quarta-feira, 2 de março de 2016

Valentina Rojková



Eu tinha sonhos grandiosos. Tão grandiosos que eu não os imaginava passíveis de acontecer e me contentava em tê-los apenas em minha imaginação. Um dia deixei de sonhar porque achava que até o tempo dos sonhos tinha acabado para mim. No dia 24 de dezembro de 2014 eu estava em Buenos Aires quando recebi uma ligação do outro lado do mundo e minha filha me dizia que estava grávida. Assim, como se joga uma bomba no colo de alguém. Na hora não me preocupei em saber a opinião do pai da criança, eu só queria aquele bebê com todas as minhas forças. Fiquei em transe absoluto até 1º de janeiro quando outro telefonema me avisou que ela tinha ficado noiva e que eles queriam se casar o mais rápido possível. Ainda como um autômato começamos a corrida de cartórios, ministérios e consulados e finalmente casaram-se em abril. Só então acreditei que metade de meu grande sonho já estava realizado pois minha filha estava grávida e casada com o rapaz mais maravilhoso que já conheci. Restavam agora as agonias e alegrias da gravidez. Cada mês passava com a morosidade de um ano e finalmente em 04 de setembro pude receber nos braços minha neta Valentína Rojková, a pessoinha mais maravilhosa que pode existir. Eu a amo tanto e estou tão feliz com minha familiazinha que tenho medo de acordar e descobrir que estava sonhando.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Na contramão

Tenho sempre a sensação de ser inadequada, por toda minha vida achei tudo que uma criança estranha pode achar: que era adotada, alienígena, alguém estranho no ninho. Até que descobri que aqui não era o mundo e a maioria das pessoas com quem sempre convivi  não o representava. Sei que muita gente me acha chata, outros prepotente. Eu também me acho às vezes e já derramei muitas lágrimas sonhando ser como os outros para viver contente, entrosada e não sofrer bullying. Já nasci filha única, quando isso era um fato raro; nunca gostei de sujar os pés ou as mãos, comecei a ler muito cedo e era o que mais amava fazer. Tenho alergia a picada de pernilongos, odeio sol quente ( me dá brotoejas), detesto fofocas, pessoas que se divertem à custa das outras, sempre achei errado pegar frutas de quintal alheio às escondidas, cumpro sempre o prometido e acho que um compromisso marcado para 8;00 hs não significa 8:01, muito menos 9:00 ou 10:00 hs. Acho que as leis devem ser respeitadas para organização da sociedade e a boa convivência.  Costumo mentir muito pouco e apenas nos casos necessários, por educação ou respeito. Não gosto de carnaval, de funk, de pagode ou se samba, detesto futebol. Não gosto de barulhos desnecessários, de pessoas que gostam de se intrometer na vida alheia, inclusive na intimidade. Sou apaixonada por gatos, principalmente os pretos. Gosto de momentos de solidão, para fazer as coisas que gosto ou para reflexão. Não acredito nos ditos livros sagrados, nem nos profetas e Deus para mim é apenas uma possibilidade totalmente distante e incompreensível, que, se existe, certamente não se intromete em nossas simples vidinhas. Não temo a morte, já que a considero tão ou mais natural que o nascimento. Apenas gostaria que ela fosse para mim o mais digna e indolor possível.Acredito que as coisas acontecem por acaso, mas principalmente pela interferência da maldade ou bondade humana. Amo e respeito meu corpo, por isso não sou a favor de nenhum tipo de droga. Gosto de ser livre, por isso não aceito dependências, nem mesmo das redes sociais. Mesmo sendo assim não significa que eu não respeite as pessoas que são diferentes de mim e que interfira na vida alheia. Mas o inverso não funciona, sempre querem me provar que estão certas e que eu devo mudar. Isso é impossível, eu cometeria uma violência enorme comigo mesma e tenho certeza que enlouqueceria. Mas andar na contramão tem uma consequência triste, a solidão intelectual, quando a gente não tem com quem compartilhar idéias e o que nos resta é o silêncio ou  um sorriso estúpido congelado no rosto.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Lembranças

Na fazenda de meus avós, chamada Centro, as rodas d'água eram responsáveis por grande parte da economia. Uma movimentava o monjolo, onde tirava-se a casca do arroz e socava-se o milho para fazer fubá e canjiquinha. Outra girava a moenda de cana para fazer a garapa e dela o açúcar e a rapadura. Fervia em enormes tachos de cobre e exalava um cheiro delicioso. Parte dela era usada para fazer a cachaça Centralina e muitas vezes trabalhadores eram encontrados ao lado dos alambiques totalmente bêbados de tanto experimentar. Eram expulsos imediatamente por minha avó Isabel, empregadora justa mas exigente. E tinha ainda a roda maior da madeireira, que acionava os enormes serrotes, mas seus dentes vorazes me amedrontavam e eu não me aproximava muito. Gostava mesmo era de "ajudar" um senhor de pele cor de carvão, descendente dos escravos da família que continuaram na fazenda depois da Lei Áurea e a quem eu chamava de compadre. Hoje percebo que minha cooperação não era tão valiosa quanto eu achava, pois enquanto ele carregava feixes de cana eu conseguia levar apenas o pedaço de uma. Mas conversávamos muito em nossa jornada de trabalho e ele contava-me histórias maravilhosas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

A Fé

Os líderes religiosos insistem num requisito essencial aos seus discípulos que é a fé. Ela tem tanta importância que deveria ser o primeiro mandamento de todas as religiões do mundo. E tem que ser inabalável, já que a dúvida ou a descrença são inaceitáveis. Se o religioso começa a questionar significa que abriu uma brecha para o mal e pecou seriamente contra seu deus. Provavelmente será castigado por isso, aqui na terra ou no fogo do inferno. As religiões são implacáveis com a falta de fé em seus pressupostos. E porque isso? Muito simples, a fé é a coluna de sustentação de todas as religiões, pois tudo aquilo que vai contra a lógica e o bom senso tem que ter um limbo para se justificar e esse limbo chama-se fé. Ali tudo pode ser colocado como verdadeiro e a pessoa não se sente idiota por acreditar, porque está escudado pela fé. Alguém disse que o questionamento não é o demônio nos tentando, é apenas nossa mente querendo nos libertar.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Valentína, a redenção.

Depois de tanto tempo de postagens tristes e depressivas, hoje venho postar a felicidade plena. O ano de 2015 prometeu e tornou-se o mais feliz de minha vida. Em 10 de abril minha filha casou-se com um rapaz maravilhoso, o genro desejado por todas as mães de bom senso. No dia 04 de setembro nasceu a minha neta Valentína Rojková, uma menininha linda e de saúde perfeita. E para coroar, nasceu na cidade que mais amo, num país de contos de fadas. Venho de lá onde fui assistir ao nascimento e voltei morrendo de saudades, mas ao mesmo tempo felicíssima e tranquila com tudo que vi. Minha filha tem um marido amoroso, participativo ao extremo, e, se não bastasse possui duas gatinhas lindas, que completam o que verdadeiramente pode se chamar um lar. Tudo que eu mais desejava no mundo era a felicidade dela. Agora não tenho mais nada a querer, a não ser um resto de vida sereno. Estou muito feliz.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Duas Visões do Mesmo Fato

Um coração falou para um umbigo: "-Acho que você não me ama." O umbigo fez cara de desdém e respondeu: "-Como você é inseguro! acha que não merece ser amado por ninguém." "-Não querido, você não entendeu, o problema não é comigo, eu apenas acho que você não consegue amar ninguém" finalizou o coração, talvez orientado pelo cérebro.

domingo, 12 de julho de 2015

Colheita

Esta é uma lei que nunca aceitei. Até agora. As religiões me convenceram que basta plantar o bem para colher o bem. E eu me desesperava por colher tantos espinhos, uma seara imensa de joio. Não entendia porque vivia tentando seguir a trilha do bem e meus resultados eram quase sempre ruins. Se a lei era tão simples, por que comigo não dava certo? Eu me conheço melhor que ninguém, tenho discernimento para avaliar meus atos. Muitas pessoas corroboravam minha certeza de que meus atos eram bons e até se admiravam quando descobriam certas atitudes minhas. No entanto eu sofria mais do que seria lógico. Até que recentemente descobri que nunca me mostraram o outro lado e minha ignorância não me permitia entender que eu não poderia jamais saber o que é bom, simplesmente porque parecia ser. Entendi que a palavra chave é SABEDORIA. Imaginar que algum comportamento meu daria resultados bons era pura prepotência, pois uma bela embalagem necessariamente não traz um bom conteúdo, o doce que acho delicioso pode matar uma pessoa alérgica, o peso que consigo carregar com facilidade e alegria pode ser demasiado e desagradável para outro. Tomei atitudes que 99% das pessoas acham maravilhosas, mas que se mostraram prejudiciais a todos os envolvidos. Não dei a elas o direito de escolha, porque nunca me passou pela cabeça que haveria desdobramentos desagradáveis. Por isso cheguei à conclusão que é verdade, colhemos o que plantamos, mas isso não significa que tenhamos plantado o mal. As consequências são imprevisíveis, para os bons e maus atos. Só precisamos ter SABEDORIA para às vezes deixar de lado o que parece bom e  acatar o que parece ruim.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Finalmente feliz

Quando eu era criança,  olhava para o futuro e tinha a felicidade como coisa certa. Depois comecei a achar que com boas ações, fé em deus, muita oração e planejamento, com certeza eu a teria. Como me enganei!  Desperdicei quase toda a minha vida nadando contra a maré, certa de que teria uma velhice tranquila ao lado do homem com quem me casei, cercada de filhas, genros e netos. Afinal eu tinha feito tudo certinho, achava que o fim seria uma consequência natural. Mas fui vendo tudo escorrer por entre meus dedos, por mais que eu tentasse não conseguia segurar. Fui perdendo tudo que eu achava essencial para minha felicidade, só restando eu e minha filha, nesse mundo tão grande. Nós duas havíamos nos despido de nossos sonhos e achávamos que agora que ela não acreditava mais e eu já anoitecia, tornava-se impossível qualquer coisa. De uma hora pra outra tudo virou do avesso e as coisas começaram a mudar. Parece que a vida resolveu me dar a experimentar o gosto da felicidade. Minha filha casou-se, me deu um filho como genro e está gestando uma netinha mais do que esperada. Demorei alguns meses para acreditar no que está acontecendo e ainda hoje me pego pensando que é tudo  parte de um sonho, mais uma peça que a vida está me pregando. Meu corpo não me castiga mais com inúmeras dores, nossa pequena família se ama muito, finalmente estou muito feliz. E o gosto dessa felicidade de raspa de tacho é a coisa mais deliciosa do mundo.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Agnóstica ou Ateia?

Teísmo agnóstico é o ponto de vista filosófico, que engloba ambos, o teísmo e o agnosticismo. Um agnóstico teísta acredita na existência de pelo menos uma divindade, mas diz respeito à base desta proposição como "algo desconhecido ou inerentemente incognoscível".
Como cheguei ao agnosticismo: meus pais me levavam à Igreja Presbiteriana ao mesmo tempo que me colocaram num colégio católico. Pelo raciocínio lógico, muito precocemente vi a impossibilidade da existência de papai noel, então logo comecei a questionar os mitos religiosos. Quanto mais crescia e me informava, mais confirmava minhas idéias. Tentei seguir o rebanho e o que encontrei de mais aceitável em determinada época foi o espiritismo. Mas à medida que fazia cursos lá dentro (O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Livro dos Espíritos e Mediunidade), mais percebia incoerências. Com a idade adquiri confiança suficiente para abraçar aquilo em que eu acredito: o teísmo agnóstico. Mas os outros não permitem que eu seja aquilo que acredito. Nunca tentei impor minhas idéias em conversas, prefiro me calar e até aceito convites para rituais religiosos, silencio quando ouço coisas que considero absurdas, comporto-me respeitosamente e da mesma forma aceito participar de orações. Mas a maioria das pessoas não aceita isso e começa a me questionar e tentar impor comportamentos. Tergiverso para não criar atritos, mas elas insistem, até que digo a verdade. Então o mundo cai e chovem acusações, olhares atravessados e até afastamentos. No entanto passo o tempo todo ouvindo as manifestações religiosas alheias e fico calada, respeito o estágio de cada um. Só quero que tentem entender que quando ouço ou leio certas coisas como uma adolescente virgem ser engravidada por um anjo, ou Deus fazer a mulher da costela de um homem, isso me soa tão sem sentido quanto uma criança me dizer que tem um bicho- papão dentro do guarda- roupas. Sou má por causa disso? Sou louca? Só quero e exijo que respeitem a minha crença.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Pequi

Sou absolutamente apaixonada por pequi, um fruto do cerrado. Quando encontro, como em quantidades absurdas, puro, com arroz, com frango...Meu prazer é visível e minha habilidade em roê-los é admirada, pois para quem não sabe, cada caroço contém grande quantidade de espinhos logo depois da polpa, que são extremamente dolorosos. Uma amiga fez um vídeo enquanto eu comia. Achei engraçado e posto aqui para quem quiser ver.https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=641465022633906&id=100003112427718. Rsrsrsrsrsrs...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Meu Filho

Se eu tivesse um filho, ele seria muito amado por todas as mulheres de sua vida. Até pela sogra ele seria. Porque desde pequenino eu ensinaria a ele a honra de nascer, ser educado, criado e amado por essas criaturas angelicais, repletas de abnegação, ternura e altruísmo. Eu o ensinaria que embora donas de uma força descomunal elas são frágeis. Eu o ensinaria a protegê-las e amá-las muito, a estar atento a seus sofrimentos físicos e emocionais, a tratar suas feridas e fraquezas com carinho e compreensão. Eu o ensinaria a respeitá-las acima de tudo e lhe diria que nunca, nem mesmo a mulher mais degradada socialmente, poderia ser  chamasse de louca, de idiota, ser mandada calar a boca com grosseria e olhos de inimigo raivoso. Se eu tivesse um filho ele seria o homem mais feliz do mundo, porque mulheres são assim; dão muito quando pouco recebem e dão o paraíso a quem as ama de verdade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Fobia de Vestido de Noiva

Diz a lenda que toda menina ou moça sonha em casar-se vestida de noiva. Não eu. Na minha época e no meu meio era obrigatório, o que me levou a pensar seriamente em ficar solteira para sempre, só para evitar o ritual do casamento religioso. Pensar em entrar numa igreja cheia, com todos os olhares voltados para mim, de sapato de salto, vestido comprido, fantasiada, causava-me pesadelos. Tinha certeza absoluta que ia tropeçar no salto, me enroscar na barra do vestido, cair estatelada no centro da passarela e ainda quebrar o nariz. Transpirava só em pensar. Não sei se já contei aqui, mas meu falecido marido me pediu em casamento sem que fôssemos namorados. Antes de considerar o inusitado da situação, perguntei logo se ele fazia questão de casamento religioso. Ele disse que pelo contrário, achava a situação estressante e ficaria feliz em casar só no civil. Nessa hora eu tirei milhares de anos de peso das costas e disse sim.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quem nunca?

Quem nunca foi levado pelo orgulho ou por qualquer outro pecado? Isso acontece sempre, mas às vezes tentamos resistir e certas pessoas nos levam ao nosso limite. Há anos tinha um amigo virtual estrangeiro, que me chamava regularmente no chat, mandava emails, no geral era simpático, mas tinha um hábito intrigante. Em nossas conversas ele sempre inseria comentários tais como: "-Hoje comi um peixe delicioso com batatas. Batatas são tubérculos que crescem sob a terra e são usados de diversas formas na culinária." Eu respondia educadamente: "-Gosto muito de batatas, principalmente como purê." Daí a pouco vinha outra explicação esquisita, sobre alguma coisa corriqueira. E eu respondia de forma que ele parasse de me explicar o óbvio, mas não adiantava. Um belo dia ele me disse que ia enviar umas fotos muito interessantes. E eis que chegou um email com cinco fotos. Podem adivinhar que fotos eram essas? Foto 1, vista geral de um banheiro. Foto 2, close da pia. Foto 3, close da ducha. Foto 4, close do porta-xampu. Foto 5, close do vaso sanitário. Entenderam? nem eu, até que li as explicações: "-Amiga, este é um lugar que temos aqui e serve para nossa higiene. Na foto 2 temos um recipiente que usamos para lavar o rosto, as mãos e escovar os dentes. A foto 3 mostra o lugar de onde sai a água para lavar o  corpo. A foto 4 mostra o lugar onde colocamos os ítens necessários para fazer isso. Finalmente a foto 5 mostra o lugar onde fazemos nossas necessidades básicas. Espero que tenha gostado." Gente, não resisti, nesse momento tive a certeza absoluta que ele achava que éramos mega sub-desenvolvidos. Me subiu uma raiva tão grande, que mesmo cometendo diversos pecados de uma só vez, respondi: "Caro amigo, achei muito interessante que você quisesse me mostrar o seu banheiro, por sinal muito bonito, embora bem mais simples dos que estamos acostumados por aqui. Só me causou estranheza o fato de que você não tenha nenhuma banheira simples ou de hidromassagem, porque em todos os cinco (número escolhido ao acaso)  banheiros que tenho em minha casa não dispenso  a ducha e uma banheira." Dessa vez ele entendeu e me excluiu. Rsrsrsrs...

terça-feira, 27 de maio de 2014

Meu maior mico

Sem dúvida sempre me meto em situações inusitadas, mas a que mais me assombra envolve o inseto do qual tenho um nojo absurdo, incontrolável. Claro que já sabem que é a cascuda, a maldita barata. Então foi assim: uma conhecida teve a infeliz idéia de me convidar para seu almoço de aniversário. Montou uma mesa bem comprida na varanda para que todos os convidados se sentassem juntos. Sobre a mesa diversos frangos recheados com farofa, arroz e maionese. Como se não bastasse a minha presença de risco, ainda colocaram ao meu lado uma criança atenta e sem papas na língua. Deu no que deu. Começamos todos a comer e lá pela terceira garfada, quando fui comer a farofa, eis que pego uma barata morta, que veio para mim na mesma posição dessa da foto, com as perninhas para cima. Tentei segurar, mas só consegui virar de lado e vomitar. Enquanto isso, com meu cérebro funcionando a mil, eu tentava arranjar uma desculpa para meu gesto, se é que havia, para não acabar de vez com o almoço. Antes que conseguisse me recompor a garotinha olhou no meu prato, pegou o garfo e falou bem alto: "-Olha! tem uma barata morta dentro da farofa dela!". Aí a coisa ficou feia. Era gente vomitando e cuspindo pra todo lado, eu tentei me desculpar mas não conseguia parar de fazer vômito, saí correndo de lá e até hoje não sei no que deu. Mas morro de vergonha e de pena da aniversariante, coitada!

sábado, 22 de março de 2014

Sem Saída

Apesar da dificuldade da caminhada ela jamais abandonou sua mala de sonhos. Ali ela carregava a lua cheia que olharia abraçada com seu amado tomando taças de vinho, o maravilhoso por-do-sol que veriam sentados num banco na praia; trazia a música que dançariam colados por noites inteiras. Trazia a cama onde curiosos explorariam o corpo do outro como numa aula de anatomia. Trazia também muitas delicadezas, como flores, palavras gentis, gestos de carinho, de compreensão, algumas lágrimas compartilhadas, de alegria ou de dor.Os sonhos iam se acumulando e com o tempo foram ficando muito pesados. Mas ela acreditava sinceramente que um dia  encontraria alguém e então eles seriam todos usados. E enquanto uns fossem usados e outros criados, seriam duas mãos a carregá-los. Caminhou vergada com seu peso por muitos quilômetros e quando estava no fim de sua jornada, viu-se de repente com a mala de sonhos na mão direita, e, algemada à sua mão esquerda uma criança mimada, egoísta e grosseira. Os sonhos não eram grilhões, pois eram doces. Ela olhou para o pouco caminho que restava e percebeu dolorosamente que não conseguiria chegar carregando os dois pesos; um estava preso a seu pulso e o outro tornava-se inútil pois não havia mais tempo para realizá-los e eles já estavam morrendo. Abandonou a mala com tantos sonhos sem uso e seguiu em frente desesperançada, ouvindo e sentindo os destemperos da criança e torcendo para chegar logo ao seu destino. Ah! havia também uma sacola de esperança, mas essa já estava vazia, porque é a esperança que alimenta os sonhos.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Mudança de Rota

Um dos maiores prazeres de minha vida era a leitura. Um dia eu não queria mais ler, por mais que  tentasse. Respeito demais meus instintos e resolvi dar um tempo e esperar até entender. Não demorou muito e a resposta aflorou. Percebi que eu tinha cansado de teorizar, viver vidas falsas através dos livros e não me interessava mais pesquisar mistérios insondáveis, não queria mais saber o que veio antes de mim e o que virá depois, não estou nem aí para quem vai ser o novo chefe da banda, como já disse alguém. Também não vou mais me preocupar se não sei o nome desse alguém. Não tenho mais tempo a perder e vou optar pelo que me faz feliz, pela simplicidade das coisas, pelo que eu quero e não o que esperam de mim (será que esperam mesmo ou fui eu que criei falsas expectativas?). Bom, agora isso não mais importa. Estou trocando um livro por um chopp numa mesa de calçada, papos cabeça por um monte de gargalhadas com os amigos. Livros são maravilhosos, vasto campo de conhecimento. Mas chega um dia em que não é tão importante nem seremos menos felizes se não soubermos quem foi Kant, Freud ou Spinosa. Finalmente chegou meu dia de libertação.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pesadelos

De uns anos para cá passei a ter pesadelos terríveis, inimagináveis. Muitas vezes tenho medo de dormir e quando eles vêm acordo aos gritos e em pranto. Eles me assustam muito porque não são como os que eu tinha antes, ocorrem como se eu estivesse acordada, porque sei onde estou, "vejo" o meu quarto, todos os objetos, até olho as horas. Então fica mais difícil distanciá-los de minha vida real. No início desta semana sonhei que acordei de manhã (e era realmente de manhã), me aproximei da cortina para abri-la quando percebi um vulto de mulher atrás do voile, do lado de fora. Fiquei muito assustada porque morando no quinto andar de um prédio, não poderia haver alguém flutuando ali. Sentei na cadeira ao lado da cortina, abaixei a cabeça e  com o canto dos olhos vi que a pessoa passou para dentro. Amedrontada olhei de relance e reconheci as pernas e as mãos de minha filha. Nisso ela estendeu a mão e disse: -Não fuja de mim mãezinha, eu vim ver a senhora! Imediatamente peguei na sua mão e aconteceu o seguinte diálogo: -Filha, foi acidente? -Foi mamãe. -Você não sobreviveu, não é mesmo? -Não mamãe. Comecei a chorar desesperadamente e não queria soltá-la, com medo que desaparecesse. Então ela me disse que não chorasse, porque ela estava feliz, finalmente estaríamos juntas para sempre e nada mais poderia nos separar. Ainda não consegui superar, até hoje choro, porque acho que esse pesadelo atingiu o maior dos meus medos.

sábado, 12 de outubro de 2013

Minha Avó Me Contou

Vó Amélia me contou que era uma moça muito protegida e quando chegou a época de se casar, um dia  soube que um pretendente viria falar com seu pai. Curiosa para saber da aparência do rapaz, ela conseguiu vê-lo às escondidas e todos seus sonhos ruíram: era extremamente magro e pálido, com uma barba enorme. Enquanto os preparativos para o casamento evoluíam ela manteve-se em tristeza e letargia, certa de que não conseguiria amar aquela pessoa. Torcia para que acontecesse alguma coisa que impedisse o "sacrifício", porque desobedecer ao pai estava fora de questão. Quando chegou o dia do casamento ela deixou-se arrumar, sem a mínima alegria. Caminhou para o altar e quando olhou para o noivo achou que tinha sido trocado; ali estava um belo rapaz, forte e corado, sem pelos no rosto e com um belo sorriso estampado. Do inferno ela ascendeu ao paraíso e amou-o instantâneamente. Depois da cerimônia, quando finalmente puderam ficar a sós, ele contou que planejara vir acertar o casamento bem antes, mas fora acometido de uma malária severa que quase lhe tirara a vida. Tão logo conseguiu ficar de pé insistiu em formalizar o compromisso para não perder mais tempo, daí o estado depauperado que ela viu. Do noivado ao casamento recuperou-se totalmente e era o homem que ela tinha diante de si. Viveram juntos por longuíssimos anos até que a morte a levou antes dele.

domingo, 14 de julho de 2013

Fogo e Gelo

O mar ruge impaciente e atira-se contra a terra, com os olhos cativados pela lava quente, cigana dançarina, vestida de amarelo e vermelho. Ela encolhe-se temerosa, embora atraída pelas promessas espumantes que ele pousa na areia. Mas eu não devo, diz a lava, agora que conheci a beleza da força, não posso me deixar destruir por sua alma gelada. Não, diz ele, o seu amor me fará morno e calmo, então seremos felizes. Insensata ela precipitou-se ao encontro dele e pelo instante de um beijo, foi absurdamente feliz. De repente o mar a cobriu inteira num abraço sufocante e gélido. Impotente ela sentiu seu calor sair pela boca, transformado em vapor, enquanto perdia seus belos tons coloridos. Novamente tornou-se pedra.
Nesse momento ele olhou para ela decepcionado e disse que não a queria mais, porque ela tinha se transformado numa coisa escura e fria.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Eu não creio.




Eu não creio em Jesus Cristo, nem na Virgem Maria, nem nos Santos canonizados. Acho totalmente irracional que não acreditem em Papai Noel e que Branca de Neve não faça milagres, seguindo o princípio de que a fé deve ser cega e inquestionável. Mas tenho muito medo de dizer isso, porque sei que o ódio dos crentes pode matar. Eu não conheço esse sentimento, mas já vi seus efeitos. Não acredito no paraíso, mas não consigo em sã consciência fazer mal ao meu próximo. Sempre que posso ajudo quem necessita e  amo pessoas e animais. Mas meu comportamento não tem a mínima importância para os fanáticos, diante do fato de eu não acreditar naquilo que tentam me impingir. Para muitos deles, isso automaticamente me faz uma criatura maligna, comandada por Satanás e se afastam de mim, porque eu deveria ser uma ovelha ou uma escrava. Não importa, mesmo assim continuarei a fazer o bem, a seguir meus bons princípios, a ter uma alma sensível e carinhosa. O amor é e sempre será meu guia.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Coisas dos Costa Vale

Minha mãe viúva, mora ao lado do irmão e cunhada, que por sua vez moram em frente à casa da filha. Minha prima mora com o marido e os dois filhos, um menino e uma menina. Meses atrás, um ladrão perseguido pela polícia, saiu pulando pelos quintais e deu o azar de entrar no quintal de minha mãe e seus cachorros, inclusive uma pitt bull. Atacado com fúria, resolveu pular para o quintal de meu tio. Machucou-se mais ao atravessar o arame farpado sobre o muro e no desespero caiu em cima de uns objetos de ferro que estavam num canto. Aí então estava todo ensanguentado e desorientado. Subiu no telhado e caiu na calçada, já com minha mãe e meu tio no encalço do meliante. Estendido no chão, ao ver os dois perseguidores enfurecidos, identificou-se como filho de uma conhecida deles. Nisso o marido de minha prima acordou ouvindo a voz do filho vinda da rua. Note-se que isso aconteceu de madrugada. Preocupado saiu para a varanda e viu o quadro; meu tio, minha mãe, um rapaz ensanguentado e a criança ao lado dando palpites. Assustado gritou para que ele voltasse para casa, ao que tranquilamente respondeu: "-Não se preocupe papai, é apenas um ladrão e é amigo de vovô e tia Geralda!".

terça-feira, 5 de março de 2013

Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Árvore Antiga

Nós somos como árvores. Quando jovens nosso tronco é resistente, maleável, sadio e estamos ainda sujeitos a mudanças. Por isso nossas raízes são ocultas e mais rasas. Com o crescimento e a altura, essas raízes se aprofundam para que qualquer tempestade não nos derrube. Aí começa a nossa ligação mais intensa com nosso solo. Quanto mais velhos ficamos, sabemos que nosso tronco se enfraquece, estamos mais sujeitos ao ataque de pragas, então temos necessidade de criar mais liames, de lançar mais âncoras e então lançamos mais raízes que agora saem de todo nosso corpo. Até aceitamos algumas trepadeiras, que embora se alimentem de nossa seiva, nos mantêm mais firmes. Mas aí teremos perdido nossa liberdade, não podemos mais ser transmutados. Impossível agora cortar tantos laços e sobreviver.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Procura de Conhecimento

Nasci com uma gana absurda de conhecimento. Tanto que aos tres anos eu já sabia ler e escrever, enquanto não sabia ainda falar muito bem. Minha tia Neves conta que se divertia mandando que eu lesse textos com palavras que eu ainda não conseguia pronunciar bem. Mas quando eu chegava nas palavras "pegadinha", lia, olhava para ela sériamente e dizia: "Eu sei que não falei certo." A minha sede por leitura era tão grande, que minha mãe ficava irritada, porque eu preferia ler a brincar e muitas vezes me escondia no quintal ou atrás da casa com pedaços de jornal, folhas de revista, que às vezes só traziam propagandas, mas que eu recolhia do chão e escondia como tesouros, para ler assim que estivesse sozinha. Tio Moacir era meu companheiro predileto, porque tinha paixão por livros e passávamos horas naquele quarto abarrotado, sem trocar uma palavra, cada um perdido no seu mundo particular. Muitas vezes minha avó Amélia percebia que já estávamos quase lendo no escuro, vinha e silenciosamente acendia a luz. Para nós naquelas horas, não havia sede nem fome, nos alimentávamos de leitura. No colégio eu acredito que li todos os livros da biblioteca. Depois eu lia os livros das bibliotecas públicas. Aí comecei a comprar livros e quando eles se espalhavam por todos os cômodos da casa, eu doava, deixando apenas os chamados livros de cabeceira", que no meu caso não há cabeceira que caiba tantos. Por que estou contando isso? Porque um dia, muito recentemente, percebi que a leitura trouxe incontáveis ganhos e muito prazer, mas enfiada de cabeça nessa paixão me afastei muito do mundo real. Agora quero entrar de cabeça na vida e colocar em prática o que aprendi. Não seria inteligente passar a vida estudando e nunca entrar de férias.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sem Noção

Eu sou uma tonta. Mexe e vira apronto uma. Nunca acreditei em loterias, mas últimamente ando experimentando novos comportamentos. Na véspera de Natal passei na lotérica do shopping e peguei um monte de cartelas, de jogos variados, para fazer em casa. Cheguei, me coloquei à vontade, li as regras atrás e comecei a marcar. Primeiro pensamento insensato:" afinal isso é apenas um jogo e deve ser baratíssimo. Porque marcar apenas o mínimo e perder a chance de ganhar?" Peguei todas as cartelas e marquei o máximo de números possíveis em cada uma e fui feliz fazer os jogos. Primeiro obstáculo, uma fila quilométrica, o que achei perfeito, porque tinha mais chance de puxar conversa com as simpáticas pessoas que ali estavam. Conversa vai, conversa vem, chega minha vez. E a fila atrás cada vez maior. Dei os jogos para a moça e achei que ela me olhou estranho. Mas tudo bem, ela talvez me conhecesse de outro lugar. E tome a fazer cálculos e me olhar esquisito. Quando terminou, perguntou se eu tinha certeza que queria jogar aquilo. "-Claro, meu bem! Se estou aqui na fila!" falei já abrindo a carteira e tirando vinte reais. E ela: "-Tem certeza?". A fila crescendo e eu: "-Não estou entendendo, quanto tenho que pagar?". Aí veio a bomba; vinte e quatro mil e não sei quantos reais. Fecha o pano para minha carreira e a risada da moça do caixa. Nunca mais me meto no que não entendo. É o que sempre digo até a próxima bobagem.

Cumplicidade

Por trinta e seis anos fui casada com um homem que não conhecia o sentimento de lealdade e de comprometimento. Essas características que são fortes em mim e que eu cultivo por toda vida, para ele significavam nada. Os "amigos" sempre estavam em primeiro lugar, mesmo aqueles que tentavam me seduzir pelas costas dele. As mulheres fúteis tinham mais importância. Não me defendia, não me apoiava, não me incluía. Eu vivia para a família e não podia contar com o companheiro com quem eu planejava envelhecer. Só para exemplificar, quando morávamos em Cuiabá/MT, ele viajou para Brasília dizendo que era a serviço, eu arrumei a sua mala como sempre, porque ele não sabia combinar nada com nada, beijei-o e desejei boa sorte. Alguns anos mais tarde um amigo dele fez questão de me contar, com um sorriso de superioridade, que ele tinha viajado para ser padrinho de casamento dele e com outra mulher. Eu não havia sido nem mesmo comunicada. Muitas dessas aconteceram enquanto eu ficava em casa. Curioso é que ele sempre me dizia que os amigos eram "irmãos", no entanto quando surgiam as dificuldades era sempre eu a estar por perto. Quando foi acometido de um tumor no cérebro e ficou inválido por seis anos, os "irmãos" e as "amigas" desapareceram e eu fiquei sozinha com toda a responsabilidade nas costas. Ninguém apareceu para trocar-lhe uma fralda, eu fazia tudo pessoalmente, com carinho e desvelo. Hoje sei que mereço o mesmo tratamento que dou e nunca mais aceitarei alguém que não pense e aja como eu.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Serena

Há tempos não sou mais feliz. Fui por alguns meses, quando achei ter encontrado a pessoa certa. Tristemente fui percebendo o esmaecimento de tudo. Um dia sumiu isso, no outro aquilo, eu sabia que era questão de tempo (e pouco)  em que tudo desapareceria. Aguardei o fim, torcendo para que a situação se revertesse e nós tivéssemos a chance de construir um futuro juntos. Mas a cada dia ficava mais óbvio que falávamos e sentíamos diferente, não havia a menor possibilidade de comunhão. Como diz determinado livro, ele era de Marte e eu de Vênus. Depois que vi isso com clareza, apenas aguardei. Nesses dias de espera voltei-me para mim, preparando o novo luto para que não fosse traumático e que eu estivesse pronta para a possibilidade de viver só quando acontecesse o desfecho. Consegui. Hoje não posso dizer que sou feliz, porque acho que só o somos aos pares. Mas estou absolutamente serena.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mulher Feliz

O que faz uma mulher feliz? Falo daquela que desce uma escada quase bailando, que tem sempre um brilho de malícia nos olhos, que ri por qualquer bobagem, que cantarola enquanto realiza coisas simples e corriqueiras. Que acorda radiante, com todas as possibilidades de um novo dia. Para isso essa mulher precisa de um amor, é ponto obrigatório. Alguém para andar de mãos dadas,  para trocar palavras e toques maliciosos, que ame seu gosto e seu cheiro, que não consiga ficar um dia sem vê-la ou ouvir sua voz. Que o sexo seja constante, que ele goste de tocá-la e beijar na boca. Que saiba que é amada ao ponto dele considerá-la a mulher mais bela do mundo. Uma mulher pode ser serena, tranquila, alegre, pelas mais diversas razões. Mas para ser feliz, feliz de verdade, precisa do homem certo. Então todos à sua volta perceberão o seu brilho.

domingo, 19 de agosto de 2012

Procriação

Você já reparou que a cada dia aumenta o número de mães e avós que cuidam sozinhas de suas crianças sem a assistência paterna? Por que os homens fazem filhos a torto e a direito e não assumem suas responsabilidades? Por que as mulheres aceitam isso e continuam fazendo filhos como se fossem animais que entram no cio, cruzam e emprenham?  Houve um tempo em que o homem tinha consciência de que era o provedor da família, que era exemplo para seus filhos e tinha vergonha de não ser capaz disso. Um homem que deixava sua família passar necessidades não merecia o respeito da sociedade. Com a dissolução dos costumes, regredimos um passo na evolução, passamos a um estágio puramente animal, anterior ao homem das cavernas. Agora somos apenas instinto; o homem em geral age apenas no sentido de espalhar a sua "semente", mostrar sua masculinidade através da barriga de uma mulher prenhe, já que ainda não pode sair por aí mostrando seu membro ereto e fazendo sexo no meio da rua. Já a mulher faz sexo sem critério pensando que sexo e gravidez lhe trarão amor e proteção. Mas o que acontece no final dessa fornicação generalizada? Os homens já não têm o dever de conviver com os filhos, que não foram gerados dentro de uma relação estável e amorosa. O amor que decorreria dessa situação é fraco ou inexistente, porque ele não acompanhou a gestação com seus problemas e suas alegrias, não ajudou a cuidar da criança, não trocou fraldas nem saiu correndo à noite atrás de um médico ou uma farmácia, não viu o primeiro sorriso nem ouviu a primeira palavra. Não amparou nos seus primeiros passos, não participou de suas brincadeiras, não a consolou nas primeiras decepções, não vibrou com suas primeiras vitórias. Então assim fica fácil virar as costas e partir. Por que as mulheres e as avós cuidam desse exército de crianças sem pai? Por causa do instinto maternal que nasce com elas e difícilmente as abandona, mesmo que tenham perdido o bom senso, o respeito e a inteligência.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Tempo

Indiscutível. O tempo resolve todas as questões. Tudo que parece insolúvel, toda dor desesperada, toda falta de perspectiva, toda vida destroçada. Nada permanece intocado na passagem do tempo, nem mesmo o maior sofrimento. Por isso confie e espere por aquilo que parece impossível. Um dia eu estava presa no fundo de um poço, com uma pedra enorme impedindo a saída. Não via nenhuma luz, as paredes eram totalmente lisas e escorregadias, não tinha mais forças nem tinha armas para lutar e desisti. Encolhida em um canto esperei a morte e ansiei por sua vinda. De repente uma força descomunal retirou a pedra da entrada e a mim de dentro da prisão. Pelo tempo necessário para me recompor, permaneci parada, apenas admirando a beleza do mundo, de cores tão belas e vívidas como eu sequer imaginava. De início não acreditava no milagre e temia ser atirada de volta a qualquer momento. Mas o tempo passou,  me levantei, descobri uma força interior maior do que que antes e não temo mais os  buracos. Aprendi bastante para saber evitá-los. E o mais importante, readquiri a fé.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Distraída


Meu marido e eu fomos convidados a jogar cartas na casa de um casal de amigos. Tenho o hábito de tirar os sapatos disfarçadamente, todas as vezes que me sento ao redor de uma mesa. Quando vou me levantar volto a calçá-los sem que ninguém perceba, sem usar as mãos. Com meu marido à esquerda e o dono da casa à minha direita, começamos o jogo. Tudo corria muito bem, até que no final as coisas começaram a ficar esquisitas. Em primeiro lugar, eu não conseguia localizar o sapato da direita. Fui tateando com o pé e não encontrava o fugitivo. Finalmente achei! Mas ele parecia estar virado para baixo, porque era impossível calçá-lo. Usava os dedos dos pé tentando desvirá-lo, mas ele parecia colado ao chão. Eu já estava quase ofegante, quando percebi um silêncio constrangedor. Meu marido me olhava assustado, a dona da casa parecia querer me matar com os olhos e o pobre do marido tinha uma expressão desesperada. Quando vi para onde ele olhava, juro que me mataria se houvesse alguma arma disponível; a mesa era de vidro(eu não havia notado esse pequeno detalhe), meu outro sapato estava embaixo da cadeira. E eu, simplesmente estava com o pé descalço em cima do sapato do pobre coitado, fazendo movimentos em todos os sentidos. Tentei explicar, mas ...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

LIMITES

Ela me falou que a cada vez que tenta se aproximar ele a afasta bruscamente e a faz recuar. Na sua espontaneidade meio infantil ela tem medo de voltar a ultrapassar aquele limite, então constrói ali uma cerca de arame, para poder se lembrar. E tenta outra abordagem, mais uma cerca de arame. Atualmente já existem dez cercas entre os dois e ela me confidenciou tristemente, que no início olhava-o nos olhos, depois teve que esticar o pescoço; agora, já tem que ficar na ponta dos pés para vê-lo. Tem medo que um dia não consiga enxergá-lo mais, tamanha a distância. Ou que, de tanto andar de costas, um dia caia nos braços de alguém mais desarmado.

                                                                                                                              

terça-feira, 8 de maio de 2012

Momento de Tristeza

Hoje fiquei triste. Quando acordei, me lembrei que quando meu marido estava internado no hospital psiquiátrico, acontecia de às vezes ele ficar calmo logo de manhã, então pedia ao enfermeiro para telefonar para mim. Eu atendia e ele começava me dizendo que estava no aeroporto, que tomaria um taxi e logo chegaria em casa. Eu perguntava de onde ele vinha e ele sempre dizia Brasília ou Cuiabá. Aí começava a contar dos amigos que tinha encontrado, das coisas que tinha feito, ia se perdendo cada vez mais em suas fantasias, de repente se calava e soltava o telefone. Voltava para um mundo onde eu não existia.

domingo, 29 de abril de 2012

Prisioneira

-Cala a boca, menina! Você não pode sair falando tudo que pensa.
-Pára de chorar! Só se chora escondido. Lágrimas incomodam as pessoas.
-O que é isso? Controle-se. Você não pode fazer o que tem vontade.
A menina torna-se mulher, uma mulher amordaçada, manietada. Não sabe se pode dizer "eu te amo", se pode perguntar quando tem dúvida, se pode brigar quando se irrita.
Reprime as lágrimas de dor, para que não explodam em uivos dilacerantes e incomodem alguém.
Aperta com força as mãos e os lábios, para não correr o risco de abraçar ou beijar aqueles que ama.
O seu exterior transforma-se em estátua, totalmente paralisada. Mas se um desavisado olhar nos seus olhos, verá lá dentro uma criança aprisionada, com as mãos dilaceradas de tanto arranhar a própria casca.

quinta-feira, 29 de março de 2012

PAZ

Sempre fui muito ligada à natureza, principalmente a três elementos: água, pedra e árvore. O contato com eles e algum tempo de solidão reativam todos os meus instintos, que por sua vez me conduzem à razão, à clareza de visão, à compreensão dos fatos. Eu preciso disso, ou não sobrevivo. Senti que já havia passado tempo demais no asfalto e cimento, perdida em meus pesares e parti sózinha para um lugar chamado Chapada dos Veadeiros, na cidade adequadamente chamada Alto Paraíso, no estado de Goiás. Durante uma semana convivi com pássaros, flores, animais silvestres, pedras, árvores, rios e cachoeiras. E um céu que ao amanhecer e entardecer enchia-se de pinceladas das mais belas e variadas cores. Durante a noite havia vagalumes, uma sinfonia de sapos e grilos, e milhões de estrelas visíveis. E a pureza do ar, o cheiro de mato?
Enquanto tirava o máximo do meu corpo em longas e ásperas caminhadas, ou simplesmente me deixava ficar quieta apenas pensando e sentindo, eu repensava minha vida e os últimos acontecimentos. Retornei ao útero da Mãe Natureza, renasci feliz e serena.





sexta-feira, 2 de março de 2012

Zumbis

Pronto, desfeito o mistério. Já sei por que não posso me expor sem que me arranquem um pedaço do coração. Estou cercada de zumbis, pessoas que já não pensam, não sentem, não vivem mais. Ao contrário do que eu pensava, EU ESTOU VIVA. Agora entendo porque me detectam tão rápido e passam imediatamente ao ataque; sou carne fresca, não há nada de errado comigo. Já sei como agir daqui por diante; agir como nos filmes, que são uma metáfora do que acontece na realidade. Devo em primeiro lugar, ficar escondida e não fazer barulho; quando tiver que sair, não falar nada que faça sentido, apenas grunhir; apagar o brilho dos olhos e o sorriso; não ajudar ninguém que cair; andar aparentemente sem destino. Isso até que eu consiga localizar alguém igual a mim, mesmo que para isso eu tenha que viajar para outros lugares ou outros países. Agora que descobri o segredo, tudo fica mais fácil. Ser vivo, pensante e verdadeiro é muito perigoso, eles sentem o cheiro de sangue e atacam.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mundo Incompreensível

O que acontece com as pessoas? Quando tenho dúvidas, pergunto, não julgo. Talvez porque como diz o ditado, as pessoas julgam de acordo com o próprio comportamento. Dias atrás, recebi troco a mais e como é normal, ou deveria, voltei à caixa e disse que havia um erro. A moça perdeu o sorriso, ficou agressiva e disse que ela jamais errava. Quando eu disse a ela que dessa vez ela havia se enganado e que eu havia recebido dez reais a mais, ela nem mesmo me pediu desculpas ou agradeceu. Recentemente, cansada dos sofrimentos ocasionados por determinada rede social, fechei a minha página. Pensam que ficou por isso? Tenho recebido emails de pessoas ofendidas, porque eu as teria bloqueado. Quando tentam entrar e não conseguem, não pensam que eu preferi me retirar, nem mesmo aventam a hipótese de meu sofrimento, ninguém me pergunta o que aconteceu, se estou bem. Tratam de juntar suas pedras e atirar. Que desesperança, que tristeza! O que fazer para receber na mesma moeda com que pago?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

DESCRENÇA



Nesse momento eu adoraria e esperava escrever coisas alegres e agradáveis. Mas infelizmente mais uma vez estou doente de tristeza e descrença. Eu devo ser anormal, Eu não entendo o mundo. As pessoas perderam o altruísmo, o respeito pelos outros e nem sabem mais distinguir a pedra falsa da genuína. Antes de morrer, meu marido me disse que gostaria de poder voltar no tempo e mudar o seu comportamento, porque tinha vivido tanto tempo com um diamante pensando que era vidro. O fato é que hoje, a maioria das pessoas anda tão entorpecida, que não entende a autenticidade, a integridade de caráter, a lealdade, a pureza de intenções. Só falam e entendem a linguagem do rancor, da mentira, do que é pequeno. Quem é diferente vai sendo e se sentido excluído do mundo, porque não encontra reciprocidade. E paradoxalmente nunca se falou tanto em Deus e Jesus. Mas onde escondem o "amai-vos uns aos outros" se não amam nem a si mesmos?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Verdade Nua e Crua


Faço questão de contar que sou desequilibrada mental e como o sou. Não tenho nada a perder. Ainda tenho um rasgo de esperança de que eu possa me curar. Enfim, sou a contradição em pessoa. Muito inteligente, tive um desenvolvimento intelectual significativo. Mas emocionalmente eu parei na primeira infância. Sou uma mulher madura, com um coração de criancinha. Às vezes chupo o dedo, às vezes durmo com o bumbum pra cima, quando sofro fico em posição fetal. Me envergonho disso, porque soa ridículo para uma mulher da minha idade, mas não escolhi isso. Daí ter como amigas apenas algumas mulheres especiais que "enxergam" a criança. A maioria vê uma mulher bonita, inteligente, relativamente culta, sensual, enfim, alguém de quem é melhor manter distância e não convidar para suas casas. Ainda mais depois que fiquei sózinha. Mal sabem elas que eu jamais me aproximaria de seus maridos, porque tenho um rígido código de ética. Animais e crianças gostam muito de mim. Agora os homens. Ah, os homens!!! A garotinha tem medo do mundo, tem medo até de caixas eletrônicos, não dirige, não viaja sózinha, se sente perdida sem alguém que a proteja. Mas eles só querem a mulher sensual, exuberante, brincalhona. Só querem o bônus. Ninguém quer lidar, nem mesmo crer, que existe a criança. Que não sabe brigar nem gritar nem agredir, que reage às grosserias e às incompreensões apenas chorando. Vivo tentando curar os "dodóis" dos outros, mas não posso mostrar os meus. Não sei mentir nem dissimular; quando alguma coisa me incomoda, falo claramente. Quando não entendo pergunto por que. Na minha cabeça isso esclareceria as coisas e evitaria brigas, mas não é o que acontece. Os homens ficam nervosos e me dizem que vivo procurando confusão, quando pergunto por exemplo, porque foi viajar e não me convidou. Bastaria me dizer qualquer coisa que eu aceitaria, sem discussões, só não gosto de ficar criando monstros inexistentes na minha imaginação, pensando que vou ser abandonada a qualquer momento, sem explicação. Como as criancinhas para quem as mães explicam que têm que sair para trabalhar, mas que depois voltam. É só isso que espero. Embora seja generosa, compreensiva, carinhosa, os homens que encontrei não estavam dispostos a me entender e me ajudar a crescer. Faço análise, mas é um processo lento de cura e com a ajuda de alguém que entendesse que adoro sentar no colo não por sensualidade mas por carência, certamente seria bem mais rápido. Minha analista diz que só um homem maduro e sereno poderia me ajudar. Mas não tenho esperanças, seria como encontrar agulha em um palheiro e é improvável que eu e esse homem especial nos encontremos um dia. E o tempo passa tão rápido...

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Santo Remédio


Eu tenho uma amiga que viveu o inferno. E o que é pior, sózinha, escondendo dos outros, chorando em casa e sorrindo em público. Criou um mundo fictício, onde tudo era perfeito. Um dia começou a notar que estava indo muito ao banheiro fazer xixi. Achou que fosse temporário e esperou, pois seus outros problemas eram muito maiores. Mas essa frequência foi aumentando e nela havia tanta urgência, que se minha amiga não fosse ao banheiro imediatamente, faria nas roupas. Começou a anotar a diminuição de espaço entre as micções e elas chegavam ao máximo de uma hora de intervalo; o normal era de meia em meia hora, ininterruptamente, dia e noite. Ela já não conseguia dormir direito, já não saia para lugares que ficassem a mais de quinze minutos de casa, não ia ao cinema, ao teatro, nem mesmo à casa de amigos pela vergonha de ficar indo ao banheiro todo o tempo. Muitas vezes passava a noite deitada no chão do banheiro, pois era mais fácil. A maior parte dessas noites chorando, porque além de todos os demais sofrimentos, já havia passado por um batalhão de médicos, feito todos os tipos de exames possíveis e nada era detectado; e todos a dispensavam dizendo que ela não tinha nada e ninguém a orientou para que procurasse um psiquiatra ou psicólogo, nem ela conseguia fazer essa associação. Um dia um urologista recitou um remédio para dormir, esperando que com isso ela tivesse pelo menos algum tempo a mais de sono. Resultou que a situação ficou pior, pois aumentou o sono e não diminuiu a necessidade de ir ao banheiro. Numa noite de desespero, ela pegou um antidepressivo/ansiolítico do marido, um desses mais conhecidos no mercado e tomou. Isso foi pouco depois da meia noite. Foi ficando com sono e resolveu arriscar ir para a cama. Quando acordou, eram mais de seis horas da manhã. Foi invadida por uma euforia tão grande que correu para o médico e explicou o acontecido. Ele deu-lhe uma receita e como milagre o problema se resolveu, depois de mais de dez anos. Ela continua tomando o remédio, porque quando interrompe, tudo volta. E por duas vezes já passou por uma situação delicada. Quando o marido ultrapassava os limites usuais de sadismo, sem perceber ela fazia xixi involuntáriamente, mesmo que estivesse em público. Agora que o casamento acabou, não voltou a acontecer. Talvez um dia ela possa até suspender o santo remédio. Ou talvez nunca, porque certos traumas nunca se vão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dismorfia Corporal

A dismorfia corporal se caracteriza pela percepção distorcida da própria imagem e pode causar enormes estragos na vida psíquica dos afetados (Giulia Vidale)

 Tenho descoberto muitas coisas sobre mim. Agora descobri que sou branca. OK, pensam que estou brincando? não, é sério. Desde que eu era criancinha minha mãe costumava me chamar de mulata, principalmente quando estava me repreendendo. E isso com uma uma cara de raiva e nojo. Isso me fez acreditar que eu não era branca. Tal como as anoréxicas, eu me olhava e "via" uma pele escura, até no espelho. Passei a vida comprando coisas baseada na minha cor fictícia e sem saber se era adotiva ou se era fruto do relacionamento dela com um homem negro. Usava xampu para cabelos crespos que nunca funcionavam e a primeira pergunta que fiz aos médicos quando minha filha nasceu foi se ela era branca. Fiz isso com tanta naturalidade que fiquei profundamente magoada quando meu marido perguntou se eu tinha certeza que a criança era dele. Certamente ele e o corpo clínico acharam que eu tinha dúvidas a respeito do pai da criança, já que nós dois éramos brancos. Só agora entendi a pergunta dele e acho que isso pode ter prejudicado de certa forma o nosso casamento. Eu dizia para as vendedoras que tal cor não ficava bem para pessoas escuras como eu e não percebia que o riso delas era porque pensavam ser uma brincadeira. As de pele escura geralmente ficavam irritadas e eu não entendia que achavam que eu estava zombando delas. Cheguei a adotar uma criança de pele mais escura que a de toda família e nunca entendi porque ela se achava diferente e dizia que qualquer um que visse a família junta entenderia que ela era adotiva. Recentemente acordei, porque pela primeira vez resolvi comprar uma base para o rosto, coisa que eu nunca havia usado. Cheguei na loja, fui direto ao setor adequado e peguei a mais escura. Uma vendedora se aproximou e perguntou se eu estava comprando para outra pessoa e quando respondi que era para mim, ela fez cara de espanto e falou que eu jamais poderia usar aquela cor, pois minha pele era muito clarinha. Ri, achando que ela estava brincando comigo, mas ela escolheu outra e aplicou no meu antebraço. Surpresa, percebi que ficou perfeita. Nesse instante foi como se uma luz se acendesse e pela primeira vez eu me enxerguei tal como eu sou. Ainda estou me acostumando com minha vida de branca, dando alguns foras, como hoje ao pedir a uma vendedora um short amarelo "porque nós os negros gostamos muito de amarelo" e vendo o amarelo no sorriso dela. A fala é uma arma muito poderosa, principalmente quando vem da mãe da pessoa.

domingo, 27 de novembro de 2011

Quebra-cabeça



Tenho a impressão de que até hoje passei a vida a colecionar peças de um quebra-cabeças gigante, que quando montado, daria sentido à minha vida. Ávidamente colhi peças que encontrava caídas no caminho, ou que eu procurava nos lugares mais escondidos e ia colecionando e tentando montar, mas nunca se encaixavam, o que fazia com que eu seguisse procurando aquelas que faltavam. Um dia acordei com uma montanha de peças e nada que fazia sentido. Percebi que na busca incessante havia recolhido peças que não eram do meu jogo, ou peças inúteis que só fizeram com que eu perdesse meu tempo. Há muito meu quebra-cabeças estava completo, e eu nunca iria comtemplar a sua beleza se não parasse para montá-lo. É o que estou fazendo e vendo surgir diante de meus olhos imagens maravilhosas. Descobri também que não consigo montar esse jogo gigante sem ajuda. Em muitos momentos recebo dicas preciosas que levam a nova descoberta. É um quadro extremamente complexo e o que vejo e interpreto hoje pode se transformar amanhã, diante do todo. Mas finalmente interrompi o desespero da procura, tenho tentado jogar fora as peças inúteis ou que não me pertencem e tudo se tornou melhor, mais fácil e mais claro. Todos os dias meus olhos brilham com a percepção de novas possibilidades, com a formação clara de novos quadros. Meu quebra-cabeças mostra-se cada vez mais belo e sei que no final tudo valerá a pena. Estou feliz.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Voltei



Queridos, agora é oficial: renasci. Saudável, inteira, com todos os dedinhos, e, principalmente com coração. Um coração cheio de amor, alegria e esperança. Valeu a pena a gravidez de risco e o parto complicado, sou uma menininha feliz...

terça-feira, 19 de julho de 2011

MARTINHA

Sou levada a crer que a pintura usada para ilustrar esse texto foi por acaso feita por alguém que me conheceu, ou existiu por aí uma outra Martinha, que se dedicava às mesmas "artes". Aos sete anos meus pais internaram-me num colégio de freiras, porque era e creio que ainda é, um dos mais completos estabelecimentos de ensino. Lá falávamos dois idiomas: o francês e o português.Cantávamos o Hino Nacional Brasileiro e a Marselheise. Rezávamos nos dois idiomas e chamávamos a madre superiora de "ma mère". Eu amava o colégio e as irmãs. Todos me chamavam de Martinha, porque era a caçula do colégio e creio que tenho jeito de Martinha, porque hoje, mesmo sendo alta e já bem longe da infância, as pessoas quando me conhecem logo começam a me chamar assim. Pois bem, embora amasse as irmãs, sempre procurei uma forma de me divertir, o que as deixava em polvorosa, mas sempre para me repreender me colocavam no colo e quando eu lhes alisava o rosto e encostava a cabeça no ombro delas, se derretiam e abrandavam as repreensões. Às vezes eu até ganhava balas, para deixar de aprontar. Mas vamos ao quadro. A irmã Catarina, jovem e bela, pelo que me lembro, era encarregada de nos levar ao dentista. No início, sabendo da minha diversão predileta, antes de sair, ela tinha uma conversa séria comigo. E lá íamos nós duas. Chegando ao consultório, ela sentava-se numa cadeira e me colocavam na cadeira do dentista. Eu ficava bem quietinha e dócil, para não despertar desconfiança. No momento em que o prifissional ia pegar os instrumentos, me levantava com a rapidez de um raio e saia correndo rua afora. A pobre da irmã, atrapalhada com muitas saias compridas e véus, saía correndo desesperada atrás de mim e eu usufruía o melhor da escapada; de vez em quando olhar para e ver o véu voando no ar e o rosto dela totalmente vermelho, não sei se pela vergonha ou pelo esforço, ou pelos dois. Eu corria dando voltas mas sempre voltava ao colégio, para a pobre irmã descansar. Afinal eu a amava! Depois de recuperar o fôlego e tomar um copo d'agua, era a hora de contar o fato para a madre. Infelizmente só consegui escapar apenas três vezes, porque deixaram de confiar em mim e passaram a trancar a porta. Mas foi bom enquanto durou e logo eu arranjei uma nova forma de diversão. Depois eu conto. Só vou adiantar que muitos anos depois, quando minha prima foi ser matriculada e viram o sobrenome Costa Vale, perguntaram a ela o seu grau de parentesco com a terrível da Martinha.







sexta-feira, 1 de julho de 2011

EU E MEU EGO

Um gatinho que olha no espelho e se vê um leão. É a imagem perfeita de mim. Eu me amo tanto, que antes de tomar banho faço questão de ficar nua por algum tempo, me olhando no espelho e me admirando, me achando a mulher mais bela do mundo. Quanto mais me olho, mais agradeço à natureza por ter tido tanto capricho. Certo que alguém diria que meus pés são feios, mas eu discordo, porque só o fato deles existirem e me levarem a todos os lugares já os torna lindos. Quando acabo a sessão de auto-admiração externa, entro para o chuveiro e com os gestos automáticos de higiene, olho para dentro de mim e conheço o encantamento: também sou linda por dentro. Aí podem pensar que sou arrogante. Sabem porque acho que não? Porque meus olhos possuem um filtro que faz com que todas as pessoas de que gosto se tornem bonitas físicamente. Se elas são bonitas, eu, que sou a pessoa que mais me ama, naturalmente serei a mais bela. Quanto ao aspecto interior, mais fácil ainda. Quem se conhece mais que a própria pessoa? Eu sei que sou uma pessoa totalmente do bem e tento me aperfeiçoar a cada dia. Tenho ou não o direito de me considerar maravilhosa?

A propósito, seja você quem estiver lendo este texto, saiba que EU TE AMO.

DO PÓ VIESTES...

Quando eu morrer, desejo ser cremada. Que minhas cinzas sejam oferecidas a um rio de águas límpidas, às árvores e ao vento.

Estarei em nenhum lugar e em todos eles, pois estarei integrada à natureza, que tanto amo.

As pessoas que procurarem, me encontrarão em seus corações e na brisa que os acaricia...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

RENASCIMENTO

Depois de pouco mais de um mês, retorno. Quanta coisa pode acontecer, em tão pouco tempo. O que antes era uma eternidade, hoje é um piscar Divino. Reli hoje o que havia escrito no tempo em que eu transitava pelo inferno e custo a acreditar que consegui sobreviver e que o que parecia insolúvel resolveu-se em tão pouco tempo. A Marta de hoje, não é a Marta de outrora. Agora que escapei do inferno, sinto-me mais viva do que nunca, com uma enorme sede de absorver a vida até a última gota. Tenho esperança, baseada na certeza que ainda serei feliz.
A todos que me amam e sofriam por mim, posso dizer de cabeça erguida: sosseguem os seus corações, pois combati com honra e RENASCI.



















sábado, 14 de maio de 2011

Até Quando?



Até quando terei que esperar para viver? Quando poderei fechar a porta atrás de mim e abandonar o passado com suas inúmeras dores e curar as feridas? Não consigo contar todos os sofrimentos, porque são inúmeros e inacreditáveis. São tantos, que meu cérebro em sua sabedoria, tirou-os de minha memória, para que eu os resgatasse aos poucos quando estivesse preparada para não enlouquecer. Mesmo assim, eu só pensava em morrer. Antes de dormir meu último desejo era não acordar. Minha mente estava o tempo todo forjando planos infalíveis de suicídio, mas depois de bem repassados, descobria uma falha que poderia me deixar viva e em piores condições. Então eu achava que descobria outra forma e começava a sonhar com ela, aquela que finalmente tiraria aquela dor monstruosa que me consumia. Os braços da morte me pareciam mais aconchegantes do que qualquer braço materno. Ao pensar nela eu sorria...e mais uma vez descobria uma possibilidade de erro. Nem o direito de morrer me era dado. Quando finalmente descobri a forma perfeita, repassei-a inúmeras vezes e vi que daria certo. Com carinho preparei o material de minha libertação e por dentro antegozava o prazer da liberdade. Nesse dia aconteceu algo tão escabroso, que outras pessoas me tiraram a pior parte do meu fardo de espinhos e me conduziram aos profisssionais que estão me ajudando. Mesmo assim ainda existe um cabo de aço me prendendo ao passado, que ninguém pode desprender, a não ser a própria vida. Quase não penso mais em morrer, mas ainda não comecei a viver. Às vezes penso que ainda serei feliz, mas não vejo como. Meus frágeis castelos de areia desabam todas as vezes que tento levantá-los. Até quando?