terça-feira, 30 de julho de 2024
Número da Sorte
Sou muito pragmática, acredito apenas naquilo que pode ser provado. Mas aparecem coisas em minha vida para as quais não encontro explicação. Mas existem e acontecem comigo, como por exemplo, o número 21, que me acompanha sempre nos momentos de sorte. Comecei a perceber isso quando me inscrevi no concurso da Polícia Federal e recebi o número 021, quando em todo Brasil mais de 12.000 pessoas se inscreveram. Fiz as provas e fiquei aguardando um telegrama que diria se fui aprovada ou não. Não me lembro exatamente quanto tempo esperei, mas num dia 21 chegou um telegrama dizendo que eu estava classificada. Quando me apresentei recebi uma carteira de aluna que terminava com o número 21 e descobri depois que na minha turma de 200 alunos, só 21 mulheres tinham sido aprovadas. Cumpri o treinamento e recebi a carteira policial que, é claro, mais uma vez terminava em 21 e eu tinha 21 anos de idade. Desde então tenho observado que esse número me acompanha em tudo que me faz bem e que qualquer coisa que depende de número, se tiver o 21, já tenho a certeza de que vai dar certo. Por exemplo, tenho o olfato extremamente apurado e tinha muita dificuldade em encontrar uma colônia que combinasse comigo. Um dia entrei numa loja de roupas e vi numa prateleira um vidro lindo, com o numero 21 escrito em dourado. A vendedora me disse que se tratava de uma colônia que a Le Lis Blanc tinha criado para comemorar o aniversário da marca. Experimentei e nunca mais deixei de usar, porque é exatamente o que eu procurava. São tantas coisas que acontecem comigo e estão ligadas a esse numero, que fica impossível acreditar que seja apenas coincidência.
quinta-feira, 18 de julho de 2024
Meu Amigo Zebinha
Quando eu era bem pequenina ganhei um amigo chamado Zebinha, filho mais novo de uma familia que morava perto de minha casa. Ele tinha um irmão mais velho chamado de Balão e duas irmãs, Liberata e Pulunara. Não me perguntem o nome real dos meninos nem o por que de Pulunara, que não sei. Sei que a família era muito pobre e de vez em quando o pai, que trabalhava num frigorífico, ganhava uma cabeça de gado (só a cabeça mesmo) e isso para eles era uma coisa muito especial. Tão especial que Zebinha me convidava para almoçar com eles em diversas dessas ocasiões. A cabeça era cozida num enorme caldeirão no fogão de lenha. Quando estava pronta a mãe nos chamava, sentávamos todos em banquinhos ou batentes da cozinha e ela começava a retirar os pratos de alumínio de uma pilha limpíssima e reluzente, colocava uma concha de caldo e um pouco de farinha e ia entregando a cada um. Não havia rezas ou orações, comíamos em silêncio todos juntos, mas no fundo de minha alma eu sentia que aquela era uma verdadeira comunhão. Sem contar que o cozido era delicioso, temperado com as ervas do quintal. Crescemos todos, exceto Zebinha que ficou pequeno mas cheio de valentia. Quando saí de casa e voltava para visitas ele imediatamente aparecia, me chamando de Marça, como sempre. Falava de sua vida, dizia que enquanto eu estivesse na cidade ficasse tranquila, que ele me protegeria com o canivete que sempre trazia na cintura. Mas sua inocência era atrativa para os maus e começaram a lhe oferecer cachaça, porque o álcool potencializava sua coragem e eles se divertiam com isso como se ele fosse um bobo da corte. Por causa da amizade que nos ligava a família dele me pediu para conversar com ele e tentar afastá-lo dos bares e das más influências e assim o fiz. Mas o mal é mais atraente que o bem e eu morava muito longe para manter vigilância. Um dia recebi a triste noticia que Zebinha tinha sido assassinado em um bar, depois de ser incentivado pela turma do mal a brigar com outro bêbado.
quarta-feira, 17 de julho de 2024
Improvável - TV Devolvida
Só uma vez na minha vida tive um bem subtraído. Aconteceu em Cuiabá há muitos anos quando numa manhã muito agitada alguém pulou o muro e levou a televisão da estante de minha casa. Foi feito um Boletim de Ocorrência e assunto esquecido. É importante dizer que sou dessas pessoas que tem pastas para tudo que é importante e sempre guardei todas as notas fiscais de objetos comprados e só muitos anos depois me desfaço delas. Os meses foram passando e eu não tinha esperança de recuperar a TV, mesmo porque diziam que se a polícia a recuperasse, o que era improvável, não a devolveria. Mais de ano se passou e um dia recebi um telefonema da delegacia e a pessoa me perguntou se eu tivera uma televisão furtada na data tal. Quando confirmei a pessoa perguntou se por acaso eu ainda teria a nota fiscal e para susto dela eu disse que sim. Foi solicitado que eu a levasse na delegacia e assim o fiz. Surpresa recebi a televisão de volta em excelente estado e o delegado me disse que ela tinha sido encontrada na casa de um receptador e que ele também tinha se surpreendido por ele não havê-la repassado. Questionado, disse que tinha resolvido ficar com ela para si porque a imagem era muito boa. Até hoje pessoas duvidam da corrente de improbabilidades que fez o único objeto que tentaram tirar de mim voltar para minhas mãos. Até eu não entendo. Mas agradeço.
Improvável - Bolsa no Aeroporto
Comigo acontecem coisas inacreditáveis. Um dia eu estava no aeroporto de Guarulhos a caminho da Europa, para ver minha família que à época morava em Praga, na República Tcheca. Antes de passar pela alfândega resolvi ir ao banheiro. Todos sabem o quanto aquele aeroporto é inseguro e para piorar era uma época do ano em que havia superlotação. Quando voltei sentei-me um pouco para organizar os papeis que levaria em mãos para embarcar na ala internacional, quando senti aquele gelo que todos conhecem invadir meus ossos, já que minha bolsa não estava comigo. Tratava-se de uma bolsa de grife, com dois passaportes dentro, euros, dólares e alguns reais, além das joias que só uso no exterior. Corri de volta ao banheiro, com a certeza absoluta que jamais veria qualquer daqueles itens novamente. Quando avistei a porta do banheiro vi uma mulher em pé antes da entrada, segurando minha bolsa na frente do corpo. Fiquei eufórica, como se presenciasse um milagre, o que de fato era. Ela olhou para mim com um sorriso doce e disse que tinha achado a bolsa dentro de um box, mas ficou com medo de entregar para qualquer um. Sabendo que a dona voltaria, ela preferiu ficar na porta segurando a bolsa, para garantir que a pessoa tivesse tudo de volta. Saí dali em estado de graça, com a confirmação daquilo que eu sabia, que anjos e demônios são de carne e osso e eu tinha tido a sorte de cruzar com um deles naquele dia. Nunca deixei de desejar que ela também encontre muitos anjos em seu caminho e que a vida lhe retribua mil vezes o que ela fez por mim, já que ela se fez credora do universo ao não aceitar gratificação por seu gesto generoso.
quinta-feira, 11 de julho de 2024
De Amor e de Ódio
De tudo que fiz na vida, com enorme sacrifício e excelentes intenções, só me sobrou a família. Eram sonhos grandiosos, de uma jovem boba que pensava poder controlar o futuro. Programei e segui à risca, mas tudo deu errado. Sou responsável, porque ninguém me obrigou a nada, não tomei atitudes forçadas por nada, além de meu caráter e minha gigantesca ingenuidade. Um dia, já no outono da vida, vi que de todos os sonhos só me sobrara um, que considero o maior de todos. Minha filha me deu três netos, pelos quais enlouqueci de amor. Infelizmente não moravam perto de mim, mas existiam e eu podia vê-los e tocá-los com frequência. Nem nos piores pesadelos eu imaginava que seria afastada deles, mas veio a pandemia. No início pensei e torci para que fosse algo passageiro e eu pudesse usar as passagens que sempre comprava com antecedência para ir até eles, mas isso não aconteceu, porque a ciência corria atrás de fabricar vacinas em tempo recorde. Meu coração sangrava e meus netinhos sem entender sobre vírus e vacinas, pediam que eu fosse vê-los. Eu acompanhava o resto do mundo comprando vacinas assim que surgiam, mas o governo do Brasil se negava a isso, embora tivesse ofertas dos laboratórios, tão logo foram criadas. Eu via o mundo se libertando aos poucos de e retomando a vida, mas nós não podíamos. Durante quase dois anos transitei entre a depressão e fios de esperança. Nas noites insones eu traçava planos para chegar até minha família, tentava achar voos alternativos, tinha planos loucos de chegar o mais perto possível e depois completar o trecho a pé, através de florestas. Procurei conseguir me vacinar em outro país, mas para os corretos o Brasil virou uma prisão instransponível onde ninguém saía e ninguém entrava. Doía tanto que passei a ficar a maior parte do tempo deitada no escuro, já então pensando em suicídio e odiando com todas as minhas forças a pessoa que com um simples ato de humanidade poderia acabar com meu sofrimento e de milhões de brasileiros. Mas ele não era humano. Nunca tive medo do COVID, tanto que se peguei o vírus não fiquei sabendo. Lá fora meus netos iam à escola, recebiam a visita do avô que morava em outro país europeu, enquanto aqui eu era xingada quando ia a uma praça vazia, apenas para colocar os pés no chão e pedir à natureza um pouco de força para sobreviver. Dormir era meu único consolo e acordar um pesadelo. Eu vivia em prantos e ele ria, às vezes gargalhava. Que o universo me perdoe, mas existe uma pessoa no mundo que eu odeio com todas as minhas forças e de quem não gosto nem de ouvir o nome, porque de todas as dores que já passei ele foi o pior carrasco.
terça-feira, 9 de julho de 2024
Inundação sem Chuva
Cheguei em Cuiabá com duas crianças pequenas, uma delas ainda bebê, acompanhando meu marido que tinha sido transferido. Como não tínhamos casa, ele conseguiu um empréstimo na Caixa Econômica Federal e combinou com um "amigo" construtor que as parcelas para a construção seriam repassadas a ele, que ficou totalmente à vontade para fazer uma casa muito mal feita, cujo piso tinha cerca de 4 cm de distancia entre cada lajota e os arcos da frente eram todos tortos. E eu era a única que reclamava, sem sucesso. Tanto reclamei que fui despachada para a casa de minha mãe com as crianças, a mais de mil quilômetros de distância, por três meses consecutivos, sem direito a visitas à futura casa. Quando ficou pronta pude voltar, mas meu marido não passou a noite em casa. No meio da noite acordei com um barulho de chuveirinho. Do lado da cama ficava um interruptor e uma tomada de duas entradas. Antes de acender a luz levei a mão em direção ao barulho e realmente saía um esguicho forte de água pela tomada. Acendi a luz e vi o tamanho do estrago, pois até o globo de luz estava cheio e o piso estava com 10 a 15 centímetros de água. Embora sem entender como não tinha sido eletrocutada e muito menos o que estava acontecendo já que não estava chovendo e a casa não ficava perto de qualquer curso d'agua, corri e desliguei a chave de eletricidade e fui lá fora desligar o registro de água. Em questão de segundos tirei as crianças pela janela mais perto, pois achava que a casa ia desabar. Fomos para uma edícula que nos fundos e esperei o dia amanhecer, deitada no chão com as crianças. Naquele tempo não tinha celular e eu não sabia onde meu marido estava, além de não ter nenhum conhecido na cidade. Quando amanheceu e ele chegou, descobriu que a construtora tinha esquecido de colocar uma boia chamada ladrão na caixa d'água, por isso a água só parou de entrar quando desliguei o registro e fez uma piscina dentro e em cima da casa. Isso exigiu que todas as telhas fossem retiradas até que tudo secasse e toda a casa fosse pintada de novo, com a família dentro. Só continuo não entendendo porque peguei na água que saía da tomada, pisei no chão e não fui eletrocutada.
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