quinta-feira, 7 de março de 2013

Coisas dos Costa Vale

Minha mãe viúva, mora ao lado do irmão e cunhada, que por sua vez moram em frente à casa da filha. Minha prima mora com o marido e os dois filhos, um menino e uma menina. Meses atrás, um ladrão perseguido pela polícia, saiu pulando pelos quintais e deu o azar de entrar no quintal de minha mãe e seus cachorros, inclusive uma pitt bull. Atacado com fúria, resolveu pular para o quintal de meu tio. Machucou-se mais ao atravessar o arame farpado sobre o muro e no desespero caiu em cima de uns objetos de ferro que estavam num canto. Aí então estava todo ensanguentado e desorientado. Subiu no telhado e caiu na calçada, já com minha mãe e meu tio no encalço do meliante. Estendido no chão, ao ver os dois perseguidores enfurecidos, identificou-se como filho de uma conhecida deles. Nisso o marido de minha prima acordou ouvindo a voz do filho vinda da rua. Note-se que isso aconteceu de madrugada. Preocupado saiu para a varanda e viu o quadro; meu tio, minha mãe, um rapaz ensanguentado e a criança ao lado dando palpites. Assustado gritou para que ele voltasse para casa, ao que tranquilamente respondeu: "-Não se preocupe papai, é apenas um ladrão e é amigo de vovô e tia Geralda!".

terça-feira, 5 de março de 2013

Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.
Lya Luft

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Árvore Antiga

Nós somos como árvores. Quando jovens nosso tronco é resistente, maleável, sadio e estamos ainda sujeitos a mudanças. Por isso nossas raízes são ocultas e mais rasas. Com o crescimento e a altura, essas raízes se aprofundam para que qualquer tempestade não nos derrube. Aí começa a nossa ligação mais intensa com nosso solo. Quanto mais velhos ficamos, sabemos que nosso tronco se enfraquece, estamos mais sujeitos ao ataque de pragas, então temos necessidade de criar mais liames, de lançar mais âncoras e então lançamos mais raízes que agora saem de todo nosso corpo. Até aceitamos algumas trepadeiras, que embora se alimentem de nossa seiva, nos mantêm mais firmes. Mas aí teremos perdido nossa liberdade, não podemos mais ser transmutados. Impossível agora cortar tantos laços e sobreviver.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Procura de Conhecimento

Nasci com uma gana absurda de conhecimento. Tanto que aos tres anos eu já sabia ler e escrever, enquanto não sabia ainda falar muito bem. Minha tia Neves conta que se divertia mandando que eu lesse textos com palavras que eu ainda não conseguia pronunciar bem. Mas quando eu chegava nas palavras "pegadinha", lia, olhava para ela sériamente e dizia: "Eu sei que não falei certo." A minha sede por leitura era tão grande, que minha mãe ficava irritada, porque eu preferia ler a brincar e muitas vezes me escondia no quintal ou atrás da casa com pedaços de jornal, folhas de revista, que às vezes só traziam propagandas, mas que eu recolhia do chão e escondia como tesouros, para ler assim que estivesse sozinha. Tio Moacir era meu companheiro predileto, porque tinha paixão por livros e passávamos horas naquele quarto abarrotado, sem trocar uma palavra, cada um perdido no seu mundo particular. Muitas vezes minha avó Amélia percebia que já estávamos quase lendo no escuro, vinha e silenciosamente acendia a luz. Para nós naquelas horas, não havia sede nem fome, nos alimentávamos de leitura. No colégio eu acredito que li todos os livros da biblioteca. Depois eu lia os livros das bibliotecas públicas. Aí comecei a comprar livros e quando eles se espalhavam por todos os cômodos da casa, eu doava, deixando apenas os chamados livros de cabeceira", que no meu caso não há cabeceira que caiba tantos. Por que estou contando isso? Porque um dia, muito recentemente, percebi que a leitura trouxe incontáveis ganhos e muito prazer, mas enfiada de cabeça nessa paixão me afastei muito do mundo real. Agora quero entrar de cabeça na vida e colocar em prática o que aprendi. Não seria inteligente passar a vida estudando e nunca entrar de férias.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sem Noção

Eu sou uma tonta. Mexe e vira apronto uma. Nunca acreditei em loterias, mas últimamente ando experimentando novos comportamentos. Na véspera de Natal passei na lotérica do shopping e peguei um monte de cartelas, de jogos variados, para fazer em casa. Cheguei, me coloquei à vontade, li as regras atrás e comecei a marcar. Primeiro pensamento insensato:" afinal isso é apenas um jogo e deve ser baratíssimo. Porque marcar apenas o mínimo e perder a chance de ganhar?" Peguei todas as cartelas e marquei o máximo de números possíveis em cada uma e fui feliz fazer os jogos. Primeiro obstáculo, uma fila quilométrica, o que achei perfeito, porque tinha mais chance de puxar conversa com as simpáticas pessoas que ali estavam. Conversa vai, conversa vem, chega minha vez. E a fila atrás cada vez maior. Dei os jogos para a moça e achei que ela me olhou estranho. Mas tudo bem, ela talvez me conhecesse de outro lugar. E tome a fazer cálculos e me olhar esquisito. Quando terminou, perguntou se eu tinha certeza que queria jogar aquilo. "-Claro, meu bem! Se estou aqui na fila!" falei já abrindo a carteira e tirando vinte reais. E ela: "-Tem certeza?". A fila crescendo e eu: "-Não estou entendendo, quanto tenho que pagar?". Aí veio a bomba; vinte e quatro mil e não sei quantos reais. Fecha o pano para minha carreira e a risada da moça do caixa. Nunca mais me meto no que não entendo. É o que sempre digo até a próxima bobagem.

Cumplicidade

Por trinta e seis anos fui casada com um homem que não conhecia o sentimento de lealdade e de comprometimento. Essas características que são fortes em mim e que eu cultivo por toda vida, para ele significavam nada. Os "amigos" sempre estavam em primeiro lugar, mesmo aqueles que tentavam me seduzir pelas costas dele. As mulheres fúteis tinham mais importância. Não me defendia, não me apoiava, não me incluía. Eu vivia para a família e não podia contar com o companheiro com quem eu planejava envelhecer. Só para exemplificar, quando morávamos em Cuiabá/MT, ele viajou para Brasília dizendo que era a serviço, eu arrumei a sua mala como sempre, porque ele não sabia combinar nada com nada, beijei-o e desejei boa sorte. Alguns anos mais tarde um amigo dele fez questão de me contar, com um sorriso de superioridade, que ele tinha viajado para ser padrinho de casamento dele e com outra mulher. Eu não havia sido nem mesmo comunicada. Muitas dessas aconteceram enquanto eu ficava em casa. Curioso é que ele sempre me dizia que os amigos eram "irmãos", no entanto quando surgiam as dificuldades era sempre eu a estar por perto. Quando foi acometido de um tumor no cérebro e ficou inválido por seis anos, os "irmãos" e as "amigas" desapareceram e eu fiquei sozinha com toda a responsabilidade nas costas. Ninguém apareceu para trocar-lhe uma fralda, eu fazia tudo pessoalmente, com carinho e desvelo. Hoje sei que mereço o mesmo tratamento que dou e nunca mais aceitarei alguém que não pense e aja como eu.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Serena

Há tempos não sou mais feliz. Fui por alguns meses, quando achei ter encontrado a pessoa certa. Tristemente fui percebendo o esmaecimento de tudo. Um dia sumiu isso, no outro aquilo, eu sabia que era questão de tempo (e pouco)  em que tudo desapareceria. Aguardei o fim, torcendo para que a situação se revertesse e nós tivéssemos a chance de construir um futuro juntos. Mas a cada dia ficava mais óbvio que falávamos e sentíamos diferente, não havia a menor possibilidade de comunhão. Como diz determinado livro, ele era de Marte e eu de Vênus. Depois que vi isso com clareza, apenas aguardei. Nesses dias de espera voltei-me para mim, preparando o novo luto para que não fosse traumático e que eu estivesse pronta para a possibilidade de viver só quando acontecesse o desfecho. Consegui. Hoje não posso dizer que sou feliz, porque acho que só o somos aos pares. Mas estou absolutamente serena.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mulher Feliz

O que faz uma mulher feliz? Falo daquela que desce uma escada quase bailando, que tem sempre um brilho de malícia nos olhos, que ri por qualquer bobagem, que cantarola enquanto realiza coisas simples e corriqueiras. Que acorda radiante, com todas as possibilidades de um novo dia. Para isso essa mulher precisa de um amor, é ponto obrigatório. Alguém para andar de mãos dadas,  para trocar palavras e toques maliciosos, que ame seu gosto e seu cheiro, que não consiga ficar um dia sem vê-la ou ouvir sua voz. Que o sexo seja constante, que ele goste de tocá-la e beijar na boca. Que saiba que é amada ao ponto dele considerá-la a mulher mais bela do mundo. Uma mulher pode ser serena, tranquila, alegre, pelas mais diversas razões. Mas para ser feliz, feliz de verdade, precisa do homem certo. Então todos à sua volta perceberão o seu brilho.

domingo, 19 de agosto de 2012

Procriação

Você já reparou que a cada dia aumenta o número de mães e avós que cuidam sozinhas de suas crianças sem a assistência paterna? Por que os homens fazem filhos a torto e a direito e não assumem suas responsabilidades? Por que as mulheres aceitam isso e continuam fazendo filhos como se fossem animais que entram no cio, cruzam e emprenham?  Houve um tempo em que o homem tinha consciência de que era o provedor da família, que era exemplo para seus filhos e tinha vergonha de não ser capaz disso. Um homem que deixava sua família passar necessidades não merecia o respeito da sociedade. Com a dissolução dos costumes, regredimos um passo na evolução, passamos a um estágio puramente animal, anterior ao homem das cavernas. Agora somos apenas instinto; o homem em geral age apenas no sentido de espalhar a sua "semente", mostrar sua masculinidade através da barriga de uma mulher prenhe, já que ainda não pode sair por aí mostrando seu membro ereto e fazendo sexo no meio da rua. Já a mulher faz sexo sem critério pensando que sexo e gravidez lhe trarão amor e proteção. Mas o que acontece no final dessa fornicação generalizada? Os homens já não têm o dever de conviver com os filhos, que não foram gerados dentro de uma relação estável e amorosa. O amor que decorreria dessa situação é fraco ou inexistente, porque ele não acompanhou a gestação com seus problemas e suas alegrias, não ajudou a cuidar da criança, não trocou fraldas nem saiu correndo à noite atrás de um médico ou uma farmácia, não viu o primeiro sorriso nem ouviu a primeira palavra. Não amparou nos seus primeiros passos, não participou de suas brincadeiras, não a consolou nas primeiras decepções, não vibrou com suas primeiras vitórias. Então assim fica fácil virar as costas e partir. Por que as mulheres e as avós cuidam desse exército de crianças sem pai? Por causa do instinto maternal que nasce com elas e difícilmente as abandona, mesmo que tenham perdido o bom senso, o respeito e a inteligência.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O Tempo

Indiscutível. O tempo resolve todas as questões. Tudo que parece insolúvel, toda dor desesperada, toda falta de perspectiva, toda vida destroçada. Nada permanece intocado na passagem do tempo, nem mesmo o maior sofrimento. Por isso confie e espere por aquilo que parece impossível. Um dia eu estava presa no fundo de um poço, com uma pedra enorme impedindo a saída. Não via nenhuma luz, as paredes eram totalmente lisas e escorregadias, não tinha mais forças nem tinha armas para lutar e desisti. Encolhida em um canto esperei a morte e ansiei por sua vinda. De repente uma força descomunal retirou a pedra da entrada e a mim de dentro da prisão. Pelo tempo necessário para me recompor, permaneci parada, apenas admirando a beleza do mundo, de cores tão belas e vívidas como eu sequer imaginava. De início não acreditava no milagre e temia ser atirada de volta a qualquer momento. Mas o tempo passou,  me levantei, descobri uma força interior maior do que que antes e não temo mais os  buracos. Aprendi bastante para saber evitá-los. E o mais importante, readquiri a fé.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Distraída


Meu marido e eu fomos convidados a jogar cartas na casa de um casal de amigos. Tenho o hábito de tirar os sapatos disfarçadamente, todas as vezes que me sento ao redor de uma mesa. Quando vou me levantar volto a calçá-los sem que ninguém perceba, sem usar as mãos. Com meu marido à esquerda e o dono da casa à minha direita, começamos o jogo. Tudo corria muito bem, até que no final as coisas começaram a ficar esquisitas. Em primeiro lugar, eu não conseguia localizar o sapato da direita. Fui tateando com o pé e não encontrava o fugitivo. Finalmente achei! Mas ele parecia estar virado para baixo, porque era impossível calçá-lo. Usava os dedos dos pé tentando desvirá-lo, mas ele parecia colado ao chão. Eu já estava quase ofegante, quando percebi um silêncio constrangedor. Meu marido me olhava assustado, a dona da casa parecia querer me matar com os olhos e o pobre do marido tinha uma expressão desesperada. Quando vi para onde ele olhava, juro que me mataria se houvesse alguma arma disponível; a mesa era de vidro(eu não havia notado esse pequeno detalhe), meu outro sapato estava embaixo da cadeira. E eu, simplesmente estava com o pé descalço em cima do sapato do pobre coitado, fazendo movimentos em todos os sentidos. Tentei explicar, mas ...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

LIMITES

Ela me falou que a cada vez que tenta se aproximar ele a afasta bruscamente e a faz recuar. Na sua espontaneidade meio infantil ela tem medo de voltar a ultrapassar aquele limite, então constrói ali uma cerca de arame, para poder se lembrar. E tenta outra abordagem, mais uma cerca de arame. Atualmente já existem dez cercas entre os dois e ela me confidenciou tristemente, que no início olhava-o nos olhos, depois teve que esticar o pescoço; agora, já tem que ficar na ponta dos pés para vê-lo. Tem medo que um dia não consiga enxergá-lo mais, tamanha a distância. Ou que, de tanto andar de costas, um dia caia nos braços de alguém mais desarmado.

                                                                                                                              

terça-feira, 8 de maio de 2012

Momento de Tristeza

Hoje fiquei triste. Quando acordei, me lembrei que quando meu marido estava internado no hospital psiquiátrico, acontecia de às vezes ele ficar calmo logo de manhã, então pedia ao enfermeiro para telefonar para mim. Eu atendia e ele começava me dizendo que estava no aeroporto, que tomaria um taxi e logo chegaria em casa. Eu perguntava de onde ele vinha e ele sempre dizia Brasília ou Cuiabá. Aí começava a contar dos amigos que tinha encontrado, das coisas que tinha feito, ia se perdendo cada vez mais em suas fantasias, de repente se calava e soltava o telefone. Voltava para um mundo onde eu não existia.

domingo, 29 de abril de 2012

Prisioneira

-Cala a boca, menina! Você não pode sair falando tudo que pensa.
-Pára de chorar! Só se chora escondido. Lágrimas incomodam as pessoas.
-O que é isso? Controle-se. Você não pode fazer o que tem vontade.
A menina torna-se mulher, uma mulher amordaçada, manietada. Não sabe se pode dizer "eu te amo", se pode perguntar quando tem dúvida, se pode brigar quando se irrita.
Reprime as lágrimas de dor, para que não explodam em uivos dilacerantes e incomodem alguém.
Aperta com força as mãos e os lábios, para não correr o risco de abraçar ou beijar aqueles que ama.
O seu exterior transforma-se em estátua, totalmente paralisada. Mas se um desavisado olhar nos seus olhos, verá lá dentro uma criança aprisionada, com as mãos dilaceradas de tanto arranhar a própria casca.

quinta-feira, 29 de março de 2012

PAZ

Sempre fui muito ligada à natureza, principalmente a três elementos: água, pedra e árvore. O contato com eles e algum tempo de solidão reativam todos os meus instintos, que por sua vez me conduzem à razão, à clareza de visão, à compreensão dos fatos. Eu preciso disso, ou não sobrevivo. Senti que já havia passado tempo demais no asfalto e cimento, perdida em meus pesares e parti sózinha para um lugar chamado Chapada dos Veadeiros, na cidade adequadamente chamada Alto Paraíso, no estado de Goiás. Durante uma semana convivi com pássaros, flores, animais silvestres, pedras, árvores, rios e cachoeiras. E um céu que ao amanhecer e entardecer enchia-se de pinceladas das mais belas e variadas cores. Durante a noite havia vagalumes, uma sinfonia de sapos e grilos, e milhões de estrelas visíveis. E a pureza do ar, o cheiro de mato?
Enquanto tirava o máximo do meu corpo em longas e ásperas caminhadas, ou simplesmente me deixava ficar quieta apenas pensando e sentindo, eu repensava minha vida e os últimos acontecimentos. Retornei ao útero da Mãe Natureza, renasci feliz e serena.





sexta-feira, 2 de março de 2012

Zumbis

Pronto, desfeito o mistério. Já sei por que não posso me expor sem que me arranquem um pedaço do coração. Estou cercada de zumbis, pessoas que já não pensam, não sentem, não vivem mais. Ao contrário do que eu pensava, EU ESTOU VIVA. Agora entendo porque me detectam tão rápido e passam imediatamente ao ataque; sou carne fresca, não há nada de errado comigo. Já sei como agir daqui por diante; agir como nos filmes, que são uma metáfora do que acontece na realidade. Devo em primeiro lugar, ficar escondida e não fazer barulho; quando tiver que sair, não falar nada que faça sentido, apenas grunhir; apagar o brilho dos olhos e o sorriso; não ajudar ninguém que cair; andar aparentemente sem destino. Isso até que eu consiga localizar alguém igual a mim, mesmo que para isso eu tenha que viajar para outros lugares ou outros países. Agora que descobri o segredo, tudo fica mais fácil. Ser vivo, pensante e verdadeiro é muito perigoso, eles sentem o cheiro de sangue e atacam.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Mundo Incompreensível

O que acontece com as pessoas? Quando tenho dúvidas, pergunto, não julgo. Talvez porque como diz o ditado, as pessoas julgam de acordo com o próprio comportamento. Dias atrás, recebi troco a mais e como é normal, ou deveria, voltei à caixa e disse que havia um erro. A moça perdeu o sorriso, ficou agressiva e disse que ela jamais errava. Quando eu disse a ela que dessa vez ela havia se enganado e que eu havia recebido dez reais a mais, ela nem mesmo me pediu desculpas ou agradeceu. Recentemente, cansada dos sofrimentos ocasionados por determinada rede social, fechei a minha página. Pensam que ficou por isso? Tenho recebido emails de pessoas ofendidas, porque eu as teria bloqueado. Quando tentam entrar e não conseguem, não pensam que eu preferi me retirar, nem mesmo aventam a hipótese de meu sofrimento, ninguém me pergunta o que aconteceu, se estou bem. Tratam de juntar suas pedras e atirar. Que desesperança, que tristeza! O que fazer para receber na mesma moeda com que pago?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

DESCRENÇA



Nesse momento eu adoraria e esperava escrever coisas alegres e agradáveis. Mas infelizmente mais uma vez estou doente de tristeza e descrença. Eu devo ser anormal, Eu não entendo o mundo. As pessoas perderam o altruísmo, o respeito pelos outros e nem sabem mais distinguir a pedra falsa da genuína. Antes de morrer, meu marido me disse que gostaria de poder voltar no tempo e mudar o seu comportamento, porque tinha vivido tanto tempo com um diamante pensando que era vidro. O fato é que hoje, a maioria das pessoas anda tão entorpecida, que não entende a autenticidade, a integridade de caráter, a lealdade, a pureza de intenções. Só falam e entendem a linguagem do rancor, da mentira, do que é pequeno. Quem é diferente vai sendo e se sentido excluído do mundo, porque não encontra reciprocidade. E paradoxalmente nunca se falou tanto em Deus e Jesus. Mas onde escondem o "amai-vos uns aos outros" se não amam nem a si mesmos?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Verdade Nua e Crua


Faço questão de contar que sou desequilibrada mental e como o sou. Não tenho nada a perder. Ainda tenho um rasgo de esperança de que eu possa me curar. Enfim, sou a contradição em pessoa. Muito inteligente, tive um desenvolvimento intelectual significativo. Mas emocionalmente eu parei na primeira infância. Sou uma mulher madura, com um coração de criancinha. Às vezes chupo o dedo, às vezes durmo com o bumbum pra cima, quando sofro fico em posição fetal. Me envergonho disso, porque soa ridículo para uma mulher da minha idade, mas não escolhi isso. Daí ter como amigas apenas algumas mulheres especiais que "enxergam" a criança. A maioria vê uma mulher bonita, inteligente, relativamente culta, sensual, enfim, alguém de quem é melhor manter distância e não convidar para suas casas. Ainda mais depois que fiquei sózinha. Mal sabem elas que eu jamais me aproximaria de seus maridos, porque tenho um rígido código de ética. Animais e crianças gostam muito de mim. Agora os homens. Ah, os homens!!! A garotinha tem medo do mundo, tem medo até de caixas eletrônicos, não dirige, não viaja sózinha, se sente perdida sem alguém que a proteja. Mas eles só querem a mulher sensual, exuberante, brincalhona. Só querem o bônus. Ninguém quer lidar, nem mesmo crer, que existe a criança. Que não sabe brigar nem gritar nem agredir, que reage às grosserias e às incompreensões apenas chorando. Vivo tentando curar os "dodóis" dos outros, mas não posso mostrar os meus. Não sei mentir nem dissimular; quando alguma coisa me incomoda, falo claramente. Quando não entendo pergunto por que. Na minha cabeça isso esclareceria as coisas e evitaria brigas, mas não é o que acontece. Os homens ficam nervosos e me dizem que vivo procurando confusão, quando pergunto por exemplo, porque foi viajar e não me convidou. Bastaria me dizer qualquer coisa que eu aceitaria, sem discussões, só não gosto de ficar criando monstros inexistentes na minha imaginação, pensando que vou ser abandonada a qualquer momento, sem explicação. Como as criancinhas para quem as mães explicam que têm que sair para trabalhar, mas que depois voltam. É só isso que espero. Embora seja generosa, compreensiva, carinhosa, os homens que encontrei não estavam dispostos a me entender e me ajudar a crescer. Faço análise, mas é um processo lento de cura e com a ajuda de alguém que entendesse que adoro sentar no colo não por sensualidade mas por carência, certamente seria bem mais rápido. Minha analista diz que só um homem maduro e sereno poderia me ajudar. Mas não tenho esperanças, seria como encontrar agulha em um palheiro e é improvável que eu e esse homem especial nos encontremos um dia. E o tempo passa tão rápido...

sábado, 3 de dezembro de 2011

O Santo Remédio


Eu tenho uma amiga que viveu o inferno. E o que é pior, sózinha, escondendo dos outros, chorando em casa e sorrindo em público. Criou um mundo fictício, onde tudo era perfeito. Um dia começou a notar que estava indo muito ao banheiro fazer xixi. Achou que fosse temporário e esperou, pois seus outros problemas eram muito maiores. Mas essa frequência foi aumentando e nela havia tanta urgência, que se minha amiga não fosse ao banheiro imediatamente, faria nas roupas. Começou a anotar a diminuição de espaço entre as micções e elas chegavam ao máximo de uma hora de intervalo; o normal era de meia em meia hora, ininterruptamente, dia e noite. Ela já não conseguia dormir direito, já não saia para lugares que ficassem a mais de quinze minutos de casa, não ia ao cinema, ao teatro, nem mesmo à casa de amigos pela vergonha de ficar indo ao banheiro todo o tempo. Muitas vezes passava a noite deitada no chão do banheiro, pois era mais fácil. A maior parte dessas noites chorando, porque além de todos os demais sofrimentos, já havia passado por um batalhão de médicos, feito todos os tipos de exames possíveis e nada era detectado; e todos a dispensavam dizendo que ela não tinha nada e ninguém a orientou para que procurasse um psiquiatra ou psicólogo, nem ela conseguia fazer essa associação. Um dia um urologista recitou um remédio para dormir, esperando que com isso ela tivesse pelo menos algum tempo a mais de sono. Resultou que a situação ficou pior, pois aumentou o sono e não diminuiu a necessidade de ir ao banheiro. Numa noite de desespero, ela pegou um antidepressivo/ansiolítico do marido, um desses mais conhecidos no mercado e tomou. Isso foi pouco depois da meia noite. Foi ficando com sono e resolveu arriscar ir para a cama. Quando acordou, eram mais de seis horas da manhã. Foi invadida por uma euforia tão grande que correu para o médico e explicou o acontecido. Ele deu-lhe uma receita e como milagre o problema se resolveu, depois de mais de dez anos. Ela continua tomando o remédio, porque quando interrompe, tudo volta. E por duas vezes já passou por uma situação delicada. Quando o marido ultrapassava os limites usuais de sadismo, sem perceber ela fazia xixi involuntáriamente, mesmo que estivesse em público. Agora que o casamento acabou, não voltou a acontecer. Talvez um dia ela possa até suspender o santo remédio. Ou talvez nunca, porque certos traumas nunca se vão.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dismorfia Corporal

A dismorfia corporal se caracteriza pela percepção distorcida da própria imagem e pode causar enormes estragos na vida psíquica dos afetados (Giulia Vidale)

 Tenho descoberto muitas coisas sobre mim. Agora descobri que sou branca. OK, pensam que estou brincando? não, é sério. Desde que eu era criancinha minha mãe costumava me chamar de mulata, principalmente quando estava me repreendendo. E isso com uma uma cara de raiva e nojo. Isso me fez acreditar que eu não era branca. Tal como as anoréxicas, eu me olhava e "via" uma pele escura, até no espelho. Passei a vida comprando coisas baseada na minha cor fictícia e sem saber se era adotiva ou se era fruto do relacionamento dela com um homem negro. Usava xampu para cabelos crespos que nunca funcionavam e a primeira pergunta que fiz aos médicos quando minha filha nasceu foi se ela era branca. Fiz isso com tanta naturalidade que fiquei profundamente magoada quando meu marido perguntou se eu tinha certeza que a criança era dele. Certamente ele e o corpo clínico acharam que eu tinha dúvidas a respeito do pai da criança, já que nós dois éramos brancos. Só agora entendi a pergunta dele e acho que isso pode ter prejudicado de certa forma o nosso casamento. Eu dizia para as vendedoras que tal cor não ficava bem para pessoas escuras como eu e não percebia que o riso delas era porque pensavam ser uma brincadeira. As de pele escura geralmente ficavam irritadas e eu não entendia que achavam que eu estava zombando delas. Cheguei a adotar uma criança de pele mais escura que a de toda família e nunca entendi porque ela se achava diferente e dizia que qualquer um que visse a família junta entenderia que ela era adotiva. Recentemente acordei, porque pela primeira vez resolvi comprar uma base para o rosto, coisa que eu nunca havia usado. Cheguei na loja, fui direto ao setor adequado e peguei a mais escura. Uma vendedora se aproximou e perguntou se eu estava comprando para outra pessoa e quando respondi que era para mim, ela fez cara de espanto e falou que eu jamais poderia usar aquela cor, pois minha pele era muito clarinha. Ri, achando que ela estava brincando comigo, mas ela escolheu outra e aplicou no meu antebraço. Surpresa, percebi que ficou perfeita. Nesse instante foi como se uma luz se acendesse e pela primeira vez eu me enxerguei tal como eu sou. Ainda estou me acostumando com minha vida de branca, dando alguns foras, como hoje ao pedir a uma vendedora um short amarelo "porque nós os negros gostamos muito de amarelo" e vendo o amarelo no sorriso dela. A fala é uma arma muito poderosa, principalmente quando vem da mãe da pessoa.

domingo, 27 de novembro de 2011

Quebra-cabeça



Tenho a impressão de que até hoje passei a vida a colecionar peças de um quebra-cabeças gigante, que quando montado, daria sentido à minha vida. Ávidamente colhi peças que encontrava caídas no caminho, ou que eu procurava nos lugares mais escondidos e ia colecionando e tentando montar, mas nunca se encaixavam, o que fazia com que eu seguisse procurando aquelas que faltavam. Um dia acordei com uma montanha de peças e nada que fazia sentido. Percebi que na busca incessante havia recolhido peças que não eram do meu jogo, ou peças inúteis que só fizeram com que eu perdesse meu tempo. Há muito meu quebra-cabeças estava completo, e eu nunca iria comtemplar a sua beleza se não parasse para montá-lo. É o que estou fazendo e vendo surgir diante de meus olhos imagens maravilhosas. Descobri também que não consigo montar esse jogo gigante sem ajuda. Em muitos momentos recebo dicas preciosas que levam a nova descoberta. É um quadro extremamente complexo e o que vejo e interpreto hoje pode se transformar amanhã, diante do todo. Mas finalmente interrompi o desespero da procura, tenho tentado jogar fora as peças inúteis ou que não me pertencem e tudo se tornou melhor, mais fácil e mais claro. Todos os dias meus olhos brilham com a percepção de novas possibilidades, com a formação clara de novos quadros. Meu quebra-cabeças mostra-se cada vez mais belo e sei que no final tudo valerá a pena. Estou feliz.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Voltei



Queridos, agora é oficial: renasci. Saudável, inteira, com todos os dedinhos, e, principalmente com coração. Um coração cheio de amor, alegria e esperança. Valeu a pena a gravidez de risco e o parto complicado, sou uma menininha feliz...

terça-feira, 19 de julho de 2011

MARTINHA

Sou levada a crer que a pintura usada para ilustrar esse texto foi por acaso feita por alguém que me conheceu, ou existiu por aí uma outra Martinha, que se dedicava às mesmas "artes". Aos sete anos meus pais internaram-me num colégio de freiras, porque era e creio que ainda é, um dos mais completos estabelecimentos de ensino. Lá falávamos dois idiomas: o francês e o português.Cantávamos o Hino Nacional Brasileiro e a Marselheise. Rezávamos nos dois idiomas e chamávamos a madre superiora de "ma mère". Eu amava o colégio e as irmãs. Todos me chamavam de Martinha, porque era a caçula do colégio e creio que tenho jeito de Martinha, porque hoje, mesmo sendo alta e já bem longe da infância, as pessoas quando me conhecem logo começam a me chamar assim. Pois bem, embora amasse as irmãs, sempre procurei uma forma de me divertir, o que as deixava em polvorosa, mas sempre para me repreender me colocavam no colo e quando eu lhes alisava o rosto e encostava a cabeça no ombro delas, se derretiam e abrandavam as repreensões. Às vezes eu até ganhava balas, para deixar de aprontar. Mas vamos ao quadro. A irmã Catarina, jovem e bela, pelo que me lembro, era encarregada de nos levar ao dentista. No início, sabendo da minha diversão predileta, antes de sair, ela tinha uma conversa séria comigo. E lá íamos nós duas. Chegando ao consultório, ela sentava-se numa cadeira e me colocavam na cadeira do dentista. Eu ficava bem quietinha e dócil, para não despertar desconfiança. No momento em que o prifissional ia pegar os instrumentos, me levantava com a rapidez de um raio e saia correndo rua afora. A pobre da irmã, atrapalhada com muitas saias compridas e véus, saía correndo desesperada atrás de mim e eu usufruía o melhor da escapada; de vez em quando olhar para e ver o véu voando no ar e o rosto dela totalmente vermelho, não sei se pela vergonha ou pelo esforço, ou pelos dois. Eu corria dando voltas mas sempre voltava ao colégio, para a pobre irmã descansar. Afinal eu a amava! Depois de recuperar o fôlego e tomar um copo d'agua, era a hora de contar o fato para a madre. Infelizmente só consegui escapar apenas três vezes, porque deixaram de confiar em mim e passaram a trancar a porta. Mas foi bom enquanto durou e logo eu arranjei uma nova forma de diversão. Depois eu conto. Só vou adiantar que muitos anos depois, quando minha prima foi ser matriculada e viram o sobrenome Costa Vale, perguntaram a ela o seu grau de parentesco com a terrível da Martinha.







sexta-feira, 1 de julho de 2011

EU E MEU EGO

Um gatinho que olha no espelho e se vê um leão. É a imagem perfeita de mim. Eu me amo tanto, que antes de tomar banho faço questão de ficar nua por algum tempo, me olhando no espelho e me admirando, me achando a mulher mais bela do mundo. Quanto mais me olho, mais agradeço à natureza por ter tido tanto capricho. Certo que alguém diria que meus pés são feios, mas eu discordo, porque só o fato deles existirem e me levarem a todos os lugares já os torna lindos. Quando acabo a sessão de auto-admiração externa, entro para o chuveiro e com os gestos automáticos de higiene, olho para dentro de mim e conheço o encantamento: também sou linda por dentro. Aí podem pensar que sou arrogante. Sabem porque acho que não? Porque meus olhos possuem um filtro que faz com que todas as pessoas de que gosto se tornem bonitas físicamente. Se elas são bonitas, eu, que sou a pessoa que mais me ama, naturalmente serei a mais bela. Quanto ao aspecto interior, mais fácil ainda. Quem se conhece mais que a própria pessoa? Eu sei que sou uma pessoa totalmente do bem e tento me aperfeiçoar a cada dia. Tenho ou não o direito de me considerar maravilhosa?

A propósito, seja você quem estiver lendo este texto, saiba que EU TE AMO.

DO PÓ VIESTES...

Quando eu morrer, desejo ser cremada. Que minhas cinzas sejam oferecidas a um rio de águas límpidas, às árvores e ao vento.

Estarei em nenhum lugar e em todos eles, pois estarei integrada à natureza, que tanto amo.

As pessoas que procurarem, me encontrarão em seus corações e na brisa que os acaricia...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

RENASCIMENTO

Depois de pouco mais de um mês, retorno. Quanta coisa pode acontecer, em tão pouco tempo. O que antes era uma eternidade, hoje é um piscar Divino. Reli hoje o que havia escrito no tempo em que eu transitava pelo inferno e custo a acreditar que consegui sobreviver e que o que parecia insolúvel resolveu-se em tão pouco tempo. A Marta de hoje, não é a Marta de outrora. Agora que escapei do inferno, sinto-me mais viva do que nunca, com uma enorme sede de absorver a vida até a última gota. Tenho esperança, baseada na certeza que ainda serei feliz.
A todos que me amam e sofriam por mim, posso dizer de cabeça erguida: sosseguem os seus corações, pois combati com honra e RENASCI.



















sábado, 14 de maio de 2011

Até Quando?



Até quando terei que esperar para viver? Quando poderei fechar a porta atrás de mim e abandonar o passado com suas inúmeras dores e curar as feridas? Não consigo contar todos os sofrimentos, porque são inúmeros e inacreditáveis. São tantos, que meu cérebro em sua sabedoria, tirou-os de minha memória, para que eu os resgatasse aos poucos quando estivesse preparada para não enlouquecer. Mesmo assim, eu só pensava em morrer. Antes de dormir meu último desejo era não acordar. Minha mente estava o tempo todo forjando planos infalíveis de suicídio, mas depois de bem repassados, descobria uma falha que poderia me deixar viva e em piores condições. Então eu achava que descobria outra forma e começava a sonhar com ela, aquela que finalmente tiraria aquela dor monstruosa que me consumia. Os braços da morte me pareciam mais aconchegantes do que qualquer braço materno. Ao pensar nela eu sorria...e mais uma vez descobria uma possibilidade de erro. Nem o direito de morrer me era dado. Quando finalmente descobri a forma perfeita, repassei-a inúmeras vezes e vi que daria certo. Com carinho preparei o material de minha libertação e por dentro antegozava o prazer da liberdade. Nesse dia aconteceu algo tão escabroso, que outras pessoas me tiraram a pior parte do meu fardo de espinhos e me conduziram aos profisssionais que estão me ajudando. Mesmo assim ainda existe um cabo de aço me prendendo ao passado, que ninguém pode desprender, a não ser a própria vida. Quase não penso mais em morrer, mas ainda não comecei a viver. Às vezes penso que ainda serei feliz, mas não vejo como. Meus frágeis castelos de areia desabam todas as vezes que tento levantá-los. Até quando?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

OÁSIS









Me arrastando pelo deserto

Areia escaldante nos pés.

A garganta cheia de espinhos

Pela sede e pelo pó.

Nas noites claras e belas

O frio penetra os ossos

E o medo me congela.

Escorpiões picam meus pés

Cobras deslizam pelo chão.

Depois de tanto tempo perdida

Eis que avisto um oásis.

Água, sombra e tâmaras

Solto um brado de alegria.

Reúno todas as forças

Corro como uma gazela.

Mergulho as mãos na água

E descubro que é só areia...















domingo, 10 de abril de 2011

A Busca da Felicidade

Parece que a felicidade não é coisa que se busca. Ela é irracional e inconstante, não segue manuais, doa-se a quem quer, não é seletiva. Siga tudo o que dizem os textos de auto-ajuda, que não servirão de nada se ela não o desejar. Faça tudo da forma que lhe é ensinada, pode não dar certo. Faça o contrário, e você pode ser uma pessoa feliz. Certo talvez, seja não procurá-la, pois parece que ela que ela gosta de escolher e não ser escolhida. Desde sempre fiz tudo para alcança-la, mas não consegui. Falo da felicidade no amor, pois sou amorosa por excelência e gostaria de oferecê-lo a alguém. De hoje em diante, não o procurarei e tentarei mesmo fugir desse tipo de felicidade. O amor não foi feito para mim, ou as pessoas não querem mais um amor de primeira qualidade. Ainda não sei o que fazer com tanto amor que insufla meu coração e não sei como joga-lo fora...

sábado, 8 de janeiro de 2011

Amo Drinks

KIR ROYALE




Colocar numa taça "flute"um pouco de gelo triturado,
dois dedos de Licor de Cassis, completar com Champagne
e enfeitar com cereja ao Maraschino. Não misturar, para um efeito mais elegante.
É facílimo de fazer, romântico, excelente para os cavalheiros servirem às damas que convidam à sua casa. Mas, por favor, cuidem para que os produtos sejam de primeira qualidade, nos dois casos.

PÁSSAROS FERIDOS - Colleen McCullough


Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro-alvar, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e despede um canto mais belo que o da cotovia e o do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois O MELHOR SÓ SE ADQUIRE À CUSTA DE UM GRANDE SOFRIMENTO...Pelo menos é o que diz a lenda.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Cômico e Trágico

Na minha antiga casa, meu marido sempre estacionou o carro de frente, na garagem. Um dia, percebi que ele havia estacionado de ré. O alarme soou na minha cabeça e eu perguntei porque ele havia estacionado assim. À época, ele tinha um Del Rey (não sei se escreve assim) novo, ar-condicionado, vidros fumê, um luxo. Voltando ao questionamento, respondeu que colocou o carro assim porque de repente deu vontade. E o alarme tocando no cérebro... Resolvi olhar o carro e ele veio atrás, tentando fazer com que eu mudasse de itinerário. Quando cheguei na frente do carro, eis que encontrei uma cratera, como se uma pedra gigante tivesse caído ali. Perguntei o que havia acontecido e ele disse que havia atropelado um cavalo. Continuei a investigação e percebi outra depressão menor na parte posterior do teto. Aí, fiquei sem entender nada, porque de acordo com minha "perícia", nem mesmo a cabeça do cavalo chegaria ali, a não ser que fosse uma cabeça voadora. Chamei o "meliante"de volta e pedi que explicasse a outra depressão. Pasmem com a cândida resposta: "Ah, sim, é que eu esqueci de te dizer, que em cima do cavalo havia um homem!" PS: os atropelados sobreviveram.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Sobre o Não Ser

Relutante, venho aqui escrever não sei exatamente o quê. Encontro-me numa fase de catalepsia emocional, da qual não sei em que estado sairei. Sinto-me no limbo, flutuando no nada. As sensações estão embotadas no fundo da mente, não sei mais quem sou. Sei que devo esperar: mas esperar o quê? Até quando? Tenho que me parir, acho. Mas sobreviverei? Nascerei completa, com todos os dedos, braços e pernas? Nascerei com coração? Os dias são longos, solitários e sombrios. Acho que o líquido amniótico turva minha percepção. Às vezes o cordão umbilical trava minha garganta. E continuo presa num eterno giro, esperando a luz chegar.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Adaptação de um texto de Artur da Távola


"Quem diz que gato é arrogante, egoísta, safado e espertalhão não conhece um gato.

Gato é zen, é Tao, vê além do homem e relaciona-se com a essência.

Exige respeito pela sua individualidade, mas também sabe respeitar a dos que o cercam.

Não pede amor, mas é exigente com quem ama e exige retribuição.

Discreto, quando manifesta afeto é muito verdadeiro.

Se o homem não sabe ver o gato, o gato sabe ver o homem.

Vê mais, vê dentro, vê além.

O gato é uma lição de harmonia, equilíbrio e fidelidade.

Suas manifestações são íntimas e profundas, vive do verdadeiro e não se ilude com aparências.

Em toda a natureza, ninguém aprendeu a bastar-se como um gato!"
Por quê escrevo tanto sobre gatos? Porque eu tenho alma felina.

domingo, 10 de outubro de 2010

Rótulos

Quero me despir
de todos os rótulos.
Que afastam
e blindam.
E quando todos eles caírem
surgirei livre,
Fêmea e Fênix.
Os rótulos, vou guardá-los
cuidadosamente.
Depois de morta
Podem (e devem) recolocá-los.
Pois é sabido que os mortos
Quase sempre são santos.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Tristeza

Estou tão triste, tão triste, que dói. Literalmente. Sinto uma dor tão grande, que sai do coração e chega à garganta, onde se condensa em um nó permanente. Como pode uma pessoa viver sem sonhos? Como viver sem esperança? Sem emoção? Tão ferida estou, que gostaria de me deixar morrer. A cada dia reajo menos, mais difícil me arrastar em busca de um pouco de alegria, o alimento que me mantém. Mas não há um pedaço de mim que não esteja ferido. Às vezes me aproximo de pessoas que poderiam me fazer um afago que aqueceria meu coração. Mas não sei se elas não percebem o quanto poderiam me ajudar, ou interpreto como agressão as mãos que para mim se estendem. Então mordo. E volto ao meu canto, mais dolorida. Desisti. Uma criatura tão ferida não deve se aproximar de ninguém. Nada de bom tenho a oferecer, já me esvaziei...

domingo, 3 de outubro de 2010

Fruta Madura

Nua na frente do espelho, ela se olha de relance.

Não queria, mas precisa.

Por quê a natureza lhe pregou essa peça?

Se aproxima e relutante se toca: cabelos, rosto.

Corpo nas corretas proporções.

Com as mãos em concha, sente o peso dos seios.

Redondos e sensíveis.

Toca a maciez da pele.

Barriga, coxas, nádegas, quadris.

Fruta madura e doce.

Esquecida, no fundo de uma gaveta.

sábado, 25 de setembro de 2010

A Morte Desnecessária

Quando eu morava em Brasília, por algum tempo vivi num apartamento que não tinha garagem, mas sim vagas na frente do prédio. Em certa madrugada ouvi um barulho vindo da direção onde eu havia estacionado o carro, perto da janela do meu quarto. Sem acender as luzes abri de leve a cortina, quando vi um rapaz com um galão e uma mangueira, roubando combustível do carro ao lado do meu. Por um instante hesitei entre chamar sua atenção ou telefonar para a polícia. Nisso, um tiro ecoou, vindo do apartamento vizinho. Uma mulher gritou, ouvi o barulho de um tapa e uma voz masculina mandando que ela calasse a boca. Olhei para o rapaz e ele estava caído. As luzes começaram a se acender e as pessoas a sair. Então pude ver que ele tinha recebido um tiro fatal na nuca. Estava bem vestido e ainda era um adolescente. A polícia descobriu um carro sem combustível próximo ao local e ficou-se sabendo que o garoto era de classe média alta, tinha dezoito anos e havia pego o carro dos pais escondido. Quando acabou o combustível, resolveu tirar de outro carro, para que eles não descobrissem. Por muito tempo me culpei por não ter gritado com o garoto imediatamente. E o pior, é que o assassino nem mesmo era o dono do carro.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Dúvida? Espere Esfriar...

Ontem recebi um e-mail daqueles cabulosos, que você não sabe como responder, porque não entende bem o que existe nas entrelinhas e fica em dúvida sobre o que dizer à pessoa, sem se comprometer. Li e reli diversas vezes, quando me lembrei de ter visto escrito em algum lugar, que quando você estiver numa situação como essa, deve colocar a "batata quente" de lado e esperar esfriar, porque depois saberá o que fazer. Deixei o e-mail quietinho na caixa postal e fui responder aos outros e fazer tudo que devia fazer no computador. Parece que enquanto o problema fica no canto, sábiamente o computador maior que é o nosso cérebro, fica trabalhando naquilo. Quando voltei para encarar o "dito cujo", tive um "insight"; eu possuo o sagrado direito de dizer NÃO. Posso me recusar a receber um telefonema, posso me recusar a fazer o que não quero, posso me recusar a receber visitas indesejadas, então posso recusar um e-mail que entrou na minha intimidade e não é bem-vindo. Com uma sensação de alívio, peguei o cursor e exclui.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Funeral Blues - de WH Auden

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
"Ele está morto"
Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.
Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.
Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.
Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.

sábado, 24 de julho de 2010

O Mistério das Freiras Escorraçadas

Um fato me intriga desde que eu era criança (não vale nenhuma piada sobre idade, porque sim, eu já fui criança). Entrei no colégio interno aos sete anos, como era de praxe; não ir para o colégio interno, mas pela idade, entenda-se. Era um colégio de freiras, onde estudavam as crianças cujos pais desejavam uma educação mais apurada para as filhas, pois falávamos, rezávamos e cantávamos em português e francês, além de aulas de etiqueta, instrumentos musicais, pintura, etc., etc. Nessa época eu era a mais jovem do colégio e a menor em estatura, daí naturalmente virar a mascote do colégio. Eu chamava as irmãs de "tias" quando esse era apenas um tratamento de parentesco, elas e as meninas mais velhas me colocavam no colo e me chamavam de Martinha. Eu adorava o colégio e as irmãs. Em determinadas férias de final de ano, fui para a fazenda e quando retornei , não encontrei nenhuma das minhas queridas irmãs. Quando minha mãe questionou, disseram que a direção resolvera transferí-las e como se tratava de normas internas, ninguém tinha permissão para falar sobre o assunto. Isso era totalmente inusitado e incompreensível. Logo ficamos sabendo que um dia, de repente, chegaram à cidade algumas personalidades eclesiásticas e todas as freiras substitutas. Durante a missa, o Bispo, sem explicar a razão, teria pedido às senhoras da cidade para trazerem ao colégio roupas e lenços de cabeça ( as irmãs usavam hábitos fechados e raspavam a cabeça), alegando que elas teriam que sair do colégio em trajes normais, e que, inclusive, as pessoas deveriam abrigá-las até que elas pudessem resolver onde ir. Minha mãe conversou com pessoas que recolheram algumas delas e essas pessoas disseram que as irmãs choravam muito, mas se recusavam a dizer o que havia acontecido. Até hoje eu me questiono: o que elas poderiam ter feito de tão grave, que ninguém percebeu? Por que mereceram uma punição tão severa, como a expulsão?

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cantadas de Pedreiros

A cada dia ficam mais escassas as famosas cantadas de pedreiros. Os peões de obra faziam verdadeiras terapias, aumentando a auto-estima das mulheres, que em sua maioria faziam de conta que não estavam ouvindo, mas quando eles não estavam mais vendo, exibiam um sorriso maroto, pois além de engraçadas, as cantadas eram distribuídas generosamente, mesmo para aquelas menos favorecidas. Lembro-me que um dia, uma amiga chegou em minha casa genuinamente triste, achando-se horrorosa, porque passara frente a uma obra e não ouvira nem mesmo um assovio. Tive que explicar-lhe que algum fato extraordinário devia estar acontecendo quando ela passou, porque se assim não fosse, jamais ela passaria imune. Hoje um fato sociológico vem fazendo com que o papel dos pedreiros esteja se transferindo para os garis dos caminhões de coleta de lixo. Acho que as leis do trabalho com seus tapumes e equipamentos de segurança, estão isolando os "poetas" das suas "musas". Assumem aqueles que antes eram calados, mas não sei através de qual arranjo ou código secreto, receberam a sublime missão de continuar o trabalho abnegado de seus machos companheiros. Aconselho a quem tem sentido falta de uma boa cantada cafajeste, nem que seja para dar uma risada, que deixe seu carro e passe displicentemente perto de um caminhão de lixo. Eles ainda não estão muito afiados, mas há que se considerar que estão começando agora e dar-lhes um desconto...Rsrsrsrsrsrs...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Prato Orgásmico


Considero prato orgásmico aquele que você começa dizendo"ai meu Deus!"na primeira garfada e continua gemendo até acabar de comer. No momento tenho três pratos nessa categoria, e, acho que não por acaso, todos à base de camarão; o primeiro é camarão com arroz, queijo brie e damasco, servido no Cantinella, uma combinação perfeita de sabores. No Bambina, para quem adora alho, o Camarão à Provençal é uma coisa! Aliás, todos os pratos ali são ótimos. Depois, no restaurante Flor de Sal, há o imperdível Camarão Tropical (faz até rima), com leite de côco e capim-santo, que é uma viagem dos sentidos. Se você resolver experimentar qualquer desses pratos, só devo dar um conselho: controle-se, para não escandalizar as outras pessoas presentes. Rsrsrsrsrsrsrsrs...Quero deixar claro que esse "merchandising" é gratuito; são apenas dicas para meus amigos que gostam de usufruir dessa delícia da vida, que é comer bem. "Bon apetit!"

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Folia de Reis Fantasma

Eu me lembro assim e minha mãe confirma. Lá pelos meus cinco ou seis anos, quando morávamos numa fazenda no fim do mundo, aconteceu um fato que até hoje me intriga. Não tínhamos vizinhos muito próximos e havia um caseiro chamado Alvino, que vivia numa casa construída numa clareira atrás da nossa. Havia uma estradinha que ladeava a nossa casa, atravessava uma pequena ponte e saía em frente à dele. Sendo assim, o único acesso era através da nossa, e só havia uma estrada para chegar à fazenda. Minha família era presbiteriana, portanto, na época de Reis, os Grupos de Folia não nos visitavam. Um dia, meu pai e Alvino viajaram para algum negócio, e ficamos na casa principal minha mãe e eu, e na outra, a esposa dele Vanda (que ajudava nos serviços domésticos) e o filhinho pequeno. Nessa noite específica, havíamos acabado de nos recolher, quando começamos a ouvir o barulho de uma Folia de Reis que se aproximava. Até hoje a cantoria, o toque dos instrumentos, o barulho dos cavalos, são nítidos em minha mente. Minha mãe se apavorou porque todos sabiam que éramos "crentes", meu pai não estava em casa e ela não estava preparada para servir comida e bebida para uma Folia que parecia ser grande. Eu, curiosa como toda criança, queria abrir a janela para vê-los e minha mãe impediu, argumentando que assim teríamos que deixá-los entrar. Nisso ela ficou aliviada, pois eles não pararam e seguiram a estradinha lateral, em direção à outra casa, o que era estranho, embora eles fossem católicos. Passados alguns minutos fez-se um silêncio repentino e logo depois a Vanda começou a esmurrar a nossa porta pedindo pelo amor de Deus que minha mãe abrisse a porta. Lembro-me como se tivesse acontecido ontem, dela entrar correndo com o filho no colo, pele totalmente pálida e de olhos assustados. Pediu que minha mãe fechasse a porta depressa e com a voz estrangulada de medo disse que ouviu o mesmo que nós e estranhou que fossem à nossa casa; depois percebeu que tomavam a direção de sua casa e ficou preocupada por não poder recebê-los com as devidas regalias. Mesmo assim, quando pararam no pátio da frente, achou que devia oferecer pelo menos um café. Estavam cantando e tocando quando ela abriu a porta. Mas não havia nada nem ninguém, apenas o luar e o silêncio.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Friozinho!...


Gente, tem coisa mais gostosa do que frio? Passo o ano inteiro esperando esfriar em Rio Preto, o que é meio difícil. Se eu pudesse teletransportar meus amigos -será que eles iam querer?- juro que iria para Santa Catarina, quem sabe para Gramado, Campos do Jordão, Monte Verde, Petrópolis ou Teresópolis, ou para qualquer lugar onde pudéssemos tomar vinho sentindo o calor e o cheiro de pinho vindo da lareira, ou tomar chocolate quente, degustar um maravilhoso "fondue" usando roupas quentinhas e elegantes, porque convenhamos, ninguém fica muito chique no verão. E a feijoada com caipirinha? E o pinhão cozido? E os caldos? Não é uma delícia dormir debaixo de um edredom de plumas? A pele fica linda e os cabelos brilhantes, podemos usar perfumes mais doces, é gostoso dormir agarradinha, nem que seja com seu cachorro ou gato. Mas é obvio que um companheiro humano é muuito melhor!...

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Meu Outro Nome

Às vezes me esqueço que por muitos anos eu tive outro nome. Aconteceu o seguinte: meu avô paterno queria que meu nome fosse Leandra e meus pais não concordaram. Teimoso como era, ele resolveu que não me chamaria de outro nome e tornei-me Leandrinha. Meu "vô Chico" usava sempre chapéu e botinas e era uma figura fácilmente distinguível à distância, graças também à sua voz potente. No caminho entre minha casa e o colégio, em frente ao Banco do Brasil, havia uma espécie de "senadinho" ( lugar aqui em Rio Preto onde os homens se reúnem para falar de tudo). Vô Chico, com seus olhos de águia, ficava ali com os amigos, mas atento à minha passagem. Assim que me localizava, seja a que distância fosse, batia o pé no chão e estremecia a vizinhança com o grito imutável: -LEANDRINHA! VEM CÁ CAPETA!... e eu, vermelha de vergonha, pois era extremamente tímida, tinha que chegar perto e pedir-lhe a bênção. Nessa época, fazíamos o jogo do gato e rato. Eu tentava me esgueirar entre carros e pessoas para pegá-lo de surpresa quando já estivesse colada nele, e ele, por sua vez, ficava esquadrinhando a rua para poder soltar o seu grito de abalar quarteirão. Acho que ele adorava isso...

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Tonterias

Se existe um troféu para gente tonta, é meu. Faço coisas, que Deus e os mortais duvidam. Um dia fui a uma clínica pegar uns resultados de exames e meu marido resolveu esperar no carro. Saibam que entendo de carros tanto quanto entendo de física nuclear; não conheço marcas, não observo cores, muito menos placas. Pois bem. Peguei os resultados, saí e entrei no primeiro carro que vi na frente. Como sou extremamente vaidosa, abri a bolsa, tirei o espelho e o batom, retoquei, e nada do carro se movimentar. Aí cobrei uma atitude: "-amor, não vamos sair daqui?" resposta:"-para onde você quer ir?". Assustada olhei para o motorista e me deparei com o sorriso cínico de um rapaz que eu nunca havia visto. Rezando para que um meteoro caísse na minha cabeça, olhei para trás e vi meu marido com aquela expressão de -vamos ver o que a doidinha está aprontando agora-, esperando calmamente. Pedi desculpas ao rapaz e antes de descer ainda ouvi um "volte sempre!". Acho que ele simpatizou comigo e queria passear...

sábado, 22 de maio de 2010

Meu Tio

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que meu tio não é maluco; é lúcido, tem uma conversa agradável e muitos amigos. É apenas excêntrico. Quando era jovem, apaixonou-se por uma bela moça e ficaram noivos. Comprou uma casa e tudo transcorria entre arrulhos, até que ele deu carta branca para que ela escolhesse os móveis. A cada dia ele se mostrava mais fechado e em poucos dias procurou os pais na noiva e simplesmente desfez o noivado, sem mais nem menos. Noiva desesperada, famílias atarantadas, quando ele foi práticamente forçado a explicar que ela estava exageradamente interessada em luxo antes do casamento, imaginassem depois; e que portanto, o capítulo casamento, no que lhe concernia, estava encerrado para sempre. E assim foi. Dizem as más linguas que desde então ele recebe moças discretas, que vão à sua casa "prestar-lhe favores"e que entram e saem à noite, sendo substituídas regularmente, para evitar apego de qualquer das partes. Certamente ele achou esse arranjo mais coerente. É hoje um homem com mais de setenta anos, mas conserva intacta embora totalmente branca a sua bela cabeleira leonina e olhos verdes amendoados. Um dia meu tio resolveu abrir um bar, que funcionou muito bem até que num de seus repentes resolveu fechá-lo. Mas esbarrou com a burocracia que exigia o pagamento de uma taxa para isso. Decidiu que não era justo e até hoje, mais de dez anos depois, mantém o bar aberto mas não vende nada, apenas recebe os amigos para conversar. Diz que morre antes de pagar a tal taxa. Ele tem um cômodo na sua casa, repleto de caixas de creme dental, já secos dentro das embalagens. Não adianta perguntar, que ele não conta para que os guarda. Primos brincam que seriam a única salvação numa possível hecatombe nuclear (rsrsrsrsrs...). Tenho muito mais a contar sobre ele, mas não gostaria que o classificassem como desequilibrado, porque estranhamente (???) eu o compreendo e temos uma grande afinidade. Até a próxima. Beijos.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Mágoa

Houve um tempo em que eu não conhecia um sentimento chamado mágoa. Minha vida não foi fácil, mas eu era feliz. Acreditava em padres e médicos, e nas pessoas em geral. Casei e abandonei um excelente salário e uma carreira promissora, porque meu sonho de criança era ser mãe e esposa, envelhecer ao lado de meu marido, cercada de netos. Escolhi com cuidado um homem de coração grande e sentimentos nobres, que sonhasse o mesmo sonho. Trabalhamos e estudamos muito, planejando uma velhice num sítio cheio de plantas e flores, com um cachorro e um gato e um riozinho de águas transparentes. Ah! teríamos um carro resistente, pois faríamos muitos passeios ecológicos, principalmente pelo sul, região que gostamos muito. Cultivaríamos uma horta orgânica e tomaríamos vinho em frente à lareira. Material e emocionalmente tudo se encaminhava bem, quando tivemos a infelicidade de encontrar pela frente uma daquelas pessoas em que acreditávamos piamente, que teve a "coragem"de olhar dentro dos meus olhos e garantir que era um dos melhores médicos do País na sua especialidade. Com um bisturi ele destruiu nossa vida e todos nossos sonhos e me presenteou com uma mágoa com a qual tenho que lutar todos os dias, pois o bisturi dele continua cravado em meu coração. Desculpem se hoje não estou
divertida, mas depois de mais uma noite acordada cuidando de uma tênue imagem do homem vigoroso e alegre que confiei às mãos daquele que antes de levá-lo para a sala de cirurgia ainda falou de sua fé em Deus,
fica difícil recuperar o equilíbrio. Mas podem acreditar que eu consigo. Provávelmente hoje mesmo já terei de volta o meu senso de humor. Ele não vai me tirar isso também. Beijos aos que nos amam e aos médicos sérios e amigos que temos, felizmente.

domingo, 9 de maio de 2010

Para Sempre

Trancrevo um poema de Carlos Drummond de Andrade, oferecido a mim por minha filha Caroline. Obrigada a minhas duas "menininhas", pelo carinho que sempre demonstraram, especialmente hoje, quando a minha alma brilha, na expectativa do primeiro neto. Serei mãe para sempre, cumprindo o papel que mais gosto, no teatro da vida.
"Porque Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite
É tempo sem hora
luz que não apaga
quando sopra o vento.
E chuva desaba
veludo escondido
na pele enrugada
água pura, ar puro
puro pensamento
Morrer acontece
com o que é breve e passa
Sem deixar vestígio
Mãe na sua graça,
É eternidade
Por que Deus se lembra-mistério profundo- de tirá-la um dia?
Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei
Mãe não morre nunca,
Mãe ficará para sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino,
Feito um grão de milho."

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Deusa Mãe


É tempo de reverenciar as mães. Como não existem regras sem exceções, sabemos que nem todas são como deveriam ser. Há mães cruéis, negligentes, sádicas, egoístas. Estas me entristecem.
Mas felizmente, dentro da maioria das mulheres existe o maravilhoso instinto materno, que, independente de gestação, cria um sentimento de amor incondicional, o desejo de proteger e cuidar.
Mulheres de verdade fazem os ensaios de maternidade cuidando dos "dodóis"das suas bonecas e depois tornam-se mães de filhos biológicos, adotivos, maridos, animais, irmãos, amigos, e, até mesmo dos próprios pais.
São mães dos alunos, dos subordinados, dos pacientes, dos amigos dos filhos, de todos aqueles que elas conseguem colocar dentro do seu círculo de atenção.
É para estas mulheres, mãezinhas de 2 a 102 anos, que carregam no coração a chama divina do mais desprendido amor, que dedico minha imensa admiração. Feliz dia das mães!...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Receita de Mulher

Gosto demais deste poema de Vinicius de Moraes. No entanto, como é um pouco extenso, quero dividir com vocês, pelo menos a última parte.
"...
Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a altitude mental dos altos píncaros
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abrí-los ela não mais estará presente
Com o seu sorriso e suas tramas
Que ela surja, não venha, parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer súbitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável."

domingo, 25 de abril de 2010

"Serial Killer"de Gatos

Hoje, quando acordei, tive um "insight"; deve existir alguém por aí pensando que sou uma cruel assassina de gatos, logo eu que os amo tanto. Quando morávamos em Cuiabá, tínhamos uma casa enorme, com um lindo jardim de plantas ornamentais e frutíferas. Um dia apareceu por lá um gato de rua, com presas enormes e visíveis sinais de longos anos de luta pela sobrevivência. Veio com jeito de que moraria conosco, embora extremamente arisco. Como entendo a psicologia felina, pedi que ninguém tentasse tocá-lo, apenas que fosse bem alimentado. Quem conhece o sabor da conquista por merecimento pode entender a alegria que senti quando um dia, enquanto estava sentada na varanda, ele veio sutilmente, esfregou-se em minhas pernas e concedeu-me o privilégio de alisar as suas costas. Em poucos dias nós o encontramos morto. Resolvi enterrá-lo debaixo de uma frondosa mangueira. Logo começaram a aparecer gatos vira-latas idosos ou muito doentes, que transformaram minha casa num asilo. Eram cuidados até a morte e fiz da sombra da mangueira um cemitério. Quando nos mudamos de lá, tive o desprazer de ver todo o jardim arrancado, inclusive a bela mangueira, pois os novos donos não gostavam de plantas. Hoje fiquei imaginando a reação deles se encontraram um monte de esqueletos de gatos enterrados no mesmo lugar. É possível que tenham pensado que eu matava os gatos que entravam na minha casa, quem sabe em rituais macabros!...Credo!...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Agnosticismo

Nasci em família protestante, mais precisamente presbiteriana. Estudei sempre em colégio católico. Criança li toda a Biblia, impulsionada pelo imenso desejo de decifrar aquilo que as religiões não podiam me explicar. Assim, além das religiões mencionadas, pesquisei profundamente o espiritismo, li sobre o budismo, o islamismo e todas as seitas e segmentos que abordavam o assunto. Só depois dos cinquenta anos tornei-me agnóstica e interrompi a frenética procura. Descobri que só posso saber com certeza de duas coisas: 1-existe uma força suprema que rege todo o universo; 2-sou tão pequena que nunca vou alcançar os seus mistérios. Portanto, resolvi que cabe a mim apenas viver cada momento, seguindo a ética da minha consciência, que não por acaso, coincide com os princípios básicos de todas as religiões. Acho que a dor extrema me ensinou isso. Finalmente serenei.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Madrugadas Tragicômicas

Meu amado sofre (também) do Mal de Parkinson. A doença já está num estágio avançado. Não sei se por ela ou por efeito colateral do remédio, ou porque o sonambulismo da juventude voltou de uma forma diferente, as nossas madrugadas são agitadas. Vou contar o roteiro da noite que passou. Pouco depois das três horas ele me acorda e diz carinhosamente: -Bom dia, meu amor! Como tenho dificuldade em recuperar o sono, ainda estou acordada, quando novamente sou tocada e ouço: -Boa noite, meu amor! Um pouco mais tarde e já insone, ouço a pergunta: -Hoje é segunda ou terça? Respondo: -É segunda, meu bem! Daí a pouco ele me pede para fazer "conchinha", um hábito que cultivamos durante todos esses mais de trinta anos, mas de manhã, não às quatro e pouco da madrugada. Me encaixo, e enquanto ele ressona e balbucia, eu espero o dia amanhecer e faço o *jogo do contente*; que bom que ele está vivo para fazer isso! Depois do almoço eu durmo!

A Avó Que Subiu no Telhado

Imaginei que todo mundo conhecia a história do *gato que subiu no telhado*. No ano passado, depois de receber um telefonema de uma cunhada que mora em Belo Horizonte, liguei para minha filha Carol:
-Ôi filha, tudo bem? Pois é, eu tenho uma notícia para te dar, que infelizmente não é muito agradável;
-Credo, mamãe, o que aconteceu? Papai está bem?
-Não se preocupe, ele está bem, mas a sua avó, a mãe dele(não disse o nome, porque as duas avós são homônimas), subiu no telhado;
-O quê? mamãe, você está bem? Como a vovó, com mais de noventa anos e na cadeira de rodas ia subir no telhado?
-Na verdade, depois eu ia dizer que ela caiu do telhado!
-Agora eu que estou cada vez mais preocupada com você. Como vovó ia cair do telhado se ela nem mesmo consegue subir?
Então percebi que eu fui infeliz na escolha da abordagem e contei sem anestesia, que a avó havia
falecido. Essa é Marta, bem intencionada, mas nem sempre bem sucedida.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Dividindo...

Ôi. Sabem porque escolhi este nome para o meu blog? Lógico que sabem. Eu pretendo fazer cumprir o destino deste instrumento virtual: escrever e dividir as minhas vivências, as coisas alegres, as divertidas, e, porque não, as minhas tristezas. Para mim amigo é o que ri e o que chora com a gente. Quando fiz a última postagem, eu tinha encontrado no meu caderno de notas aquele poeminha despretencioso que eu escrevi num dia de muito amor. No momento em que li, abriu-se a ferida que me esforço para cicatrizar, e eu não consegui segurar as lágrimas. Ao dividir a minha dor com vocês, mostrei o meu lado frágil e fiz um desabafo no ombro de amigos.
É dividindo que aliviamos o peso do fardo. Obrigada a quem leu e entendeu. Até breve!