
Maria morava numa cidade do interior, quando não havia separação de classes sociais nos bairros. Em frente à sua casa morava uma família de negros, com muitas crianças. Por ser branca de de classe média, Maria constantemente sofria com o preconceito dos vizinhos. Desde a manhã quando saía para ir ao colégio ela era seguida pelos gritos de "branquela", "coalhada azeda" e tantos outros apelidos referentes à sua cor. Felizmente Maria ficava constrangida por não poder sair de casa sem os acompanhamos xingatórios, mas não guardava rancor. As famílias moraram de frente por muitos anos mas nunca se falaram, talvez pelas palavras, talvez pelo hábito que eles desenvolveram de jogar seus piores lixos no jardim de sua família. Maria cresceu e mudou-se para longe, voltando ocasionalmente ao antigo lar para visitas. Ao ver a casa de frente esvaziar-se gradativamente sempre pedia à mãe noticias dos vizinhos. Um dia ela contou-lhe da triste vida que a matriarca vizinha levava. Por causa do diabetes estava totalmente cega e passando por terrível penúria. O coração de Maria confrangeu-se de tristeza e ela descobriu ali que os inimigos de longa data tornam-se parentes. Pela primeira vez atravessou a rua, pediu licença à porta e dirigiu-se ao quarto escuro e triste onde jazia uma senhora de pele negra e cabelos totalmente brancos.
-Quem está aí?
-Sou eu, Maria, filha de dona Ana, como vai a senhora?
Em prantos ela permitiu que Maria sentasse em sua cama e segurasse suas mãos entre as dela. Quando Maria colocou-lhe nas mãos um maço de notas ela não queria aceitar de forma alguma, dizendo que não merecia. Só mudou de ideia quando com voz embargada Maria explicou que sempre se lembrava dela como uma tia porque todos os anos de proximidade haviam formado um laço maior que o preconceito.