sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Fim da Estrada


 Quando acabava a estrada à frente comecei a olhar para trás. Vi quando ao invés de escolher o caminho seguro me iludi com um jardim de flores venenosas. Vi quando lutei com dragões para conquistar lindos tesouros e preferi trocá-los por gravetos e cascalhos. Vi quando tinha as cartas vencedoras na mão e preferi desistir do jogo. Me vi uma criança sozinha e desgarrada a quem não ensinaram o caminho mas me empurraram para que seguisse em frente. Segui cheia das melhores intenções, mas agora percebo que isso não blinda ninguém e muitas vezes pode nos tornar vítimas de nós mesmos e daqueles que se aproveitam da ingenuidade.  Hoje triste e assustada percebo que sempre me joguei de cabeça certa que valia a pena e quase sempre tomei as decisões erradas. Considero minha vida um enorme desperdício. Usei todos os meus talentos da forma errada ou apenas não os usei quando deveria. Coloquei a enorme bagunça que fiz numa peneira e percebi que juntei poucos tesouros; uma filha e três netos maravilhosos que me deram uma felicidade genuína e que provavelmente são meu único trunfo, meu canto de cisne. Agora que estou chegando ao meu destino final espero sinceramente que se houver retorno o Universo nunca mais gaste sua preciosa energia comigo, porque não sou uma aplicação rendosa. Se voltar for absolutamente necessário, sugiro que usem minha energia vital em algum inseto ou ave, que não carregue consigo grandes expectativas próprias ou alheias. Sou muito grata pelo que recebi e peço perdão por não ter correspondido ao que se esperava de mim. Só posso garantir que sempre pensei estar fazendo o melhor para mim e para os outros, mas como diz o adágio popular, de boas intenções o inferno está cheio.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Das Coisas Inexplicáveis


Quando eu era policial federal, trabalhava no famoso Máscara Negra em Brasília, sede da organização. Do lado direito da foto ficava o estacionamento externo e do lado esquerdo do tronco da árvore, no ponto mais escuro ficava a entrada e saída. Um dia, quando cheguei nessa porta para sair, senti um baque no estômago e nas costas, como se alguma coisa tivesse me atingido e atravessado meu corpo. A princípio achei que tinha levado um tiro à distância ou com silenciador, mas não havia ninguém à vista. Senti uma ardência forte no local mas olhei e não tinha nada de anormal à primeira vista, mas assim que entrei no carro levantei a blusa e havia uma mancha vermelha, redonda e um pouco alta com cerca de 1 cm de diâmetro. Meu espanto foi maior quando cheguei em casa e meu marido percebeu que o mesmo sinal aparecia em minhas costas, no ângulo exato do dianteiro. Como ardia e nós não fazíamos a mínima ideia do que estava acontecendo, fomos procurar um médico, que não encontrou nenhuma explicação para o fato e disse que nunca tinha visto nada parecido. Só me restou esperar que aquilo passasse e levasse consigo o seu mistério.   

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Luz Não Identificada


 Já morei em muitas casas e muitos lugares, mas sempre escolhi um cantinho para me sentar, observar as estrelas e pensar, depois que todos se recolhiam. Nesses momentos de paz sempre apago as luzes, para não interferirem em meus devaneios. Certa vez eu morava num condomínio onde minha casa dava fundo para um muro alto que delimitava todo o conjunto. Ali tinha a piscina e entre outras coisas um banquinho onde eu me sentava depois que tudo silenciava. É importante dizer que atrás do muro existia um enorme terreno baldio. Uma noite eu estava lá a algum tempo quando comecei a ouvir um barulho como de estática a vi que atrás do muro crescia uma esfera de luz azul muito brilhante, fluorescente. Era grande e crescia regularmente como uma lua cheia, com as bordas bem definidas e pude ver a metade dela. Me enchi de coragem e medo do desconhecido. Enquanto pensava em ir correndo ver o que era, eu pensava em minha família dormindo e que "aquilo" poderia me destruir ou arrebatar e ninguém ficar sabendo. Depois de algum tempo se apagou da mesma forma que surgiu. No outro dia cedo fui ao terreno e não encontrei nada diferente, se bem que eu não sabia o que procurar. Comentei com minha família e minha filha disse que uma mocinha que morava numa casa mais distante da nossa disse ter visto a mesma coisa no mesmo horário. Até hoje me pergunto o que seria. Já ouvi muitas explicações, muitas totalmente estapafúrdias, mas nenhuma que fizesse sentido para o que vi e ouvi. Procurei uma imagem mais parecida com o que vi, mas não encontrei.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

George Washington, o Lagarto


 Até poucos anos atrás eu tinha fobia de lagartos. Mas não era coisa simples, era terror de verdade. Uma lagartixa dentro de casa já fazia que eu ficasse fora de mim e não conseguisse entrar enquanto não fosse retirada. Muitas vezes caí em pranto quando via alguma muito perto de mim. De onde surgiu esse pavor? surgiu quando eu era muito pequena e alguém me disse que as lagartixas gostavam de morder as pessoas e ficar penduradas nelas para soltar apenas quando trovejasse. Pois bem, tive uma casa que tinha uma piscina nos fundos e na lateral tinha uma varanda onde ficava a porta da sala de tv e a da cozinha, de onde não se visualizava a piscina. No final da tarde eu costumava ficar na sala de tv vendo algum programa, lendo ou fazendo alguma arte manual, enquanto a família não voltava para casa. Em determinado dia ouvi um barulho na piscina e fui ver. Aterrorizada vi um lagarto verde se debatendo desesperado tentando sair da água e um misto de medo e pena tomou conta de mim. Eu tinha certeza que se colocasse a peneira perto dele ele aproveitaria para subir no cabo e me atacar, mas por outro lado meu coração doía ao ver o desespero dele. Meu coração venceu o medo e tremendo eu o recolhi com a peneira, coloquei na beira da piscina e corri para dentro de casa certa de que ele estava atrás de mim, mas claro que ele não veio. No outro dia, no mesmo horário, quando vim para meu lugar habitual quase infartei. Não é que o lagarto estava na lateral da casa, direto no meu ângulo de visão, parado me olhando? Fiquei congelada, com os pés sobre o sofá e de olho nele. Passado um tempo ele virou-se e foi embora, mas a história não acaba aí, porque ele continuou vindo todos os dias no mesmo horário e estava ficando cada vez mais perto. Vi que precisava fazer alguma coisa e só me ocorreu conversar com ele e à distancia eu disse a ele que poderíamos ser amigos, mas nunca íntimos a ponto dele entrar em casa ou nos tocarmos. E ele só me olhava e talvez pensasse que eu era louca e talvez estivesse certo. Mas continuou vindo todos os dias, comecei a conversar com ele e inclusive dei-lhe o nome de George Washington e acreditei que ele tinha entendido os limites traçados por mim. Algum tempo depois meu marido foi transferido para São Paulo e tivemos que vender a casa. Quando soube minha grande preocupação foi o que fazer para garantir o bem estar do lagarto. Fiquei com muito medo que ele viesse inocentemente me procurar e alguém o matasse ou ferisse. Só havia um jeito de garantir que isso não aconteceria e coloquei o plano em prática. Um dia veio um comprador e gostou muito da casa e marcou de trazer a esposa. Quando ela veio gostei da energia dela e perguntei se ela tinha medo de lagartos e o que faria se visse algum dentro do quintal. Ela disse que gostava de todos animais e que não faria nada se algum entrasse. Aliviada contei a ela sobre George Washington e ela me garantiu que ele estaria seguro se voltasse à casa. Espero que ele tenha encontrado nela uma amiga. Eu nunca esqueci meu amigo confidente.