Tenho ganas de xingar ou rir quando uma pessoa tem a ousadia de dizer que o idoso está na melhor idade.Me pergunto se é ironia de mau gosto ou ignorância total? Já ouvi idosos dizendo isso e não consigo saber se a pessoa está tentando se iludir e fazer de conta que está feliz ou teve uma vida tão triste que hoje esse simulacro de vida é o que teve de melhor. Ou estarão tentando esconder suas mazelas para não ficarem "mal na fita"? Como pode uma pessoa acompanhar o desmoronamento de seu corpo, o desequilíbrio de sua mente e ficar feliz? Olho no espelho e não reconheço a mulher linda que fui. A minha mente brilhante hoje prega-me peças e perdi em algum canto escuro de meu cérebro a única pessoa em quem podia acreditar cegamente. Todas partes de meu corpo doem ou estão prejudicadas e traem meus movimentos, eu que era forte e independente e raramente precisava de ajuda. NINGUÉM está preparado para a velhice, porque quem a romantiza ainda não sentiu seu peso. Sem falar no aspecto social, quando vamos evanescendo gradativamente até nos tornarmos uma sombra inconveniente. Se reclamamos todos aqueles que ainda não percorreram esse triste caminho apresentam uma solução maravilhosa para cessar nossos sofrimentos e nos tornarmos instantâneamente super-velhos sarados. Muitos de nós temos a felicidade de ter netos, mas sentimos a dor de não estarmos sempre com eles e de quando estamos, não conseguir pegá-los no colo ou correr com eles nas suas brincadeiras de pique ou de bola. Hoje sou uma figura patética e insegura, que perdeu quase todas suas qualidades e prazeres e reza para não ter mais uma noite de pesadelos e de preferência não acordar. Porque dormindo só incomodo a mim mesma, mas acordada a cada dia incomodo mais aos outros e perco a minha tão trabalhada dignidade. Uma coisa é certa: não foi essa vida que imaginei para mim e não creio que nenhum ser humano mereça assistir sua própria deterioração em vida. Em que ponto a humanidade errou?
quinta-feira, 20 de março de 2025
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025
Às Vezes é Tempo de Calar
Quando abri esse blog o objetivo era aliviar minha alma de tanta dor e externar aquilo que mais me magoava e que eu sempre silenciava e escondia porque tinha aprendido que "roupa suja se lava em casa". Hoje sei que esse aforismo é um dos recursos que os abusadores inculcam nos abusados para esconder seus atos. Escrevi muitas coisas que me deram certo alívio na época, mas passado o tempo descobri que não quero expor essas pessoas, porque seria uma coisa ruim que sempre estaria ligada à minha imagem quando meus descendentes lessem. O que é escrito atravessa séculos. Por isso apaguei o pior e deixei apenas o que mostraria minha essência, meus gostos e curiosidades. Hoje estabeleci que de agora em diante há muitas coisas para calar. Tentarei mostrar a leveza e humor que estão dentro de mim, qualidades que me fizeram superar as épocas ruins e me reconstruir.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Quando o Demonio tornou-se Anjo
Um dos piores infernos em que estive ocorreu entre 2008 e 2011 quando meu marido adoeceu e morreu. De um dia para o outro, entreguei um homem forte e saudável no hospital e me jogaram nos braços um vegetal que não era mais capaz de se movimentar, comer, beber e nem mesmo falar. Ninguém me ensinou como cuidar desse homem-bebê de 1.85 m e eu fiz tudo, numa cidade onde eu estava sozinha, não tinha empregada e nem mesmo dirigia (consequência de um trauma). Eu nem sabia que podia contratar cuidadores, passava dias e noites correndo a pé ou de taxi para cobrir todas as necessidades dele e ainda cuidar do apartamento imenso. Virei uma sombra exausta, mas consegui com que ele voltasse a ser um pouco do que era. Mas aí ele estava surtado e passava o tempo todo me espancando e tentando me matar e eu já estava entregue, quando os vizinhos chamaram uma ambulância e a polícia e ele foi levado para um hospital psiquiátrico e eu fui atendida por uma vizinha psiquiatra e uma psicóloga que trabalharam juntas para me recuperar e me tirar da apatia. Alguns meses depois ele faleceu e começou meu novo tormento. Aqui quero observar que eu estava privada de pensamento lógico e minha vida era uma névoa de dor enquanto tomava remédios fortes e fazia análise. Tinha um telefone fixo no quarto e todas as noites, por inúmeras vezes um homem me ligava dizendo as maiores obscenidades e descrevendo com detalhes escabrosos o que iria fazer comigo antes de me matar e jogar meus pedaços numa vala. Eu desligava e ele voltava a ligar pelo resto da noite não me deixando dormir. Uma noite desisti de desligar e deixei o telefone no travesseiro enquanto ele falava o que queria pensando que eu estava ouvindo. Mas a situação era tão horrível que comecei a chorar e do choro passei a uivar, quando percebi que ele começou a gritar meu nome com insistência. Peguei o telefone e perguntei o que mais ele queria de mim. Ele se mostrou surpreso e perguntou por que eu estava chorando. Falei que depois de tudo que eu estava passando ainda tinha que ouvir constantemente as ameaças dele, então eu só me restava chorar e esperar que ele cumprisse as ameaças. É importante dizer que ele tinha um palavreado característico de gangues, o que fazia com que suas ameaças se tornassem mais críveis. Ele pediu que eu contasse que sofrimentos eram esses e eu contei mais ou menos o que citei acima. Ele ouviu tudo calado e perguntou se eu tinha algum remédio para dormir e eu disse que sim, mas que ele mesmo me deixava acordada todas as noites e durante o dia tinha medo de sair de casa e ele estar me esperando para me sequestrar e fazer tudo que prometia. Então eu que fiquei surpresa, porque ele disse que tinha sido enganado pela pessoa que o mandou, que eu podia dormir em paz, que ele só me ligaria mais uma vez na noite seguinte e que eu poderia atender tranquila. E ele fez o que prometeu; na noite seguinte ligou com uma voz doce, disse que tinha conversado com o pastor dele, tinham orado pedindo perdão pelo que havia feito comigo e que daquele dia em diante ele cuidaria de mim da melhor forma que pudesse, de longe. Se despediu dizendo que eu ficasse com Deus e nunca mais me telefonou. Eu o perdoei de coração, mas não sei quem quis me ferir tanto, embora tenha minhas desconfianças. Mas sei que existem demônios que podem se tornar anjos. O homem que me ameaçava antes não parecia o mesmo de depois.
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