nas laterais do mostrador, cujos olhos eram pequenos brilhantes. Em ocasiões especiais ela me vestia toda engomada e arrematava o visual colocando o tal relógio em meu braço. Da primeira vez eu fiquei encantada até o momento em que voltamos para casa e ela viu que ele estava parado. Era difícil entender, já que ela tinha dado corda nele e deveria estar funcionando. De imediato a culpa caiu sobre mim. Ela afirmava que alguma coisa eu tinha feito para estragar o relógio. Chorei muito pois era muito comportada e sabia que não tinha nem mesmo tocado na tal preciosidade. Mas quando ela deu corda ele voltou a funcionar normalmente e foi colocado no cofre. Na próxima saída lá veio ela com ele de novo dizendo que ia me dar mais uma chance e que se eu voltasse a fazer o sei lá o que para ele parar eu sofreria as consequências. E dessa vez não fiquei contente e passei o tempo todo com o braço duro, me desviando de tudo e todos para que nada acontecesse com o bendito relógio. Mas adivinhem, ele parou de funcionar e sofri as consequências quando chegamos em casa. Daí em diante era uma tortura quando tínhamos que ir a alguma solenidade, por causa do "maldito" relógio, que sempre parava mas  voltava a funcionar quando minha mãe dava corda e colocava em meu braço. E a cada vez ela fazia infinitas recomendações e ameaças caso eu o "estragasse" de novo. Ela nem eu entendíamos o que acontecia, mas ela estava certa de que eu fazia de propósito. Um dia, felizmente ela desistiu de mostrar às pessoas que eu usava um relógio de ouro. E eu passei a odiar relógios, embora nunca tentasse desvendar o mistério dos relógios não gostarem de mim. Nessa época todos os relógios eram analógicos. Quando fiquei adulta cheguei a testar relógios de colegas de trabalho e amigos e descobri que eles começavam se atrasando quando eu os colocava e depois paravam. Quando voltavam para os donos voltavam a funcionar normalmente. Sempre fui muito racional e a essas alturas sabia que havia uma explicação lógica. Eu precisava de um relógio naquela época em que não havia celulares e não sabia o que fazer. Um dia vi numa vitrine um relógio Casio, digital. Num estalo resolvi arriscar todas as cartas e comprei um, já que o vendedor me disse que não precisava dar corda, que ele funcionava a bateria. Incrivelmente esse relógio nunca parou, a não ser quando acabava a bateria. Até hoje não sei o que acontecia, mas acredito que tenha a ver com o meu campo energético. 

 

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