Dismorfia Corporal
A dismorfia corporal se caracteriza pela percepção distorcida da própria imagem e pode causar enormes estragos na vida psíquica dos afetados (Giulia Vidale)
Tenho descoberto muitas coisas sobre mim. Agora descobri que sou branca. OK, pensam que estou brincando? não, é sério. Desde que eu era criancinha minha mãe costumava me chamar de mulata, principalmente quando estava me repreendendo. E isso com uma uma cara de raiva e nojo. Isso me fez acreditar que eu não era branca. Tal como as anoréxicas, eu me olhava e "via" uma pele escura, até no espelho. Passei a vida comprando coisas baseada na minha cor fictícia e sem saber se era adotiva ou se era fruto do relacionamento dela com um homem negro. Usava xampu para cabelos crespos que nunca funcionavam e a primeira pergunta que fiz aos médicos quando minha filha nasceu foi se ela era branca. Fiz isso com tanta naturalidade que fiquei profundamente magoada quando meu marido perguntou se eu tinha certeza que a criança era dele. Certamente ele e o corpo clínico acharam que eu tinha dúvidas a respeito do pai da criança, já que nós dois éramos brancos. Só agora entendi a pergunta dele e acho que isso pode ter prejudicado de certa forma o nosso casamento. Eu dizia para as vendedoras que tal cor não ficava bem para pessoas escuras como eu e não percebia que o riso delas era porque pensavam ser uma brincadeira. As de pele escura geralmente ficavam irritadas e eu não entendia que achavam que eu estava zombando delas. Cheguei a adotar uma criança de pele mais escura que a de toda família e nunca entendi porque ela se achava diferente e dizia que qualquer um que visse a família junta entenderia que ela era adotiva. Recentemente acordei, porque pela primeira vez resolvi comprar uma base para o rosto, coisa que eu nunca havia usado. Cheguei na loja, fui direto ao setor adequado e peguei a mais escura. Uma vendedora se aproximou e perguntou se eu estava comprando para outra pessoa e quando respondi que era para mim, ela fez cara de espanto e falou que eu jamais poderia usar aquela cor, pois minha pele era muito clarinha. Ri, achando que ela estava brincando comigo, mas ela escolheu outra e aplicou no meu antebraço. Surpresa, percebi que ficou perfeita. Nesse instante foi como se uma luz se acendesse e pela primeira vez eu me enxerguei tal como eu sou. Ainda estou me acostumando com minha vida de branca, dando alguns foras, como hoje ao pedir a uma vendedora um short amarelo "porque nós os negros gostamos muito de amarelo" e vendo o amarelo no sorriso dela. A fala é uma arma muito poderosa, principalmente quando vem da mãe da pessoa.
A real percepção de quem ou como somos não é fácil. Principalmente quando associadas a problemas emocionais, a auto percepção, nos traz mais problemas ainda, até que seja compreendida, reavaliada e bem utilizada.
ResponderExcluir