Quem sabe como é a dor de quem não pode ver e não pode tocar no seu amor? Quem sabe a amplidão do espaço entre dois braços vazios? Ou a inutilidade de uma boca que não pode beijar, de um nariz que respira mas não aspira o cheiro da pessoa amada? Quem sabe da dor que preenche o peito, sobe pela aorta entumescida e escorre abundante pelos olhos para não te matar? Cada molécula minha grita por uma pessoinha, cofrinho pequenino que carrega distraído o meu coração. Ele nem sabe o quanto sofro. Pensa que estou longe e viva mas não entende que quero mais que tudo, mas não posso estar com ele. Lev, meu príncipe, eu sofreria menos se você tivesse idade para entender que eu o amo demais, mas existem coisas ruins que separam vovó de você. Como fazer para que você não fique triste e entenda o que me segura aqui? Será que terei ainda a chance de me sentar com você e explicar tudo isso? Só quero que você me olhe nos olhos e diga com essa doce vozinha rouca:"sim vovó, eu sei". Com minha dor eu lido, mas a sua torna a minha insuportável.
quinta-feira, 9 de abril de 2020
domingo, 5 de abril de 2020
Três de Mim
Três de meu sangue vieram: Valentína, Lev e Rod. Vivi, a primeira, foi quem me abriu as portas do paraíso. Antes dela a vida parecia estática, sem grandes alegrias, sem futuro brilhante, sem amor desmedido. Quando achava que não poderia haver nada melhor no mundo e nem igual, minha filha deu-me Lev, meu amado príncipe, aquele que provou a força da atração pura dos sexos. Enlouqueci de amor por aquele homenzinho e agradeço por não tê-lo sempre ao meu lado, pois é certo que eu o estragaria com tantos mimos. Aí veio a cereja do bolo, o lindo Rod, uma pequena cópia da mãe, mas com cabelos loiros e olhos verdes. Agora sei que não preciso de mais nada, só que eles cresçam felizes e saudáveis ao lado dos pais maravilhosos, excelentes jardineiros das lindas e exóticas flores que a vida me deu. Sou muito grata.
Memórias de Infância - Biscoito de Queijo
Eu era muito pequena nessa época. Sei que tínhamos um lindo pé de jenipapo selvagem no jardim, que cobria-se de flores perfumadas para nutrir inúmeras abelhas e depois enchia-se de frutos para a delícia dos passarinhos. Aquilo me encantava. Lembro-me que minha mãe de vez em quando recebia amigas da igreja para o que eu chamava de "reginião"(reunião, na linguagem dos adultos). Lembro-me que à noite eu sempre me ajoelhava na beira da cama e pedia ao papai do céu que fizesse o pé de jenipapo dar frutas para os passarinhos e que as galinhas botassem muitos ovos para ter biscoitos na "reginião". O primeiro motivo era altruísta, mas o segundo não. Sempre tinha uns biscoitos de queijo que eram meu sonho de consumo, mas geralmente não sobravam para mim, porque eu só podia comer depois que as senhoras se retiravam e geralmente não sobravam para mim. Um dia resolvi fazer justiça com minhas próprias mãos, porque achei que depois de tantas orações eu merecia comer pelo menos um fruto da misericórdia divina. Abri o armário e peguei um. A partir de então entrei num frenesi e fui comendo, certa que minha mãe não perceberia. Quando sobraram três fiz uma distribuição no fundo do prato que achei muito convincente e fechei o armário. Vocês podem adivinhar o que aconteceu quando minha mãe descobriu: uma surra de criar bicho. Enquanto apanhava eu só pensava que minha mãe devia ter poderes sobrenaturais para descobrir que eu tinha comido alguns biscoitos. Rs
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Fuzil, o Cachorro.
Minha mãe conta que quando eu era bem pequenina tínhamos um cachorro chamado Fuzil. Não riam, porque mais um nome e uma situação pitoresca surgirá; eu tinha um babá (?) chamado Brasil. Um dia eu estava sentada no pátio e Fuzil apareceu espumando e rosnando e começou a andar em volta de mim, muito perto do meu corpo. Brasil tentou me pegar no colo e foi violentamente repelido pois ele não permitia que ninguém se aproximasse e continuava no seu interminável girar. Aí perceberam que ele estava com raiva e na cabecinha dele, mesmo doente, achava que tinha que me proteger. Meu pai foi obrigado a atirar nele com uma espingarda, o que foi muito difícil, porque teve que achar um ângulo que não me acertasse e a certa distancia, porque Fuzil estabeleceu um grande círculo que ninguém podia ultrapassar. Ainda bem que não me lembro, porque seria muito triste saber que o ultimo pensamento daquele serzinho foi voltado para mim.
terça-feira, 6 de agosto de 2019
A Medalha
Minha avó Amélia tinha quatro filhos homens. Sendo meu pai o mais velho e o primeiro a casar, ela deu à minha mãe um par de brincos que estava na família há anos e ficou com a medalha(foto) que pertencia ao conjunto. Desse casamento nasci, única filha. Um dia minha avó me mostrou a medalha e disse que seria minha para voltar a ficar junto aos brincos. Passaram-se os anos e não pensei mais no assunto até que minha avó faleceu.Notamos que meu avô estava se desfazendo das jóias dela, presenteando namoradas e me lembrei das palavras de minha avó sobre a medalha. Mas como cobrar isso dele? dei o assunto por encerrado. Quando meu avô morre, já despido de todas as jóias, vem a surpresa: uma caixa de papéis velhos que ninguém quis foi a mim destinada, já que gosto muito de saber dos meus antepassados. Minha mãe pega a caixa para me entregar e resolve ver o que tem dentro. Aí você pode imaginar o que aconteceu; embaixo de toda papelada já desbotada pelo tempo, encontra uma caixinha redonda, toda enferrujada e dentro da caixinha, a MEDALHA. Vó Amélia cumpriu sua palavra, mesmo depois de morta.
terça-feira, 9 de julho de 2019
De Volta
Hoje eu quis voltar. Minha realidade transformou-se totalmente, virou do avesso ou de ponta-cabeça. Numa situação de caos total, quando parecia não haver saída, tudo se desfez gradativamente. E gradativamente tudo se reconstruiu de uma forma totalmente diferente, como um prédio de estrutura errada que é desfeito e refeito
. Tudo que pretendia encontrar na vida antiga evaporou-se e tive que esperar para ver tudo renascer de outro jeito. Tanta dor pariu algo muito mais belo do que aquilo a que tanto me apeguei no passado. Aprendi duas coisas muito importantes: que é impossível controlar a nossa vida e que sempre há uma saída para todos os problemas. Em vista disso basta ter calma, entrar em sintonia com o universo e viver pelo agora, não pelo que foi ou virá a ser.
. Tudo que pretendia encontrar na vida antiga evaporou-se e tive que esperar para ver tudo renascer de outro jeito. Tanta dor pariu algo muito mais belo do que aquilo a que tanto me apeguei no passado. Aprendi duas coisas muito importantes: que é impossível controlar a nossa vida e que sempre há uma saída para todos os problemas. Em vista disso basta ter calma, entrar em sintonia com o universo e viver pelo agora, não pelo que foi ou virá a ser.
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Lev Rojko
Ser avó é a alegria mais intensa que já senti. É só encantamento diante daquelas pessoinhas que parecem ter nascido diretamente de nosso coração. São presentes sem preço e únicos que nossos filhos colocam em nossos braços. Agora tenho meu lindo netinho Lev, que veio depois da Valentína, a quem também amo sem medidas num coração que não se reparte, mas se multiplica. No momento é difícil controlar a ansiedade na espera de Rod, meu novo amor. Não existe no mundo vovó mais feliz que eu.
sábado, 5 de agosto de 2017
O Tornado
Muito antes do tornado chegar a bruxa antiga já o esperava. Analisando os animais (cordeiros), as nuvens e os ventos ela sabia que ele seria o maior de todos. Tinha um excelente abrigo que já havia resistido a tornados menores e agora fora reforçado. Avisou a todos que conhecia e teve recomendações especiais a quem ela havia acolhido para ser seu braço direito. Distribuiu tarefas preventivas para que quando tivessem que fechar a porta tudo estivesse pronto e todos fossem ajuda e não estorvo. Mas ele preferiu se divertir e gastar desnecessáriamente os mantimentos ao invés de ajudar. E como se não fosse bastante ainda criticava e atrapalhava os que trabalhavam. Já enxergando as nuvens carregadas no horizonte a bruxa mostrou-as para ele e disse que logo teria que fechar a porta e depois de fechada ela não mais se abriria, portanto ela lhe daria uma última chance para tornar-se útil ou procurar outro abrigo. Ele nem se deu ao trabalho de responder e mostrou-se mais irritante. Foi convidado a retirar-se para alívio de todos que com ela estavam, mas mesmo assim ela deu-lhe mantimentos para a viagem. Agora que ela fechou a porta e ele sente a força do tornado insiste para que ela abra a porta porque ele não tem onde ir. Só que ela aprendeu que não é responsável por quem pode cuidar de si mesmo e nem deve trazer para perto de si aqueles que não acrescentam. A fábula da cigarra e da formiga tornou-se metáfora.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Vovó, vovozinha, vovozinka..
Eu achava que estava com a vida pronta e empacotada e todas as emoções já vividas. Mal sabia eu que a alegria maior estaria por vir, que o grande amor ainda estava a caminho. No dia em que recebi Valentína nos braços alguma coisa maior que tudo me inundou a alma, um amor transcendental, uma verdadeira epifania. A segunda revelação veio quando abracei o Lev e tive a mesma sensação. Diante disso todo o resto se acalmou e tudo foi justificado, como se eu tivesse vivido apenas para chegar a esse momento.
domingo, 25 de dezembro de 2016
Velhice
Por que a maioria dos idosos é mal-humorada ou triste? Muita gente pensa que a vida simplesmente azeda as pessoas, sem motivo aparente. Considero a velhice como a pior doença porque ela não pode ser evitada e traz em si tudo de ruim que pode acontecer ao ser humano e ninguém quando jovem tem noção exata do que ela significa. Começamos perdendo gradativamente tudo de melhor que temos em todos os níveis. Lá se vão as alegrias, os prazeres, os amores, substituidos por dores emocionais e físicas. Vamos nos tornando um fardo pesado para nós mesmos e para os outros, porque o ser humano não dá sem receber. Os bebês dão trabalho mas encantam os adultos com sua beleza e graça, mas os velhos não possuem nada disso. Podem contar com uma condescendência respeitosa e alguns gestos de carinho quando têm presentes a oferecer e herança a deixar. Mas fica clara a falta de amor e paciência. Algumas pessoas de sorte conseguem morrer antes de conhecer esse aspecto triste da vida, outros conseguem apagar a mente e se refugiar num passado feliz. Mas a maioria sofre a o castigo de alcançar uma idade avançada sem perder a lucidez. Triste sina não conseguir que seu corpo e sua mente permitam que a pessoa permaneça útil e não um móvel velho atrapalhando a passagem dos jovens.
domingo, 16 de outubro de 2016
Helenas
Sempre achei que o nome dá ao proprietário certas características. Quando era bem pequena e ainda não sabia nada de sexo, eu achava que as pessoas se casavam apenas para ficar perto das pessoas que amavam. Minha mãe conhecia uma moça chamada Helena, que eu considerava perfeita; por isso eu dizia a todos que queria casar com ela. Desde então percebo que tenho uma afinidade natural e especial com todas as Helenas, embora não queira mais casar com elas(rsrs). Pode ser que seja no primeiro ou no segundo nome, sendo Helena, a simpatia é instantânea e mútua.
terça-feira, 16 de agosto de 2016
Meu Momento
Sou despreparada pra muita coisa, mas duas eu sei bem: observar e analisar. Por um tempo andei por aí distraída, talvez acomodada. Um dia percebi que estava perdendo o riso, vi a criança indo embora e o tédio se instalando. Não aconteceu nada diferente e talvez aí estivesse a origem do problema. Estabeleci o prazo de uma semana para calar, observar e analisar. Só precisei de cinco dias para tudo se mostrar numa clareza absoluta e a partir daí remanejei algumas rotas, coloquei-me em primeiro plano e hoje tenho certeza que tudo está como deve.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Objeto ou Abjetas?
Ontem fiquei na internet até bem tarde vendo o que acontece por aí. Fiquei triste e revoltada com grande parte das mulheres brasileiras. O novo modelo de mulher é a boneca sexual. Muito peito, muita bunda, coxas grossas, cintura fina e pouca cultura, para não ter profundidade de raciocínio e aprender a dizer não. Estão perfeitas para o padrão dos homens egoístas e vazios. Essas mulheres acham que corpo antinatural e sexo acrobático conquistam o amor. Não admitem que saem insatisfeitas, porque esse tipo de homem não se preocupa com a satisfação de suas parceiras, eles querem apenas sexo oral e anal bem feito, e, talvez levados pelos filmes pornográficos produzidos pela mesma qualidade de homens, acham que uma mulher desfalece de prazer diante do órgão sexual masculino e se for-lhes dada a honra de ter contato com ele será a glória das glórias. Homem de verdade não está nem aí pra detalhes anatômicos femininos como estrias, pouco peito ou pneuzinho, eles gostam do cheiro e do gosto de sua mulher, acham sempre que ela é a mais perfeita de todas e se preocupam se ela está feliz. Isso é amor, o resto é uma masturbação masculina mais prazerosa, já que estão conseguindo algo mais real que as bonecas infláveis.
sexta-feira, 8 de julho de 2016
A História do Caroço de Manga Gigante ou Do Que Era Pra Ser Mas Não Foi
Um dia contratei uma empregada que eu não conhecia mas me foi recomendada. Para todos os efeitos vamos chamá-la de E. Do tipo que pode-se chamar de cheinha, mas nada fora do normal. Inclusive usava shorts jeans o tempo todo e camiseta. A família morava no interior e ela passou a viver em minha casa. Havia um moço bonito que ocasionalmente a visitava e os dois sentavam-se na varanda e cochichavam muito. Sem intimidades aparentes. Quando perguntei, disse-me que tratava-se do padre da paróquia dos seus pais, que quando vinha à cidade passava para saber e dar notícias e conselhos. Achei bonito. Num belo dia ela ficou muito quieta e de vez em quando fazia uma expressão de dor. Preocupada, perguntei o que estava acontecendo e ela me disse que tinha tido malária e isso estragara o seu fígado, mas ela era louca por manga verde com sal e toda vez que ela comia tinha cólicas horríveis. Quis levá-la ao médico mas ela achou desnecessário e disse que elixir paregórico sempre resolvia. Comprei o tal do elixir e entreguei para ela. Nisso passou o dia e fomos dormir. De madrugada eu ouvi barulho na cozinha e fui ver se ela estava bem. Não estava. Disse que a dor estava muito forte e por isso estava tomando mais remédio. Por acaso percebi que a camisola dela estava toda molhada na parte de trás. Apesar dos protestos dela falei que se vestisse rápido enquanto eu chamava meu marido para levá-la ao hospital. Acordei o coitado e ele argumentou que poderia levá-la de manhã. Recusei terminantemente, praticamente derrubei-o da cama, alegando que a pobrezinha estava com tanta dor que tinha feito xixi na roupa. E lá se foram os dois. Fiquei acordada esperando e quando ele chegou pouco tempo depois, disse que o médico dissera que faria uma lavagem estomacal e não adiantava ele esperar, que voltasse no outro dia de manhã. Logo cedo derrubei o pobre homem da cama e lá se foi ele de novo para o hospital. Passado um tempo voltou sozinho, de olhos arregalados e me dizendo que E tinha expelido um caroço de manga de mais ou menos 50 centímetros. Já entenderam o que aconteceu? Quando o médico se preparava para fazer a lavagem estomacal e pediu a ajuda de uma enfermeira, ela, enfermeira experiente, deu um sorriso e mandou que E abrisse as pernas. Então mostrou para o médico atônito a cabeça de uma criança coroando. Acreditam que nasceu um menino de peso e comprimento normais? Este é apenas um exemplo das coisas malucas que acontecem na minha vida.
domingo, 17 de abril de 2016
Energia Negativa ou Vampiros Emocionais
Acredito em energia positiva e negativa. Acredito porque tenho muita sensibilidade e posso perceber cada uma delas. Da negativa tenho que me afastar porque não sei como blindar meu corpo e acabo absorvendo-as. Conheci a pouco tempo duas pessoas que sempre me passavam uma sensação de desconforto. Ao lado delas eu não brincava como faço normalmente, sentia que elas não gostavam de mim, por mais que tentasse agradá-las. Até então ocasionalmente eu sentia dores nas vértebras do pescoço. Quando comecei a conviver com essas pessoas mais intensamente,logo que as encontrava a dor aparecia e quanto mais tempo passasse mais aumentava e começou a descer pela coluna até atingir o cóccix. Tornou-se tão insuportável que a certo momento eu não aguentava mais e tinha que ir embora. Chegando em casa tomava um banho longo, um analgésico e só estão a dor passava. Com o tempo foi ficando tão forte que não passava no primeiro dia. E eu não associei a dor à presença delas, talvez porque tenha subestimado o poder da negatividade delas. Felizmente um dia houve um desentendimento entre nós, quando elas deixaram claro que eu era uma estranha no ninho. Desse dia em diante eu cortei qualquer relação com elas e dias depois acordei para o "milagre": minhas dores na coluna tinham desaparecido. Há vampiros sim, não é lenda. Só que são vampiros espirituais.
quarta-feira, 2 de março de 2016
Valentina Rojková
Eu tinha sonhos grandiosos. Tão grandiosos que eu não os imaginava passíveis de acontecer e me contentava em tê-los apenas em minha imaginação. Um dia deixei de sonhar porque achava que até o tempo dos sonhos tinha acabado para mim. No dia 24 de dezembro de 2014 eu estava em Buenos Aires quando recebi uma ligação do outro lado do mundo e minha filha me dizia que estava grávida. Assim, como se joga uma bomba no colo de alguém. Na hora não me preocupei em saber a opinião do pai da criança, eu só queria aquele bebê com todas as minhas forças. Fiquei em transe absoluto até 1º de janeiro quando outro telefonema me avisou que ela tinha ficado noiva e que eles queriam se casar o mais rápido possível. Ainda como um autômato começamos a corrida de cartórios, ministérios e consulados e finalmente casaram-se em abril. Só então acreditei que metade de meu grande sonho já estava realizado pois minha filha estava grávida e casada com o rapaz mais maravilhoso que já conheci. Restavam agora as agonias e alegrias da gravidez. Cada mês passava com a morosidade de um ano e finalmente em 04 de setembro pude receber nos braços minha neta Valentína Rojková, a pessoinha mais maravilhosa que pode existir. Eu a amo tanto e estou tão feliz com minha familiazinha que tenho medo de acordar e descobrir que estava sonhando.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Na contramão
Tenho sempre a sensação de ser inadequada, por toda minha vida achei tudo que uma criança estranha pode achar: que era adotada, alienígena, alguém estranho no ninho. Até que descobri que aqui não era o mundo e a maioria das pessoas com quem sempre convivi não o representava. Sei que muita gente me acha chata, outros prepotente. Eu também me acho às vezes e já derramei muitas lágrimas sonhando ser como os outros para viver contente, entrosada e não sofrer bullying. Já nasci filha única, quando isso era um fato raro; nunca gostei de sujar os pés ou as mãos, comecei a ler muito cedo e era o que mais amava fazer. Tenho alergia a picada de pernilongos, odeio sol quente ( me dá brotoejas), detesto fofocas, pessoas que se divertem à custa das outras, sempre achei errado pegar frutas de quintal alheio às escondidas, cumpro sempre o prometido e acho que um compromisso marcado para 8;00 hs não significa 8:01, muito menos 9:00 ou 10:00 hs. Acho que as leis devem ser respeitadas para organização da sociedade e a boa convivência. Costumo mentir muito pouco e apenas nos casos necessários, por educação ou respeito. Não gosto de carnaval, de funk, de pagode ou se samba, detesto futebol. Não gosto de barulhos desnecessários, de pessoas que gostam de se intrometer na vida alheia, inclusive na intimidade. Sou apaixonada por gatos, principalmente os pretos. Gosto de momentos de solidão, para fazer as coisas que gosto ou para reflexão. Não acredito nos ditos livros sagrados, nem nos profetas e Deus para mim é apenas uma possibilidade totalmente distante e incompreensível, que, se existe, certamente não se intromete em nossas simples vidinhas. Não temo a morte, já que a considero tão ou mais natural que o nascimento. Apenas gostaria que ela fosse para mim o mais digna e indolor possível.Acredito que as coisas acontecem por acaso, mas principalmente pela interferência da maldade ou bondade humana. Amo e respeito meu corpo, por isso não sou a favor de nenhum tipo de droga. Gosto de ser livre, por isso não aceito dependências, nem mesmo das redes sociais. Mesmo sendo assim não significa que eu não respeite as pessoas que são diferentes de mim e que interfira na vida alheia. Mas o inverso não funciona, sempre querem me provar que estão certas e que eu devo mudar. Isso é impossível, eu cometeria uma violência enorme comigo mesma e tenho certeza que enlouqueceria. Mas andar na contramão tem uma consequência triste, a solidão intelectual, quando a gente não tem com quem compartilhar idéias e o que nos resta é o silêncio ou um sorriso estúpido congelado no rosto.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Lembranças
Na fazenda de meus avós, chamada Centro, as rodas d'água eram responsáveis por grande parte da economia. Uma movimentava o monjolo, onde tirava-se a casca do arroz e socava-se o milho para fazer fubá e canjiquinha. Outra girava a moenda de cana para fazer a garapa e dela o açúcar e a rapadura. Fervia em enormes tachos de cobre e exalava um cheiro delicioso. Parte dela era usada para fazer a cachaça Centralina e muitas vezes trabalhadores eram encontrados ao lado dos alambiques totalmente bêbados de tanto experimentar. Eram expulsos imediatamente por minha avó Isabel, empregadora justa mas exigente. E tinha ainda a roda maior da madeireira, que acionava os enormes serrotes, mas seus dentes vorazes me amedrontavam e eu não me aproximava muito. Gostava mesmo era de "ajudar" um senhor de pele cor de carvão, descendente dos escravos da família que continuaram na fazenda depois da Lei Áurea e a quem eu chamava de compadre. Hoje percebo que minha cooperação não era tão valiosa quanto eu achava, pois enquanto ele carregava feixes de cana eu conseguia levar apenas o pedaço de uma. Mas conversávamos muito em nossa jornada de trabalho e ele contava-me histórias maravilhosas.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
A Fé
Os líderes religiosos insistem num requisito essencial aos seus discípulos que é a fé. Ela tem tanta importância que deveria ser o primeiro mandamento de todas as religiões do mundo. E tem que ser inabalável, já que a dúvida ou a descrença são inaceitáveis. Se o religioso começa a questionar significa que abriu uma brecha para o mal e pecou seriamente contra seu deus. Provavelmente será castigado por isso, aqui na terra ou no fogo do inferno. As religiões são implacáveis com a falta de fé em seus pressupostos. E porque isso? Muito simples, a fé é a coluna de sustentação de todas as religiões, pois tudo aquilo que vai contra a lógica e o bom senso tem que ter um limbo para se justificar e esse limbo chama-se fé. Ali tudo pode ser colocado como verdadeiro e a pessoa não se sente idiota por acreditar, porque está escudado pela fé. Alguém disse que o questionamento não é o demônio nos tentando, é apenas nossa mente querendo nos libertar.
terça-feira, 22 de setembro de 2015
Valentína, a redenção.
Depois de tanto tempo de postagens tristes e depressivas, hoje venho postar a felicidade plena. O ano de 2015 prometeu e tornou-se o mais feliz de minha vida. Em 10 de abril minha filha casou-se com um rapaz maravilhoso, o genro desejado por todas as mães de bom senso. No dia 04 de setembro nasceu a minha neta Valentína Rojková, uma menininha linda e de saúde perfeita. E para coroar, nasceu na cidade que mais amo, num país de contos de fadas. Venho de lá onde fui assistir ao nascimento e voltei morrendo de saudades, mas ao mesmo tempo felicíssima e tranquila com tudo que vi. Minha filha tem um marido amoroso, participativo ao extremo, e, se não bastasse possui duas gatinhas lindas, que completam o que verdadeiramente pode se chamar um lar. Tudo que eu mais desejava no mundo era a felicidade dela. Agora não tenho mais nada a querer, a não ser um resto de vida sereno. Estou muito feliz.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
Duas Visões do Mesmo Fato
Um coração falou para um umbigo: "-Acho que você não me ama." O umbigo fez cara de desdém e respondeu: "-Como você é inseguro! acha que não merece ser amado por ninguém." "-Não querido, você não entendeu, o problema não é comigo, eu apenas acho que você não consegue amar ninguém" finalizou o coração, talvez orientado pelo cérebro.
domingo, 12 de julho de 2015
Colheita
Esta é uma lei que nunca aceitei. Até agora. As religiões me convenceram que basta plantar o bem para colher o bem. E eu me desesperava por colher tantos espinhos, uma seara imensa de joio. Não entendia porque vivia tentando seguir a trilha do bem e meus resultados eram quase sempre ruins. Se a lei era tão simples, por que comigo não dava certo? Eu me conheço melhor que ninguém, tenho discernimento para avaliar meus atos. Muitas pessoas corroboravam minha certeza de que meus atos eram bons e até se admiravam quando descobriam certas atitudes minhas. No entanto eu sofria mais do que seria lógico. Até que recentemente descobri que nunca me mostraram o outro lado e minha ignorância não me permitia entender que eu não poderia jamais saber o que é bom, simplesmente porque parecia ser. Entendi que a palavra chave é SABEDORIA. Imaginar que algum comportamento meu daria resultados bons era pura prepotência, pois uma bela embalagem necessariamente não traz um bom conteúdo, o doce que acho delicioso pode matar uma pessoa alérgica, o peso que consigo carregar com facilidade e alegria pode ser demasiado e desagradável para outro. Tomei atitudes que 99% das pessoas acham maravilhosas, mas que se mostraram prejudiciais a todos os envolvidos. Não dei a elas o direito de escolha, porque nunca me passou pela cabeça que haveria desdobramentos desagradáveis. Por isso cheguei à conclusão que é verdade, colhemos o que plantamos, mas isso não significa que tenhamos plantado o mal. As consequências são imprevisíveis, para os bons e maus atos. Só precisamos ter SABEDORIA para às vezes deixar de lado o que parece bom e acatar o que parece ruim.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Finalmente feliz
Quando eu era criança, olhava para o futuro e tinha a felicidade como coisa certa. Depois comecei a achar que com boas ações, fé em deus, muita oração e planejamento, com certeza eu a teria. Como me enganei! Desperdicei quase toda a minha vida nadando contra a maré, certa de que teria uma velhice tranquila ao lado do homem com quem me casei, cercada de filhas, genros e netos. Afinal eu tinha feito tudo certinho, achava que o fim seria uma consequência natural. Mas fui vendo tudo escorrer por entre meus dedos, por mais que eu tentasse não conseguia segurar. Fui perdendo tudo que eu achava essencial para minha felicidade, só restando eu e minha filha, nesse mundo tão grande. Nós duas havíamos nos despido de nossos sonhos e achávamos que agora que ela não acreditava mais e eu já anoitecia, tornava-se impossível qualquer coisa. De uma hora pra outra tudo virou do avesso e as coisas começaram a mudar. Parece que a vida resolveu me dar a experimentar o gosto da felicidade. Minha filha casou-se, me deu um filho como genro e está gestando uma netinha mais do que esperada. Demorei alguns meses para acreditar no que está acontecendo e ainda hoje me pego pensando que é tudo parte de um sonho, mais uma peça que a vida está me pregando. Meu corpo não me castiga mais com inúmeras dores, nossa pequena família se ama muito, finalmente estou muito feliz. E o gosto dessa felicidade de raspa de tacho é a coisa mais deliciosa do mundo.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Agnóstica ou Ateia?
Teísmo agnóstico é o ponto de vista filosófico, que engloba ambos, o teísmo e o agnosticismo. Um agnóstico teísta acredita na existência de pelo menos uma divindade, mas diz respeito à base desta proposição como "algo desconhecido ou inerentemente incognoscível".
Como cheguei ao agnosticismo: meus pais me levavam à Igreja Presbiteriana ao mesmo tempo que me colocaram num colégio católico. Pelo raciocínio lógico, muito precocemente vi a impossibilidade da existência de papai noel, então logo comecei a questionar os mitos religiosos. Quanto mais crescia e me informava, mais confirmava minhas idéias. Tentei seguir o rebanho e o que encontrei de mais aceitável em determinada época foi o espiritismo. Mas à medida que fazia cursos lá dentro (O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e Mediunidade), mais percebia incoerências. Com a idade adquiri confiança suficiente para abraçar aquilo em que eu acredito: o teísmo agnóstico. Mas os outros não permitem que eu seja aquilo que acredito. Nunca tentei impor minhas idéias em conversas, prefiro me calar e até aceito convites para rituais religiosos, silencio quando ouço coisas que considero absurdas, comporto-me respeitosamente e da mesma forma aceito participar de orações. Mas a maioria das pessoas não aceita isso e começa a me questionar e tentar impor comportamentos. Tergiverso para não criar atritos, mas elas insistem, até que digo a verdade. Então o mundo cai e chovem acusações, olhares atravessados e até afastamentos. No entanto passo o tempo todo ouvindo as manifestações religiosas alheias e fico calada, respeito o estágio de cada um. Só quero que tentem entender que quando ouço ou leio certas coisas como uma adolescente virgem ser engravidada por um anjo, ou Deus fazer a mulher da costela de um homem, isso me soa tão sem sentido quanto uma criança me dizer que tem um bicho- papão dentro do guarda- roupas. Sou má por causa disso? Sou louca? Só quero e exijo que respeitem a minha crença.
Como cheguei ao agnosticismo: meus pais me levavam à Igreja Presbiteriana ao mesmo tempo que me colocaram num colégio católico. Pelo raciocínio lógico, muito precocemente vi a impossibilidade da existência de papai noel, então logo comecei a questionar os mitos religiosos. Quanto mais crescia e me informava, mais confirmava minhas idéias. Tentei seguir o rebanho e o que encontrei de mais aceitável em determinada época foi o espiritismo. Mas à medida que fazia cursos lá dentro (O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e Mediunidade), mais percebia incoerências. Com a idade adquiri confiança suficiente para abraçar aquilo em que eu acredito: o teísmo agnóstico. Mas os outros não permitem que eu seja aquilo que acredito. Nunca tentei impor minhas idéias em conversas, prefiro me calar e até aceito convites para rituais religiosos, silencio quando ouço coisas que considero absurdas, comporto-me respeitosamente e da mesma forma aceito participar de orações. Mas a maioria das pessoas não aceita isso e começa a me questionar e tentar impor comportamentos. Tergiverso para não criar atritos, mas elas insistem, até que digo a verdade. Então o mundo cai e chovem acusações, olhares atravessados e até afastamentos. No entanto passo o tempo todo ouvindo as manifestações religiosas alheias e fico calada, respeito o estágio de cada um. Só quero que tentem entender que quando ouço ou leio certas coisas como uma adolescente virgem ser engravidada por um anjo, ou Deus fazer a mulher da costela de um homem, isso me soa tão sem sentido quanto uma criança me dizer que tem um bicho- papão dentro do guarda- roupas. Sou má por causa disso? Sou louca? Só quero e exijo que respeitem a minha crença.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Pequi
Sou absolutamente apaixonada por pequi, um fruto do cerrado. Quando encontro, como em quantidades absurdas, puro, com arroz, com frango...Meu prazer é visível e minha habilidade em roê-los é admirada, pois para quem não sabe, cada caroço contém grande quantidade de espinhos logo depois da polpa, que são extremamente dolorosos. Uma amiga fez um vídeo enquanto eu comia. Achei engraçado e posto aqui para quem quiser ver.https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=641465022633906&id=100003112427718. Rsrsrsrsrsrs...
segunda-feira, 29 de setembro de 2014
Meu Filho
Se eu tivesse um filho, ele seria muito amado por todas as mulheres de sua vida. Até pela sogra ele seria. Porque desde pequenino eu ensinaria a ele a honra de nascer, ser educado, criado e amado por essas criaturas angelicais, repletas de abnegação, ternura e altruísmo. Eu o ensinaria que embora donas de uma força descomunal elas são frágeis. Eu o ensinaria a protegê-las e amá-las muito, a estar atento a seus sofrimentos físicos e emocionais, a tratar suas feridas e fraquezas com carinho e compreensão. Eu o ensinaria a respeitá-las acima de tudo e lhe diria que nunca, nem mesmo a mulher mais degradada socialmente, poderia ser chamasse de louca, de idiota, ser mandada calar a boca com grosseria e olhos de inimigo raivoso. Se eu tivesse um filho ele seria o homem mais feliz do mundo, porque mulheres são assim; dão muito quando pouco recebem e dão o paraíso a quem as ama de verdade.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Fobia de Vestido de Noiva
Diz a lenda que toda menina ou moça sonha em casar-se vestida de noiva. Não eu. Na minha época e no meu meio era obrigatório, o que me levou a pensar seriamente em ficar solteira para sempre, só para evitar o ritual do casamento religioso. Pensar em entrar numa igreja cheia, com todos os olhares voltados para mim, de sapato de salto, vestido comprido, fantasiada, causava-me pesadelos. Tinha certeza absoluta que ia tropeçar no salto, me enroscar na barra do vestido, cair estatelada no centro da passarela e ainda quebrar o nariz. Transpirava só em pensar. Não sei se já contei aqui, mas meu falecido marido me pediu em casamento sem que fôssemos namorados. Antes de considerar o inusitado da situação, perguntei logo se ele fazia questão de casamento religioso. Ele disse que pelo contrário, achava a situação estressante e ficaria feliz em casar só no civil. Nessa hora eu tirei milhares de anos de peso das costas e disse sim.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Quem nunca?
Quem nunca foi levado pelo orgulho ou por qualquer outro pecado? Isso acontece sempre, mas às vezes tentamos resistir e certas pessoas nos levam ao nosso limite. Há anos tinha um amigo virtual estrangeiro, que me chamava regularmente no chat, mandava emails, no geral era simpático, mas tinha um hábito intrigante. Em nossas conversas ele sempre inseria comentários tais como: "-Hoje comi um peixe delicioso com batatas. Batatas são tubérculos que crescem sob a terra e são usados de diversas formas na culinária." Eu respondia educadamente: "-Gosto muito de batatas, principalmente como purê." Daí a pouco vinha outra explicação esquisita, sobre alguma coisa corriqueira. E eu respondia de forma que ele parasse de me explicar o óbvio, mas não adiantava. Um belo dia ele me disse que ia enviar umas fotos muito interessantes. E eis que chegou um email com cinco fotos. Podem adivinhar que fotos eram essas? Foto 1, vista geral de um banheiro. Foto 2, close da pia. Foto 3, close da ducha. Foto 4, close do porta-xampu. Foto 5, close do vaso sanitário. Entenderam? nem eu, até que li as explicações: "-Amiga, este é um lugar que temos aqui e serve para nossa higiene. Na foto 2 temos um recipiente que usamos para lavar o rosto, as mãos e escovar os dentes. A foto 3 mostra o lugar de onde sai a água para lavar o corpo. A foto 4 mostra o lugar onde colocamos os ítens necessários para fazer isso. Finalmente a foto 5 mostra o lugar onde fazemos nossas necessidades básicas. Espero que tenha gostado." Gente, não resisti, nesse momento tive a certeza absoluta que ele achava que éramos mega sub-desenvolvidos. Me subiu uma raiva tão grande, que mesmo cometendo diversos pecados de uma só vez, respondi: "Caro amigo, achei muito interessante que você quisesse me mostrar o seu banheiro, por sinal muito bonito, embora bem mais simples dos que estamos acostumados por aqui. Só me causou estranheza o fato de que você não tenha nenhuma banheira simples ou de hidromassagem, porque em todos os cinco (número escolhido ao acaso) banheiros que tenho em minha casa não dispenso a ducha e uma banheira." Dessa vez ele entendeu e me excluiu. Rsrsrsrs...
terça-feira, 27 de maio de 2014
Meu maior mico
Sem dúvida sempre me meto em situações inusitadas, mas a que mais me assombra envolve o inseto do qual tenho um nojo absurdo, incontrolável. Claro que já sabem que é a cascuda, a maldita barata. Então foi assim: uma conhecida teve a infeliz idéia de me convidar para seu almoço de aniversário. Montou uma mesa bem comprida na varanda para que todos os convidados se sentassem juntos. Sobre a mesa diversos frangos recheados com farofa, arroz e maionese. Como se não bastasse a minha presença de risco, ainda colocaram ao meu lado uma criança atenta e sem papas na língua. Deu no que deu. Começamos todos a comer e lá pela terceira garfada, quando fui comer a farofa, eis que pego uma barata morta, que veio para mim na mesma posição dessa da foto, com as perninhas para cima. Tentei segurar, mas só consegui virar de lado e vomitar. Enquanto isso, com meu cérebro funcionando a mil, eu tentava arranjar uma desculpa para meu gesto, se é que havia, para não acabar de vez com o almoço. Antes que conseguisse me recompor a garotinha olhou no meu prato, pegou o garfo e falou bem alto: "-Olha! tem uma barata morta dentro da farofa dela!". Aí a coisa ficou feia. Era gente vomitando e cuspindo pra todo lado, eu tentei me desculpar mas não conseguia parar de fazer vômito, saí correndo de lá e até hoje não sei no que deu. Mas morro de vergonha e de pena da aniversariante, coitada!
sábado, 22 de março de 2014
Sem Saída
Apesar da dificuldade da caminhada ela jamais abandonou sua mala de sonhos. Ali ela carregava a lua cheia que olharia abraçada com seu amado tomando taças de vinho, o maravilhoso por-do-sol que veriam sentados num banco na praia; trazia a música que dançariam colados por noites inteiras. Trazia a cama onde curiosos explorariam o corpo do outro como numa aula de anatomia. Trazia também muitas delicadezas, como flores, palavras gentis, gestos de carinho, de compreensão, algumas lágrimas compartilhadas, de alegria ou de dor.Os sonhos iam se acumulando e com o tempo foram ficando muito pesados. Mas ela acreditava sinceramente que um dia encontraria alguém e então eles seriam todos usados. E enquanto uns fossem usados e outros criados, seriam duas mãos a carregá-los. Caminhou vergada com seu peso por muitos quilômetros e quando estava no fim de sua jornada, viu-se de repente com a mala de sonhos na mão direita, e, algemada à sua mão esquerda uma criança mimada, egoísta e grosseira. Os sonhos não eram grilhões, pois eram doces. Ela olhou para o pouco caminho que restava e percebeu dolorosamente que não conseguiria chegar carregando os dois pesos; um estava preso a seu pulso e o outro tornava-se inútil pois não havia mais tempo para realizá-los e eles já estavam morrendo. Abandonou a mala com tantos sonhos sem uso e seguiu em frente desesperançada, ouvindo e sentindo os destemperos da criança e torcendo para chegar logo ao seu destino. Ah! havia também uma sacola de esperança, mas essa já estava vazia, porque é a esperança que alimenta os sonhos.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Mudança de Rota
Um dos maiores prazeres de minha vida era a leitura. Um dia eu não queria mais ler, por mais que tentasse. Respeito demais meus instintos e resolvi dar um tempo e esperar até entender. Não demorou muito e a resposta aflorou. Percebi que eu tinha cansado de teorizar, viver vidas falsas através dos livros e não me interessava mais pesquisar mistérios insondáveis, não queria mais saber o que veio antes de mim e o que virá depois, não estou nem aí para quem vai ser o novo chefe da banda, como já disse alguém. Também não vou mais me preocupar se não sei o nome desse alguém. Não tenho mais tempo a perder e vou optar pelo que me faz feliz, pela simplicidade das coisas, pelo que eu quero e não o que esperam de mim (será que esperam mesmo ou fui eu que criei falsas expectativas?). Bom, agora isso não mais importa. Estou trocando um livro por um chopp numa mesa de calçada, papos cabeça por um monte de gargalhadas com os amigos. Livros são maravilhosos, vasto campo de conhecimento. Mas chega um dia em que não é tão importante nem seremos menos felizes se não soubermos quem foi Kant, Freud ou Spinosa. Finalmente chegou meu dia de libertação.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Pesadelos
De uns anos para cá passei a ter pesadelos terríveis, inimagináveis. Muitas vezes tenho medo de dormir e quando eles vêm acordo aos gritos e em pranto. Eles me assustam muito porque não são como os que eu tinha antes, ocorrem como se eu estivesse acordada, porque sei onde estou, "vejo" o meu quarto, todos os objetos, até olho as horas. Então fica mais difícil distanciá-los de minha vida real. No início desta semana sonhei que acordei de manhã (e era realmente de manhã), me aproximei da cortina para abri-la quando percebi um vulto de mulher atrás do voile, do lado de fora. Fiquei muito assustada porque morando no quinto andar de um prédio, não poderia haver alguém flutuando ali. Sentei na cadeira ao lado da cortina, abaixei a cabeça e com o canto dos olhos vi que a pessoa passou para dentro. Amedrontada olhei de relance e reconheci as pernas e as mãos de minha filha. Nisso ela estendeu a mão e disse: -Não fuja de mim mãezinha, eu vim ver a senhora! Imediatamente peguei na sua mão e aconteceu o seguinte diálogo: -Filha, foi acidente? -Foi mamãe. -Você não sobreviveu, não é mesmo? -Não mamãe. Comecei a chorar desesperadamente e não queria soltá-la, com medo que desaparecesse. Então ela me disse que não chorasse, porque ela estava feliz, finalmente estaríamos juntas para sempre e nada mais poderia nos separar. Ainda não consegui superar, até hoje choro, porque acho que esse pesadelo atingiu o maior dos meus medos.
sábado, 12 de outubro de 2013
Minha Avó Me Contou
Vó Amélia me contou que era uma moça muito protegida e quando chegou a época de se casar, um dia soube que um pretendente viria falar com seu pai. Curiosa para saber da aparência do rapaz, ela conseguiu vê-lo às escondidas e todos seus sonhos ruíram: era extremamente magro e pálido, com uma barba enorme. Enquanto os preparativos para o casamento evoluíam ela manteve-se em tristeza e letargia, certa de que não conseguiria amar aquela pessoa. Torcia para que acontecesse alguma coisa que impedisse o "sacrifício", porque desobedecer ao pai estava fora de questão. Quando chegou o dia do casamento ela deixou-se arrumar, sem a mínima alegria. Caminhou para o altar e quando olhou para o noivo achou que tinha sido trocado; ali estava um belo rapaz, forte e corado, sem pelos no rosto e com um belo sorriso estampado. Do inferno ela ascendeu ao paraíso e amou-o instantâneamente. Depois da cerimônia, quando finalmente puderam ficar a sós, ele contou que planejara vir acertar o casamento bem antes, mas fora acometido de uma malária severa que quase lhe tirara a vida. Tão logo conseguiu ficar de pé insistiu em formalizar o compromisso para não perder mais tempo, daí o estado depauperado que ela viu. Do noivado ao casamento recuperou-se totalmente e era o homem que ela tinha diante de si. Viveram juntos por longuíssimos anos até que a morte a levou antes dele.
domingo, 14 de julho de 2013
Fogo e Gelo
O mar ruge impaciente e atira-se contra a terra, com os olhos cativados pela lava quente, cigana dançarina, vestida de amarelo e vermelho. Ela encolhe-se temerosa, embora atraída pelas promessas espumantes que ele pousa na areia. Mas eu não devo, diz a lava, agora que conheci a beleza da força, não posso me deixar destruir por sua alma gelada. Não, diz ele, o seu amor me fará morno e calmo, então seremos felizes. Insensata ela precipitou-se ao encontro dele e pelo instante de um beijo, foi absurdamente feliz. De repente o mar a cobriu inteira num abraço sufocante e gélido. Impotente ela sentiu seu calor sair pela boca, transformado em vapor, enquanto perdia seus belos tons coloridos. Novamente tornou-se pedra.
Nesse momento ele olhou para ela decepcionado e disse que não a queria mais, porque ela tinha se transformado numa coisa escura e fria.
Nesse momento ele olhou para ela decepcionado e disse que não a queria mais, porque ela tinha se transformado numa coisa escura e fria.
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Eu não creio.
Eu não creio em Jesus Cristo, nem na Virgem Maria, nem nos Santos canonizados. Acho totalmente irracional que não acreditem em Papai Noel e que Branca de Neve não faça milagres, seguindo o princípio de que a fé deve ser cega e inquestionável. Mas tenho muito medo de dizer isso, porque sei que o ódio dos crentes pode matar. Eu não conheço esse sentimento, mas já vi seus efeitos. Não acredito no paraíso, mas não consigo em sã consciência fazer mal ao meu próximo. Sempre que posso ajudo quem necessita e amo pessoas e animais. Mas meu comportamento não tem a mínima importância para os fanáticos, diante do fato de eu não acreditar naquilo que tentam me impingir. Para muitos deles, isso automaticamente me faz uma criatura maligna, comandada por Satanás e se afastam de mim, porque eu deveria ser uma ovelha ou uma escrava. Não importa, mesmo assim continuarei a fazer o bem, a seguir meus bons princípios, a ter uma alma sensível e carinhosa. O amor é e sempre será meu guia.
quinta-feira, 7 de março de 2013
Coisas dos Costa Vale
Minha mãe viúva, mora ao lado do irmão e cunhada, que por sua vez moram em frente à casa da filha. Minha prima mora com o marido e os dois filhos, um menino e uma menina. Meses atrás, um ladrão perseguido pela polícia, saiu pulando pelos quintais e deu o azar de entrar no quintal de minha mãe e seus cachorros, inclusive uma pitt bull. Atacado com fúria, resolveu pular para o quintal de meu tio. Machucou-se mais ao atravessar o arame farpado sobre o muro e no desespero caiu em cima de uns objetos de ferro que estavam num canto. Aí então estava todo ensanguentado e desorientado. Subiu no telhado e caiu na calçada, já com minha mãe e meu tio no encalço do meliante. Estendido no chão, ao ver os dois perseguidores enfurecidos, identificou-se como filho de uma conhecida deles. Nisso o marido de minha prima acordou ouvindo a voz do filho vinda da rua. Note-se que isso aconteceu de madrugada. Preocupado saiu para a varanda e viu o quadro; meu tio, minha mãe, um rapaz ensanguentado e a criança ao lado dando palpites. Assustado gritou para que ele voltasse para casa, ao que tranquilamente respondeu: "-Não se preocupe papai, é apenas um ladrão e é amigo de vovô e tia Geralda!".
terça-feira, 5 de março de 2013
Canção das mulheres
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft
Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.
Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.
Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.
Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.
Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.
Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''
Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.
Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.
Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.
Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Árvore Antiga
Nós somos como árvores. Quando jovens nosso tronco é resistente, maleável, sadio e estamos ainda sujeitos a mudanças. Por isso nossas raízes são ocultas e mais rasas. Com o crescimento e a altura, essas raízes se aprofundam para que qualquer tempestade não nos derrube. Aí começa a nossa ligação mais intensa com nosso solo. Quanto mais velhos ficamos, sabemos que nosso tronco se enfraquece, estamos mais sujeitos ao ataque de pragas, então temos necessidade de criar mais liames, de lançar mais âncoras e então lançamos mais raízes que agora saem de todo nosso corpo. Até aceitamos algumas trepadeiras, que embora se alimentem de nossa seiva, nos mantêm mais firmes. Mas aí teremos perdido nossa liberdade, não podemos mais ser transmutados. Impossível agora cortar tantos laços e sobreviver.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Procura de Conhecimento
Nasci com uma gana absurda de conhecimento. Tanto que aos tres anos eu já sabia ler e escrever, enquanto não sabia ainda falar muito bem. Minha tia Neves conta que se divertia mandando que eu lesse textos com palavras que eu ainda não conseguia pronunciar bem. Mas quando eu chegava nas palavras "pegadinha", lia, olhava para ela sériamente e dizia: "Eu sei que não falei certo."
A minha sede por leitura era tão grande, que minha mãe ficava irritada, porque eu preferia ler a brincar e muitas vezes me escondia no quintal ou atrás da casa com pedaços de jornal, folhas de revista, que às vezes só traziam propagandas, mas que eu recolhia do chão e escondia como tesouros, para ler assim que estivesse sozinha. Tio Moacir era meu companheiro predileto, porque tinha paixão por livros e passávamos horas naquele quarto abarrotado, sem trocar uma palavra, cada um perdido no seu mundo particular. Muitas vezes minha avó Amélia percebia que já estávamos quase lendo no escuro, vinha e silenciosamente acendia a luz. Para nós naquelas horas, não havia sede nem fome, nos alimentávamos de leitura. No colégio eu acredito que li todos os livros da biblioteca. Depois eu lia os livros das bibliotecas públicas. Aí comecei a comprar livros e quando eles se espalhavam por todos os cômodos da casa, eu doava, deixando apenas os chamados livros de cabeceira", que no meu caso não há cabeceira que caiba tantos. Por que estou contando isso? Porque um dia, muito recentemente, percebi que a leitura trouxe incontáveis ganhos e muito prazer, mas enfiada de cabeça nessa paixão me afastei muito do mundo real. Agora quero entrar de cabeça na vida e colocar em prática o que aprendi. Não seria inteligente passar a vida estudando e nunca entrar de férias.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Sem Noção
Eu sou uma tonta. Mexe e vira apronto uma. Nunca acreditei em loterias, mas últimamente ando experimentando novos comportamentos. Na véspera de Natal passei na lotérica do shopping e peguei um monte de cartelas, de jogos variados, para fazer em casa. Cheguei, me coloquei à vontade, li as regras atrás e comecei a marcar. Primeiro pensamento insensato:" afinal isso é apenas um jogo e deve ser baratíssimo. Porque marcar apenas o mínimo e perder a chance de ganhar?" Peguei todas as cartelas e marquei o máximo de números possíveis em cada uma e fui feliz fazer os jogos. Primeiro obstáculo, uma fila quilométrica, o que achei perfeito, porque tinha mais chance de puxar conversa com as simpáticas pessoas que ali estavam. Conversa vai, conversa vem, chega minha vez. E a fila atrás cada vez maior. Dei os jogos para a moça e achei que ela me olhou estranho. Mas tudo bem, ela talvez me conhecesse de outro lugar. E tome a fazer cálculos e me olhar esquisito. Quando terminou, perguntou se eu tinha certeza que queria jogar aquilo. "-Claro, meu bem! Se estou aqui na fila!" falei já abrindo a carteira e tirando vinte reais. E ela: "-Tem certeza?". A fila crescendo e eu: "-Não estou entendendo, quanto tenho que pagar?". Aí veio a bomba; vinte e quatro mil e não sei quantos reais. Fecha o pano para minha carreira e a risada da moça do caixa. Nunca mais me meto no que não entendo. É o que sempre digo até a próxima bobagem.
Cumplicidade
Por trinta e seis anos fui casada com um homem que não conhecia o sentimento de lealdade e de comprometimento. Essas características que são fortes em mim e que eu cultivo por toda vida, para ele significavam nada. Os "amigos" sempre estavam em primeiro lugar, mesmo aqueles que tentavam me seduzir pelas costas dele. As mulheres fúteis tinham mais importância. Não me defendia, não me apoiava, não me incluía. Eu vivia para a família e não podia contar com o companheiro com quem eu planejava envelhecer. Só para exemplificar, quando morávamos em Cuiabá/MT, ele viajou para Brasília dizendo que era a serviço, eu arrumei a sua mala como sempre, porque ele não sabia combinar nada com nada, beijei-o e desejei boa sorte. Alguns anos mais tarde um amigo dele fez questão de me contar, com um sorriso de superioridade, que ele tinha viajado para ser padrinho de casamento dele e com outra mulher. Eu não havia sido nem mesmo comunicada. Muitas dessas aconteceram enquanto eu ficava em casa. Curioso é que ele sempre me dizia que os amigos eram "irmãos", no entanto quando surgiam as dificuldades era sempre eu a estar por perto. Quando foi acometido de um tumor no cérebro e ficou inválido por seis anos, os "irmãos" e as "amigas" desapareceram e eu fiquei sozinha com toda a responsabilidade nas costas. Ninguém apareceu para trocar-lhe uma fralda, eu fazia tudo pessoalmente, com carinho e desvelo. Hoje sei que mereço o mesmo tratamento que dou e nunca mais aceitarei alguém que não pense e aja como eu.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Serena
Há tempos não sou mais feliz. Fui por alguns meses, quando achei ter encontrado a pessoa certa. Tristemente fui percebendo o esmaecimento de tudo. Um dia sumiu isso, no outro aquilo, eu sabia que era questão de tempo (e pouco) em que tudo desapareceria. Aguardei o fim, torcendo para que a situação se revertesse e nós tivéssemos a chance de construir um futuro juntos. Mas a cada dia ficava mais óbvio que falávamos e sentíamos diferente, não havia a menor possibilidade de comunhão. Como diz determinado livro, ele era de Marte e eu de Vênus. Depois que vi isso com clareza, apenas aguardei. Nesses dias de espera voltei-me para mim, preparando o novo luto para que não fosse traumático e que eu estivesse pronta para a possibilidade de viver só quando acontecesse o desfecho. Consegui. Hoje não posso dizer que sou feliz, porque acho que só o somos aos pares. Mas estou absolutamente serena.
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Mulher Feliz
O que faz uma mulher feliz? Falo daquela que desce uma escada quase bailando, que tem sempre um brilho de malícia nos olhos, que ri por qualquer bobagem, que cantarola enquanto realiza coisas simples e corriqueiras. Que acorda radiante, com todas as possibilidades de um novo dia. Para isso essa mulher precisa de um amor, é ponto obrigatório. Alguém para andar de mãos dadas, para trocar palavras e toques maliciosos, que ame seu gosto e seu cheiro, que não consiga ficar um dia sem vê-la ou ouvir sua voz. Que o sexo seja constante, que ele goste de tocá-la e beijar na boca. Que saiba que é amada ao ponto dele considerá-la a mulher mais bela do mundo. Uma mulher pode ser serena, tranquila, alegre, pelas mais diversas razões. Mas para ser feliz, feliz de verdade, precisa do homem certo. Então todos à sua volta perceberão o seu brilho.
domingo, 19 de agosto de 2012
Procriação
Você já reparou que a cada dia aumenta o número de mães e avós que cuidam sozinhas de suas crianças sem a assistência paterna? Por que os homens fazem filhos a torto e a direito e não assumem suas responsabilidades? Por que as mulheres aceitam isso e continuam fazendo filhos como se fossem animais que entram no cio, cruzam e emprenham? Houve um tempo em que o homem tinha consciência de que era o provedor da família, que era exemplo para seus filhos e tinha vergonha de não ser capaz disso. Um homem que deixava sua família passar necessidades não merecia o respeito da sociedade. Com a dissolução dos costumes, regredimos um passo na evolução, passamos a um estágio puramente animal, anterior ao homem das cavernas. Agora somos apenas instinto; o homem em geral age apenas no sentido de espalhar a sua "semente", mostrar sua masculinidade através da barriga de uma mulher prenhe, já que ainda não pode sair por aí mostrando seu membro ereto e fazendo sexo no meio da rua. Já a mulher faz sexo sem critério pensando que sexo e gravidez lhe trarão amor e proteção. Mas o que acontece no final dessa fornicação generalizada? Os homens já não têm o dever de conviver com os filhos, que não foram gerados dentro de uma relação estável e amorosa. O amor que decorreria dessa situação é fraco ou inexistente, porque ele não acompanhou a gestação com seus problemas e suas alegrias, não ajudou a cuidar da criança, não trocou fraldas nem saiu correndo à noite atrás de um médico ou uma farmácia, não viu o primeiro sorriso nem ouviu a primeira palavra. Não amparou nos seus primeiros passos, não participou de suas brincadeiras, não a consolou nas primeiras decepções, não vibrou com suas primeiras vitórias. Então assim fica fácil virar as costas e partir. Por que as mulheres e as avós cuidam desse exército de crianças sem pai? Por causa do instinto maternal que nasce com elas e difícilmente as abandona, mesmo que tenham perdido o bom senso, o respeito e a inteligência.
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
O Tempo
Indiscutível. O tempo resolve todas as questões. Tudo que parece insolúvel, toda dor desesperada, toda falta de perspectiva, toda vida destroçada. Nada permanece intocado na passagem do tempo, nem mesmo o maior sofrimento. Por isso confie e espere por aquilo que parece impossível. Um dia eu estava presa no fundo de um poço, com uma pedra enorme impedindo a saída. Não via nenhuma luz, as paredes eram totalmente lisas e escorregadias, não tinha mais forças nem tinha armas para lutar e desisti. Encolhida em um canto esperei a morte e ansiei por sua vinda. De repente uma força descomunal retirou a pedra da entrada e a mim de dentro da prisão. Pelo tempo necessário para me recompor, permaneci parada, apenas admirando a beleza do mundo, de cores tão belas e vívidas como eu sequer imaginava. De início não acreditava no milagre e temia ser atirada de volta a qualquer momento. Mas o tempo passou, me levantei, descobri uma força interior maior do que que antes e não temo mais os buracos. Aprendi bastante para saber evitá-los. E o mais importante, readquiri a fé.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Distraída
Meu marido e eu fomos convidados a jogar cartas na casa de um casal de amigos. Tenho o hábito de tirar os sapatos disfarçadamente, todas as vezes que me sento ao redor de uma mesa. Quando vou me levantar volto a calçá-los sem que ninguém perceba, sem usar as mãos. Com meu marido à esquerda e o dono da casa à minha direita, começamos o jogo. Tudo corria muito bem, até que no final as coisas começaram a ficar esquisitas. Em primeiro lugar, eu não conseguia localizar o sapato da direita. Fui tateando com o pé e não encontrava o fugitivo. Finalmente achei! Mas ele parecia estar virado para baixo, porque era impossível calçá-lo. Usava os dedos dos pé tentando desvirá-lo, mas ele parecia colado ao chão. Eu já estava quase ofegante, quando percebi um silêncio constrangedor. Meu marido me olhava assustado, a dona da casa parecia querer me matar com os olhos e o pobre do marido tinha uma expressão desesperada. Quando vi para onde ele olhava, juro que me mataria se houvesse alguma arma disponível; a mesa era de vidro(eu não havia notado esse pequeno detalhe), meu outro sapato estava embaixo da cadeira. E eu, simplesmente estava com o pé descalço em cima do sapato do pobre coitado, fazendo movimentos em todos os sentidos. Tentei explicar, mas ...
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